O Comprometido Espectador
quarta-feira, Junho 16, 2004
 
Unbloomsday
Faz hoje um ano nascia O Comprometido Espectador, um blog sobre… Sobre o que é que é, exactamente? Conta quem viu que, nesse dia, o céu se cindiu em dois e dele brotaram sete serpentes aladas, cada uma delas representando uma diferente qualidade humana: a temperança, a obstinação, a paciência, o vício, a inépcia, a fé e a constância. Testemunhas oculares afirmam terem visto um elefante de chifres rombos a urrar na Praça do Rossio. Relatos contraditórios dão nota de cem (nas palavras de alguns circunstantes) ou duzentas (nas palavras de outros) crianças com cauda de porco entoando o Padre Nosso no terminal da Carris à Pontinha. E existe mesmo o testemunho de uma mulher (por confirmar), segundo o qual, às 14.35 dessa tarde, um hipopótamo sem cabeça terá subido o elevador de Sta. Justa, em Lisboa.
Ora, que melhor maneira de comemorar um evento tão momentoso senão encerrando O Comprometido Espectador? Pois é exactamente isso que vai acontecer. Não foi decisão tomada ontem, durante o jantar, mas há meses. Desde há já bastante tempo que me dei o limite da data do primeiro aniversário d’O Comprometido Espectador para o encerrar.
Perguntarão os parcos (parquíssimos) leitores regulares do pasquim: mas porquê, Comprometido? Mas porquê, Espectador? Querem uma resposta sincera? Pois aqui vai. Por nada de especial, a não ser a falta de tempo (que, como toda a gente sabe, é falta de dinheiro). Isto dos blogs é muito divertido. Como sabem as pessoas que cá andam, divertido de mais. Quem, de entre nós, não passou já uma tarde inteira a matutar numa piadinha qualquer para pôr no blog, com o trabalho a empilhar-se na secretária? É que, pode não parecer, mas eu tenho uma profissão, a qual não é escrever blogs. Pode não parecer, mas eu tenho uma família, que não se alimenta de eu escrever em blogs. Pode não parecer, mas eu tenho vícios, que idem. Foi muito engraçado, mas agora é tempo de desligar aqui o bicharoco.
Termino apenas desejando a todos os que por cá continuam que continuem e continuem a divertir-se. Acrescento ainda uma pequena lista dos blogs que leio e gosto de ler (uns diariamente, outros mais espaçadamente). O número de blogs aumentou tanto ao longo deste ano que fui obrigado a ir seleccionado aqueles que ia lendo e continuarei a ler. Dos que não cito, alguns são blogs que não aprecio mesmo, outros serão blogs de que talvez gostasse mas não conheço o suficiente para recomendar. A quem caiba nesta categoria, peço desde já desculpa por não ser incluído. Igualmente peço desculpa por começar a lista pelos meus valorosos irmãos da UBL, benfazeja organização que é exímia na organização de jantaradas, todas elas dedicadas à mais sistemática prossecução da defesa dos nobres princípios da liberdade. A lista organiza-se não por ordem de preferência, mas alfabética.
Adeusinho e have fun
A Lista:
A UBL:
A Causa foi Modificada
Bomba Inteligente
Blogue dos Marretas
Contra a Corrente
De Direita
Fumaças
Gato Fedorento (Zé Diogo Quintela)
O Intermitente
Jaquinzinhos
Mar Salgado
No Quinto dos Impérios
Picuinhices
Tradução Simultânea
Valete Fratres!
Voz do Deserto

Os outros:
O Acidental
Africanidades
A Kathleen Gomes é um Boi
Babugem
Barnabé
O Bazonga da Kilumba
Blasfémias
Blogue de Esquerda (II)
Cartas de Londres
Causa Liberal
Como se fosse uma Baleia
Desesperada Esperança
Ditadura do Consenso
Estrada do Coco
Fora do Mundo
Homem a Dias
La Inqusición
João Pereira Coutinho
Ma-Schamba
Os Meninos de Ouro
Miss Vitriolica Webb’s Ite
My Moleskine
Nós e os Outros
Nova Frente
O Observador
O País Relativo
O Projecto
A Razão das Coisas
Roda Livre
Superflumina
Um em Muitos
Veritatis
What Do You Represent
 
Ardimanhas
Meu caro Ardiloso. Você não sabe, mas eis aí uma coisa que não sou: ardiloso. Direi mesmo mais: sou um nabo. Eu já ouvi falar desses programas e até já beneficiei, via amigos, dos resultados da nobre actividade. Mas (chame-me tosco à vontade), não sei bem porquê, sempre me faltou a paciência para instalar um aqui no computador. Mas não há estupidez que sempre dure nem preguiça que nunca acabe. E por isso você acaba de dar-me o último argumento para me deixar de parvoíces. Vai ver. Daqui a um mês até lhe mando o próximo disco dos Magnetic Fields. O quê? Só vai saír daqui a três anos? Pois vai andar a rodar cá em casa há três semanas.
terça-feira, Junho 15, 2004
 
De 2002?
Meu caro Ricardo, Yankee Hotel Foxtrot é um dos melhores discos de 2002, 2001 e mesmo 2000 - em 2002 ouvi-o tão obsessivamente que a espessura do disco se deve ter reduzido a metade.
O que eu gostava era de saber como é que a 15 de Junho ouves um disco que apenas vai ser lançado a 22 - olh'áqui.
segunda-feira, Junho 14, 2004
 
Análise eleitoral (XI)
Em Portugal:
Portugal: 1 - Grécia: 2

Eles jogam mal. Eles perdem.
 
Análise eleitoral (X)
Em Portugal:
PS - 44,5%

Eles têm Ferro Rodrigues. E ainda assim eles ganham.
 
Análise eleitoral (IX)
Em Portugal:
PSD/CDS-PP - 33%

Se eles continuarem assim. Eles vão voltar a perder.
 
Análise eleitoral (VIII)
Em Portugal:
CDU - 9,1%

Eles não batem bem. Eles têm 9,1%.
 
Análise eleitoral (VII)
Em Portugal:

BE - 4,9%

Eles batem forte. Eles têm 4,9%.
 
Análise eleitoral (VI)
Na Polónia:
Taxa de abstenção: 85%

Eles são polacos. Eles não votam.


 
Análise eleitoral (V)
Em Espanha:
PSOE - 43%
PP - 40%

Eles tiram tropas. Eles ganham à rasquinha.
 
Análise eleitoral (IV)
No Reino Unido:
Labour - 22%
Tories - 22%

Eles mentem. Eles empatam.
 
Análise eleitoral (III)
Em Itália:
Ulivo - 33%
FI - 21%
AN - 12%

Eles mentem. Eles aguentam-se.
 
Análise eleitoral (II)
Na Alemanha:
CDU - 46%
SPD - 23%
Verdes - 10,5%

Eles não mentem. Eles levam um bigode.
 
Análise eleitoral (I)
Em França:
PS - 30%
UMP - 17%
UDF - 12%

Eles não mentem. Eles perdem.

sexta-feira, Junho 11, 2004
 
O Sr. Churchill
Aqui há umas semanas atrás, o André Belo lançou-se numa diatribe sobre a utilização da história para fins políticos correntes. Havia muito a dizer sobre ela, mas se calhar um blog não é o espaço apropriado para isso. No final da diatribe o André utilizava o exemplo da oposição Churchill-Chamberlain para ilustrar as suas ideias genéricas e fazia uma espécie de petição para que a história, enquanto disciplina que deve cultivar uma certa objectividade, fosse capaz de dar uma imagem mais justa de Chamberlain e do chamado appeasement em geral – e também de colocar Churchill num lugar um pouco mais abaixo do pedestal onde foi posto desde a II Guerra Mundial. Visivelmente, o André desconhece a existência em Inglaterra nos dias que correm de uma verdadeira indústria historiográfica de reabilitação do appeasement e de desmistificação da lenda de Churchill. O inevitável Christopher Hitchens fez, de resto, há uns anos, uma análise dessa literatura, na qual também ajudava à festa iconoclasta (aqui). A sensação que me fica, mesmo depois de considerar essa literatura (que trouxe muita coisa válida e verdadeira, mas também muita irrelevância e falsidade), é que o mito resiste. Mesmo Hitchens, na violência verbal que o caracteriza, acaba por reconhecer isso mesmo a determinado passo.
De onde vem o mito de Churchill (e o correspondente anti-mito de Chamberlain)? A má imprensa de Chamberlain decorre essencialmente da sua acção enquanto primeiro-ministro entre 1936 e 1938, período durante o qual a Grã-Bretanha e a França (não apenas Chamberlain) tergiversaram perante as evidentes acções destabilizadoras de Hitler (a remilitarização da Renânia, o Anchluss e a invasão da Checoslováquia). Aquilo a que se chama appeasement são precisamente essas tergiversações. O appeasement fundava-se em princípios compreensíveis. Alguns dotados de uma certa nobreza, nomeadamente o princípio de ressarcir a Alemanha das injustiças do Tratado de Versalhes e o princípio de manter a paz na Europa, outros não, como a mal escondida simpatia por Hitler de alguns dos seus representantes. Curiosamente, neste período, Churchill não se destaca particularmente pelo seu “belicismo”. Não era um appeaser muito convicto, mas também não era um “belicista” muito convicto. Na verdade, oscilava entre dizer, em determinados momentos, que não se devia negociar com Hitler e aceitar, noutros, negociações. De resto, não é Churchill quem declara guerra à Alemanha, na sequência da invasão da Polónia, mas Chamberlain.
Onde a acção de Churchill é extraordinária e merecedora da memória eterna da humanidade não é, portanto, nesta altura, mas mais tarde, em Maio de 1940, já durante a guerra. Para se perceber porquê é necessário conhecer um dos mais importantes (e conhecidos, de resto) episódios da II Guerra Mundial, a chamada Batalha de França. A Batalha de França trouxe uma das mais humilhantes derrotas militares francesas. Essencialmente, num mês o exército alemão entrou em França e ocupou quase integralmente o seu território, com o exército francês a demonstrar uma desesperante incapacidade para lhe fazer frente. Com a débâcle francesa e com Churchill já em primeiro-ministro, colocou-se no War Cabinet de novo a questão de negociar com Hitler. Para muita gente na Grã-Bretanha, com a vertiginosa e inesperada derrota francesa, a guerra estava acabada e a vitória era alemã. Tratava-se agora, para a Grã-Bretanha, de procurar termos de entendimento com os novos senhores do continente. No governo presidido por Churchill, duas pessoas se destacaram pelo seu apoio a negociações, Chamberlain e Lord Halifax. Para eles, a situação, mais do que desesperada, era impossível de ser revertida. E muita gente na Grã-Bretanha acreditava nisso mesmo. Não Churchill, que em Maio dissera a Roosevelt: “if necessary, we shall continue the war alone. We are not affraid of that”. Foi contra uma larga parte da opinião pública britânica e de muita gente no seu próprio governo que Churchill impôs a sua posição. Assim se salvou a Europa de permanecer nas mãos da Alemanha nazi e o mundo de entrar numa das mais negras fases da sua história. É esta a extraordinária acção de Churchill que a posteridade recordará agradecida.
Altura em que podemos regressar à questão da avaliação histórica de determinados episódios. A história, enquanto disciplina científica (??), pode perfeitamente reabilitar Chamberlain, Halifax e todos aqueles favoráveis a um entendimento com Hitler. Afinal, tal posição é perfeitissimamente compreensível. Com a Europa, da França à Polónia, entregue à Alemanha nazi e à Itália fascista, e a Grã-Bretanha isolada na sua ilha, incapaz de qualquer acção ofensiva, como não compreender o desejo de negociação? Já a acção de Churchill pende mais para o lado do incompreensível. Um conselheiro sensato teria provavelmente dito a Churchill para não tentar a loucura de continuar em guerra com a Alemanha em circunstâncias tão desesperadas. Só que Churchill era, de facto, um pouco louco. E foi da sua insensatez, loucura e pura coragem (em larga medida incompreensíveis, à luz, por exemplo, de uma avaliação histórica assente na razoabilidade) que nasceu um dos mais notáveis momentos da história da humanidade.
A literatura dedicada a desmistificar Churchill nota o seu carácter inconstante, algumas duvidosas simpatias, os sistemáticos fracassos políticos e militares – em muito maior número do que os êxitos – e mil e um aspectos menos recomendáveis da sua vida. Tivesse Churchill morrido em 1938 e essa vida provavelmente resumir-se-ia numa palavra: fracasso. Semi-louco, alcoólico, tantas vezes patético, imperialista, com um curriculum militar carregado de desastres, Churchill seria talvez recordado assim mesmo com estas palavras que acabei de usar. Mas, não sendo Churchill, visivelmente, um santo, há na sua vida certos ingredientes das vidas dos santos. Tal como os santos se redimem de um passado pecaminoso comportando-se de forma benfazeja a partir de certa altura, o mesmo parece acontecer com Churchill e a sua obstinação anti-hitleriana de 1940.
Como a história é cruel, esta foi uma santidade ajudada pela vitória : o que diriam a opinião pública e os historiadores de hoje se a Grã-Bretanha tivesse sido derrotada na sequência da insensata decisão de Churchill? Desde logo, o mundo seria certamente diferente daquele em que vivemos. Mas mesmo admitindo que fosse igual, muito provavelmente diriam que essa derrota era previsível e que Churchill não teria passado de uma criatura disparatada que, a juntar aos fracassos anteriores, em 1940 lançara a Grã-Bretanha na mais insana das aventuras.
Mas é por tudo isto que eu acho que o mito sobrevive. Porque só um louco disparatado e insensato como Winston Churchill seria capaz de uma acção equivalente. Nenhuma criatura razoável e ponderada (como Chamberlain, por exemplo) o faria. No mais belo texto sobre Churchill que me foi dado ler, “Mr. Churchill”, de Isaiah Berlin (aqui), diz-se exactamente isto. Poucos políticos seriam capazes de dizerem com absoluta sinceridade que aquele preciso momento de 1940 era “a time when it was equally good to live or die”. Porque aquilo que resiste a todo o revisionismo é uma ideia, a qual, ao juntar-se com os restantes dados biográficos, dá origem a uma vida que se transcende a si mesma. E essa ideia é a ideia de que há momentos em que a rendição é impossível, porque vergonhosa, mesmo se a derrota aparece como mais provável do que a vitória. Momentos em que podemos morrer e sabemo-lo, mas antes isso do que vivermos manchados por uma vergonha intolerável. E isto, a história “objectiva” não “compreende”. A história “objectiva” certamente que “compreende” muito melhor as razões da rendição – afinal as mais sensatas. E quem ler o texto infestado de verrina de Christopher Hitchens ficará com a estranha sensação de que aquilo que ele diz está tudo certo (e nem sempre está: Hitchens toma como correctos erros revisionistas posteriormente desmentidos), mas rigorosamente errado ao mesmo tempo. Porque falta que Hitchens nos explique aquele momento único, que (goste-se ou não) é o momento fundador do mundo no qual vivemos actualmente. É por tudo isto mesmo que o mito de Churchill sobrevive. Porque a verdade é que só aquele homem carregado daqueles defeitos todos poderia feito a última e salvadora insensatez da sua vida. Salvando-se assim a ele, e com ele, salvando-nos a nós.
quinta-feira, Junho 10, 2004
 
Ground Control to Major Tom
Em condições normais, a negação da realidade é um problema clínico, podendo mesmo conduzir ao internamento em determinadas instituições hospitalares. Mas, por razões misteriosas, a sociedade exterior aos muros dessas instituições alberga um certo número de indivíduos cuja inteira biografia adulta (admitindo que na pré-adulta a isso tenham escapado) foi gasta na negação da realidade.
Um caso recente, à atenção dos especialistas do ramo, é o de certas reacções à recente resolução da ONU para o Iraque. Parece que, afinal, a assinatura da dita resolução correspondeu a uma grande derrota para os EUA. Ground Control to Major Tom (pi pip), Ground Control to Major Tom: valerá a pena lembrar quem governava o Iraque há cerca de um ano atrás? E valerá a pena lembrar quem removeu quem governava no Iraque há cerca de um ano atrás? A ONU vem agora dar caução à presença militar das tropas estrangeiras e corroborar o calendário que o Presidente Bush anda a anunciar há meio ano. A ONU dá cobertura jurídica à desejável (embora ainda incerta) democratização do Iraque. Quem permitiu que essa democratização possa vir a verificar-se? Como deveria ser evidente a toda a cabeçita funcional, a nova resolução da ONU é um ajustamento de todas as partes que a assinaram a certas perspectivas dos parceiros. Mas convém lembrar de que ponto é que estamos a falar e como foi possível cá chegar. Se tivesse prevalecido a posição inicial dos outros membros do Conselho de Segurança, Saddam Hussein ainda governaria o Iraque por estas horas. É provável que esteja desactualizado e existam agora novos conceitos de vitória e derrota. Alguém é capaz de me ilustrar?
Pelo que termino aconselhando umas leituras, que podem ser terapêuticas para os casos ainda não perdidos, precedendo-as apenas de umas notas: quando se inicia uma guerra não se sabe como ela vai acabar. Quando se inicia uma guerra inicia-se um período de imprevisibilidade e permanente surpresa. Durante uma guerra fazem-se sempre, dos dois lados, muitos erros (uns mais lamentáveis que outros). E é necessário estar sempre a ajustar as nossas acções às acções do inimigo, com o máximo de agilidade possível. Neste momento, no meio dos vários erros e surpresas, um objectivo da coligação que conduziu a guerra no Iraque foi alcançado: remover o antigo mandante. Falta o outro, o mais difícil, mas que era impossível sem êxito no primeiro. Já houve muitos erros, surpresas e ajustamentos. E é provável que continuem a haver. Mas convém manter presentes os objectivos iniciais. Êxito e fracasso têm que ser medidos em relação a eles.
Ah, as leituras! São esta e esta, ambas de John Keegan (um dos melhores historiadores vivos) e ambas lidas no nós e os outros (um blog que prova a possibilidade da quadratura do círculo: afinal é possível ser-se inteligente e ao mesmo tempo apoiar a vitória de Kerry nas eleições americanas de Novembro).
 
E quem disser o contrário...
...é porque realmente nunca ouviu isto.
Adenda a/c do Sr. Dr. Alberto Gonçalves, para relembrar uma conversa já antiga: onde se mostra quem, depois do JOÃO (todo com maiúsculas, que é como ele é), melhor cantou bossa nesta terrinha.
quarta-feira, Junho 09, 2004
 
O mais correcto
Suspender a campanha eleitoral parece, efectivamente, ser o mais correcto sinal de respeito pela morte de Sousa Franco: acaba-se assim com o triste e enfadonho espectáculo que vinha decorrendo já há quase duas semanas.
terça-feira, Junho 08, 2004
 
O OBNI
Afinal já ninguém sabe dizer muito bem de onde vem o padeiro, que assim se converte num verdadeiro OBNI (Objecto Batedor Não Identificado). E no entanto, esperem lá... Coloquem-lhe uns óculos (daqueles que não são esquisitos), umas melenas prateadas e deixem-no bater forte. Então? Ainda restam dúvidas sobre a identidade do grande panificador da classe operária e do povo trabalhador? Exactamente: é o Fernando Roswell.
segunda-feira, Junho 07, 2004
 
Homo Luso-tropicalis
A sb tratou de esclarecer-me a mim e ao resto da blogosfera que não é um brasileiro a viver em Portugal, mas uma portuguesa a viver no Brasil. Quando as coisas chegam a este estado, colocam-se duas hipóteses: a) estamos perante um caso de alzheimer precoce (a minha); b) estamos perante a realização do sonho de Gylberto Freire para além do seu próprio sonho: a concretização absoluta do homem luso-tropical, nem português nem brasileiro, nem homem nem mulher, nem branco nem preto, nem sequer mulato, uma espécie de ser total, um ente sintetizando todas as características de cá e de lá. Será para aí que nos conduz a Estrada do Coco?
 
Eça é que é Eça
Entretanto, o Bruno Reis (um jovem e excelente historiador contemporâneo da praça) reagiu àquilo que aqui escrevi sobre o Dia D. O Bruno teria (quase) toda a razão caso tivesse dedicado a sua crítica a um post que, afinal, eu não escrevi. É provável que o problema seja meu, que não me tenha explicado bem. Vamos por partes:
1) Eu não quis dizer que apenas os americanos deram as suas vidas na II Guerra Mundial. É evidente que o esforço de guerra entre 1939 e 1945 não foi exclusivamente americano. É evidente que muitos europeus verteram o seu sangue contra o nazismo. Talvez seja até evidente que os mais heróicos momentos da guerra se deveram à Grã-Bretanha entre Maio de 1940 e Dezembro de 1941, quando permaneceu solitária contra o Eixo (e contra toda a aparente sensatez). Mas resta um contributo americano essencial: o da possibilidade e certeza da vitória. Podemos ser heróicos na nossa resistência determinada e não ter qualquer possibilidade de vencer. O que os EUA trouxeram a partir de 1941 foi, precisamente, essa possibilidade – quase certeza. Por muito heroísmo que muitos europeus tivessem demonstrado até 1941, só com a entrada em cena da máquina militar americana foi possível conceber uma vitória aliada. O Bruno não desconhecerá, certamente, o famoso desabafo de Churchill ao tomar conhecimento do ataque a Pearl Harbor (i.e., no dia da trágica destruição da frota americana do Pacífico): “so we’ve won after all”.
2) É evidente que a cooperação europeia é uma obra europeia feita por europeus. Mas (embora muitos europeus o ignorem ou queiram ignorar) é em larga medida (em larguíssima medida, aliás) também uma obra americana. Começa por ser uma obra americana pelas razões do ponto 1: esta Europa pacífica, democrática e cooperante em que vivemos tem entre as suas fundações aquelas vidas americanas. Para que ela existisse foram muitos os americanos que verteram o seu sangue. É também uma obra americana porque os EUA foram, durante os anos 50, um parceiro directo das negociações que conduziram à criação da EFTA e da CEE. Não só um parceiro directo como muitas vezes o parceiro decisivo para desbloquear negociações emperradas pelos egoísmos nacionais europeus. No actual ambiente reinante de anti-americanismo ignorante, isto pode passar por polémico. Mas não é. É do mais estrito domínio dos factos. Finalmente, é uma obra americana porque os EUA assumiram uma parte desproporcionada da defesa europeia durante toda a guerra fria.
Estava muito longe de mim negar que a actual Europa é obra de europeus: isso seria desafiar a evidência de forma absurda. Mas é importante percebermos que foram os EUA quem, muitas vezes, deram um sentido de unidade a um projecto onde as feridas e rivalidades do passado nem sempre tinham sarado e, o que é mais, chegaram a ameaçar a sua continuidade. Se queres que te diga, muito francamente não ponho as minhas mãos no fogo pela capacidade de entendimento entre os europeus no dia (se ele chegar) em que os EUA decidirem zarpar daqui. Hás-de desculpar-me a graçola fácil, mas… Eça é que é Eça.
domingo, Junho 06, 2004
 
Overlord: o dia mais longo do século
Quando o dia 6 de Junho de 1944 nasceu, os jovens americanos, ingleses e canadianos que, embarcados nos LCIs (Landing Craft Infantry), se aproximavam da costa da Normandia, presenciaram um espectáculo tão exaltante como aterrador. Tanto quanto a vista podia alcançar, o mar tinha-se coberto de navios. No céu, o cortejo de aviões esmagava-os com um barulho ensurdecedor. Diante de si, acima da linha das dunas e mais além, o chão rebentava em erupções de pó e fumo, resultantes dos bombardeamentos aéreos. Do outro lado da frente, os jovens alemães que há semanas esperavam o iminente desembarque nas praias que ficaram conhecidas pelos nomes de código Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword, terão ficado ainda mais aterrados com o que viram. Os únicos elementos de fragilidade de que poderiam aperceber-se eram os homens que, carregando o seu equipamento e acabados de desembarcar, lutavam para avançar através da rebentação ou dos obstáculos deixados na praia. Pouco depois, também a praia começaria a explodir, agora sob o impacto do seu próprio tiroteio. Começava assim a operação que recebeu o nome de código Overlord e aquele que Rommel chamou “o dia mais longo do século” – na verdade, o real começo da operação tinha-se dado ainda durante a noite, de forma muito menos espectacular, com o lançamento de tropas aerotransportadas para dentro do território francês. E começava assim, pela França, a libertação da Europa da ocupação nazi.
Foram desembarcados na Normandia cerca de 160.000 soldados. Metade deles do exército dos EUA, a outra distribuindo-se entre britânicos e canadianos. Cerca de 10.000 foram atingidos, 60% dos quais americanos (a maior parte no matadouro de Omaha Beach), 25% britânicos e 10% canadianos. A II Guerra Mundial iria durar mais um ano na Europa e um ano e alguns meses no Pacífico, mas com o desembarque bem sucedido do exército americano na Europa, deixaram de restar dúvidas acerca do resultado final. E o que é mais: finalmente a democracia regressava ao continente, até então submergido pelos totalitarismos nazi e soviético.
Era a segunda vez no século XX que tropas americanas desembarcavam na Europa para resolver querelas europeias – a primeira tinha sido em 1917. Em 1918 os americanos não quiseram assumir a tutela da Europa. Mas em 1945, sim, não fosse necessário desembarcar uma terceira vez para decidir mais um conflito de proporções catastróficas. Assumiram a tutela e obrigaram os europeus a entender-se. O Plano Marshall foi oferecido à Europa sob a condição de os europeus cooperarem. E foi dessa cooperação que nasceu a CEE – que, em última instância, resultaria na actual UE. Os EUA tutelaram todo o processo de criação das primeiras instituições europeias e (mais do que qualquer país europeu) quiseram aqui criar uma federação, se possível à imagem da federação americana. As tropas dos EUA permaneceram na Europa e defenderam-na contra as intenções expansionistas da URSS. Essas tropas constituem, ainda hoje, as verdadeiras Forças Armadas Europeias, sem as quais o continente, neste seu actual formato pacífico e próspero, provavelmente já não existiria.
Um dos mais tristes disparates que hoje em dia se repetem consiste em opor a “civilização europeia” à “civilização (?) americana”, supostamente inferior. Nós seríamos ricos, justos e pacíficos. Os americanos, apenas ricos (e apenas quando brancos). Isto é um disparate, entre outras coisas que demorariam muito tempo a esclarecer, porque a tradição europeia até 1945 é o exacto contrário disso. O que marca a existência do continente europeu até 1945 é a sucessão de guerras, no seu solo e exportadas para fora dele. Se a Europa viveu os últimos 60 anos em paz deve-o aos EUA, que não só obrigaram os europeus a entender-se como se substituíram a eles na sua própria defesa. Coisa que lhes permitiu, adicionalmente, cortar nos desnecessários gastos militares e engrossar os do celebrado welfare state, o tal que os autoriza a considerarem-se mais justos do que o resto do mundo.
Os europeus de hoje não sabem que são filhos da América. Ou melhor, não sabem que as suas presumíveis virtudes são filhas dos presumíveis defeitos da América. E também ainda não perceberam que quando se emanciparem terão de perder muitas dessas presumíveis virtudes e adquirir muitos daqueles presumíveis defeitos. Ou talvez não. Caso em que a Europa deve preparar-se para seguir o caminho de tantas outras notáveis civilizações pretéritas: o cinzeiro da história – na expressão do afamado Trotsky.
sexta-feira, Junho 04, 2004
 
Meio do caminho
Quase sem exagero se poderá dizer que o dia 4 de Junho de 1942 (hoje, há sessenta e dois anos) foi aquele em que a civilização ocidental (chamemos-lhe assim, por convenção) terá sido salva da extinção. É fácil perceber porquê, se olharmos para o estado do mundo no dia anterior. No maior país da Europa vigorava desde 1917 um dos mais tenebrosos regimes políticos que a humanidade conheceu, o comunismo soviético. O resto do continente tinha-se entregue a regimes também violentos, embora de signo oposto, tendo um equivalente perfeito no nazismo alemão. A única excepção a este quadro era a Grã-Bretanha. Sozinha na guerra contra a Alemanha desde 1940 (na sequência da trágica débâcle francesa), a Grã-Bretanha esperou um ano e meio pela participação militar da grande democracia americana na II Guerra Mundial. Coisa que aconteceu em Dezembro de 1941, com a destruição da frota do Pacífico estacionada em Pearl Harbor. Os EUA, ao contrário do Japão, não estavam preparados para a guerra em 1941. Com Pearl Harbor atingiu-se o fundo, e ninguém apostaria num futuro de liberdade e democracia no Ocidente.
É nestas trágicas circunstâncias, portanto, que chega o dia 4 de Junho de 1942. Para responder à ocupação, ilha a ilha, que o Japão ia fazendo do Pacífico, os EUA sentiram-se na necessidade de reagir. Em 1942, porém, os EUA não tinham ainda montado a destruidora máquina militar que desembarcaria na Europa dois anos depois. Em consequência, todas as suas acções militares no Pacífico se revelaram inócuas. Pronto a resolver o incómodo com rapidez, o Japão decide responder em força, enviando a sua frota para um combate decisivo. O qual efectivamente ocorreu naquele dia e ficou conhecido como Batalha de Midway (do nome da ilha a meio caminho entre a América e a Ásia).
Os americanos tinham à sua disposição um número de navios que era menos de metade do japonês. Também a qualidade do material era infinitamente inferior do seu lado. Entre porta-aviões, restantes navios e aviões, o material japonês era o estado-da-arte do combate marítimo e aéreo. Contra as modernas embarcações japonesas, os EUA tinham para oferecer navios reparados muitas vezes à pressa, ou requisitados do Atlântico, já afectados por combates. Contra os famosos Zero (talvez os melhores aviões de combate da II Guerra Mundial), a resposta americana era uma variedade de aviões obsoletos e lentos. Nas palavras de um oficial americano da época, a Batalha de Midway seria sempre um “desperate affair”. Do lado japonês, a confiança não tinha medida, raiando a arrogância.
A batalha começou com o ridículo ataque à frota japonesa dos ridículos Devastators comandados por Jack Waldron. Este ataque foi tão ridículo quanto crucial para o desfecho do confronto. Todos os homens que montaram naqueles aviões sabiam que iam morrer, fosse porque seriam atingidos, fosse porque não teriam combustível para regressar ao porta-aviões de origem. Naquele tempo, o combate aéreo não era feito com armas teleguiadas, lançadas de milhares de pés de altitude. Um ataque aéreo de precisão obrigava os aviões a aproximar-se tanto quanto possível do alvo inimigo para, enfrentando a resposta das baterias anti-aéreas, terem a certeza de o atingir. Os Devastators eram de uma lentidão exasperante. Na sua aproximação à frota japonesa, vários foram abatidos pelas defesas anti-aéreas, outros pelos Zeros que levantaram. Os poucos que conseguiram largar as suas bombas falharam totalmente os alvos – e nenhum conseguiu, efectivamente, regressar. Nos decks dos navios japoneses, pilotos e marinheiros abanavam a cabeça, sorrindo do amadorismo da acção. Mas ela foi suficiente para manter ocupado um certo número de aviões japoneses, que foram então obrigados a pousar para reabastecimento de combustível e munições. A acção da esquadrilha de Waldron havia encoberto um perigo desconhecido para os japoneses: a esquadrilha de bombardeiros de mergulho (dive bombers) sortidos comandada por Wade McClusky, que os sobrevoava fora do alcance da visão, acima do nível das nuvens. A situação mais frágil para um porta-aviões ocorre quando os seus aviões necessitam de reabastecimento – é então que o deck se enche de munições e combustível, altamente inflamáveis. Pois foi nesse estado que McClusky encontrou a frota japonesa na manhã de 4 de Junho, às 10.22. E foi a essa hora que os 36 aviões por si comandados iniciaram um vôo picado sobre os porta-aviões japoneses. Não é difícil imaginar a excitação, num misto de terror e euforia, que estes pilotos sentiram ao lançar os seus aparelhos em direcção ao mar a uma velocidade de cerca de 600 Km por hora – terror pela possibilidade de morrerem, euforia por estarem conscientes do carácter decisivo da sua acção. Nove aviões conseguiram atravessar o nevoeiro mortal dos projectéis anti-aéreos. Em cerca de 5 minutos, destruíram três dos mais importantes porta-aviões da frota japonesa, abrindo assim caminho à vitória final americana.
Midway foi a primeira grande vitória das democracias na II Guerra Mundial, e uma vitória tanto mais exaltante quanto obtida em condições terríveis. Claro que, já antes, a resistência britânica tinha sido crucial. Mas tratara-se sempre de uma resistência desesperada, defensiva. Se a Batalha de Midway tivesse sido perdida pelos EUA o nosso mundo seria, com toda a probabilidade, completamente diferente daquele que conhecemos. Mas em cinco minutos, o Ocidente, pela mão de nove pilotos da Força Aérea americana, começava a subir a parede do poço fundo em que tinha caído havia já muito tempo. Era apenas o começo. Nem sequer era o meio do caminho.

(Adenda: agradeço ao leitor Miguel Henriques uma pequena correcção)
 
The Charm of the Highway Strip

I was young, then not so young
Scary either way
One more rung down that black ladder
Every day
One more floor down the elevator
To oblivion -
What fun -
But the singularly awful one
Is being born


Stephin Merritt, "I was Born", in The Magnetic Fields, i.
quarta-feira, Junho 02, 2004
 
Nietzsche, Maquiavel e o padeiro
Relembrei há uns dias atrás uma famosa passagem de Nietzsche, na qual, ao estabelecer uma possível similitude entre a verdade e a mulher, ele diminui os esforços da filosofia. Para o célebre nihilista, se os filósofos tivessem tanto talento para alcançar a verdade quanto o normalmente demonstrado para alcançar uma mulher, a verdade fugir-lhes-ia como o diabo foge da cruz.
Tentarei secundar Nietzsche, oferecendo material empírico que ajuda a comprovar a sua asserção. Leia-se esta passagem d'O Príncipe , de Nicolau Maquiavel (tradução caseira):
"a sorte é mutável, enquanto os homens são obstinados nos seus procedimentos, [e portanto] os homens prosperam quando sorte e política estão de acordo, falhando quando elas colidem. Eu acredito sinceramente no seguinte: que é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é uma mulher, e para ela ser submissa é necessário derrotá-la e coagi-la. [...] Sendo uma mulher, ela entrega-se mais facilmente aos homens jovens, porque eles são menos circunspectos e mais ardentes, e porque a dirigem com maior audácia".
Não admira, repito, não admira que o mundo esteja como esteja. Se isto é das melhores coisinhas que um dos maiores vultos intelectuais da humanidade tem para oferecer, então tudo se explica.
Meu caro Nicolau: as suas ideias são prejudicadas pela sua percepção dos desejos da mulher, e a sua percepção dos desejos da mulher parece-me profundamente errada. Afinal, toda a gente sabe que elas gostam é de quem lhes bate forte.
terça-feira, Junho 01, 2004
 
Momento Betty Ford
São já incontáveis os telefonemas, as cartas, as mensagens de e-mail perguntando-me sobre o sucesso do programa de desintoxicação. Calma, rapaziada. Eu estou bem. Juro. Estou bem. Não passei sequer pela fase peru frio (do inglês, cold turkey). Vejo o meu dealer todos os dias e nem sequer sinto a tentação. Tive apenas uma pequena recaída no dia 12 de Março, perfeitamente compreensível, dada a gravidade do momento. Quanto ao mais, é verdade: são já três meses sem ler o Público e quatro sem ler o Expresso.
segunda-feira, Maio 31, 2004
 
Seiscentas Folhas
E porque blog também é cultura, a cultura também por aqui Acontece. Podíamos falar de África, Mãe África, Balatucá, Balatuqué, Balutuqui, Balatucó, Balatu..., África, Mãe África, cores cálidas, corpos sensuais, Cultura, Balatucultura, tanta coisa, poesia Acontece, Acontece poesia... Mas não. Falamos apenas de um livro, recomendado pelo Ricardo Dias de Sousa, que chegou a fazer parte da equipa d'O Comprometido espectador que cobriu o 11 de Março. A recomendação foi sugerida ao Ricardo pela leitura do post anterior:

Acabo de ler este post sobre a vida de Brian e
Bruce e imediatamente me lembrei de um livro que li recentemente:

Middlesex, de Jeffrey Eugenides. A história de três geraçöes de uma familia de origem grega que emigra para os Estados Unidos no início da
década de 20 contada por Callie/Cal Stephanides, um hemafrodita que
nasceu duas vezes, primeiro como Caliope em 1960 e depois como Cal
catorze anos mais tarde. Como estou fora do país näo faço a miníma ideia
se o livro tem sido divulgado em Portugal mas como ainda näo vi nada
sobre o assunto na blogosfera atrevo-me a dizer que, se sim, foi de
forma insuficiente. Aproveito para te falar dele porque o médico que
examina Callie tem a mesma teoria sobre o sexo que este John Money e
mais näo conto porque iria estragar o final do livro, mas, em tempo de
Feira do Livro, näo deixo de recomenda-lo a quem tenha paciencia para as
mais de 600 páginas.

 
A Vida de Brian e Bruce
A 22 de Agosto de 1965, em Winnipeg, Canadá, nasceram dois irmãos gémeos, Bruce e Brian Reimer. Os pais foram aconselhados pelo médico de família a circuncidar os filhos, quando ambos tinham sete meses de idade. A operação teve lugar num dos hospitais da cidade e correu bem a Brian, mas horrivelmente mal a Bruce. O instrumento utilizado queimou o pénis de Bruce, de tal forma que o órgão sexual caíu do seu corpo. Sem saberem como resolver a situação, os pais acabaram por tomar conhecimento da existência de um médico de Baltimore, John Money, que propunha uma teoria segundo a qual a determinação do sexo dos humanos não seria genética, mas ambiental. Uma criança do sexo masculino, por exemplo, a quem fosse amputado o pénis nos primeiros meses de vida e fosse educada como uma rapariga transformar-se-ia espontaneamente numa rapariga. Para além do interesse científico da experiência, Money pretendia provar um determinado ponto então sugerido por certos movimentos feministas: o de que não havia qualquer determinação genética na formação sexual dos indivíduos. Homens e mulheres seriam rigorosamente iguais, capazes não só de desempenharem as mesmas tarefas com idêntica eficiência, como também de trocar de papéis por força da educação – com uma pequena ajuda cirúrgica. Os pais de Bruce decidiram-se a seguir o programa proposto por Money. Bruce passou a chamar-se Brenda e foi educado como uma rapariga, sempre sem saber que tinha nascido rapaz. Ao que parece, logo aos dois anos Brenda/Bruce começou a reagir mal ao facto de a mãe vesti-la como uma menina. E ao longo de toda a sua vida de criança e adolescente, Brenda/Bruce foi ostracizada na escola tanto por rapazes como por raparigas. Entretanto, em complemento à sua educação fictícia, Brenda/Bruce seguiu o programa psicológico oferecido por Money. Segundo alguns relatos, o programa chegou a incluir violência sexual (em sessões onde estavam presentes os seus pais e o irmão gémeo Brian), de maneira a que Brenda/Bruce pudesse sentir o mesmo tipo de fragilidade sexual supostamente sentida pelas mulheres. Aos nove anos Brenda/Bruce teve o seu primeiro esgotamento nervoso. E até aos catorze anos tentou o suicídio pelo menos uma vez. Money baptizou a experiência “John/Joan Study” e considerava-a um sucesso. A imprensa da época também. A Time chegou a dizer que ela “provides strong support for a major contention of women’s liberationists: that conventional patterns on masculine and feminine behaviour can be altered”. Finalmente, em 1980, o pai de Brenda/Bruce, quando esta tinha catorze anos, decidiu contar-lhe que afinal ela nascera um menino. Brenda/Bruce adoptou o nome de David, reconstruiu o seu pénis (com a ajuda de outra cirurgia) e tentou reconstruir a sua vida. Aos 23 anos casou, mas o episódio não foi duradouro. Em 2002, o irmão Brian morreu com uma overdose. A 4 de Maio passado, David/Brenda/Bruce, com 38 anos de idade, suicidou-se. O médico John Money continua a ensinar na Universidade de Johns Hopkins em Baltimore.
 
Respect
If yous ain't checked da Ali G show on telly, yous don't know wot yous is not checkin. It's simply da wickedest and bestest comedy show since da geeza put is bloody foots on da moon. Yous know wot I do? Every bloody monday I just sit in front of da well telly wiv me pals and me crew, tune it to SIC Radical at 9 pm, have a bit of erbal remedy, and just dig da well show. Why don't yous do da same, yous batty holes? Respect.
sexta-feira, Maio 28, 2004
 
A verdade a que tenho direito
Friedrich Nietzsche começa Para Além do Bem e do Mal com uma experiência mental: suponhamos que a verdade é uma mulher. Nesse caso, não seria bem fundada a ideia de que a generalidade dos filósofos, por regra ineptos na aproximação às mulheres, revelariam a mesma incapacidade na aproximação à verdade? A mesma trapalhice convencida, normalmente aplicada por si no flirt , estaria afinal presente em tomos e tomos de filosofia.
É muito possível que o genial filósofo alemão tenha dito a verdade. O que confirma algo que sempre pensei: afinal Arnold Schwarzenegger e as suas incríveis patorras em cima de uma dúzia de mulheres, ou ZéZé Camarinhas e as 1000 e tal mulheres que já conseguiu levar à cama estão mais próximos da verdade do que eu, as minhas patorras e os 1000 e tal livros que fui conseguindo levar à cama ao longo da vida.
 
Pura Goiaba
A leitora Ana Cristina Moreira, apreciadora do Kibe Loco, chama-me a atenção para outro blog brasileiro muito divertido - a Ana acha-o (nem mais, nem menos) "genial" -, o Pura Goiaba.
quinta-feira, Maio 27, 2004
 
E Tinh'razão
O António Aly Silva, autor do Ditadura do Consenso, queixou-se-me, por não desempenhar bem a recente tarefa de promotor de BLOGOPS. E tinh'razão, como dizia o Alexandre O'Neill. E por isso cá vão dois links, para compensar.
 
Lul'Au Vin
Volto a fazer um link para o Ma-Schamba, porque lhe devo a descoberta do Estrada de Coco (que me parece ser de um brasileiro a viver em Portugal), mas sobretudo a deste fantástico blog brasileiro, o Kibe Loco - toca a pôr nos favorites, já.
 
419 Scam
Jorge Camões, do Ser Português (Ter Que), envia-me uma mensagem com alguns subsídios para a compreensão dos scams da Nigéria:

Esta história já se perde nas brumas da memória da Internet, e é genericamente conhecida por 419 scam (o 419 é o artigo do código penal nigeriano aplicável). Há uma história hilariante em http://www.savannahsays.com/kizombe.htm de uma jornalista que resolveu responder.

Em http://www.scamorama.com/ há uma lista de variantes, incluindo uma mensagem da viúva de Savimbi: http://www.scamorama.com/savimbi_8d.html


Em http://www.theregister.co.uk pesquise "419 Nigeria scam". Eles divertem-se imenso com a coisa. Têm um concurso de mensagens escritas com haikus, uma mensagem do Bush, e vendem t-shirts ("my money went to Nigeria and all I got was this lousy t-shirt").

http://www.theregister.co.uk/2002/10/22/ghostly_419_the_scam/

http://www.theregister.co.uk/2003/01/27/beware_new_nigerian_bush_spam/

http://www.theregister.co.uk/2004/02/17/urgently_seeking_419_haiku/

Aparentemente, a coisa começou realmente na Nigéria, mas internacionalizou-se.

quarta-feira, Maio 26, 2004
 
O Comprometido Espectador goes transatlantic
Ainda a respeito de Che Guevara, Os Diários de Motocicleta e Walther Salles, do Brasil escreve Marcos de Escobar, relatando aspectos da vida de Salles para mim desconhecidos (desculpem ao Marcos a falta de acentos):

Tomo a liberdade de acrescentar alguns dados sobre o director de cinema Walther Salles.
Para ja refira-se que o talentoso artista recusa-se a usar o apelido completo: Moreira Salles, usado pelos seus tres irmaos. O cineasta e filho do finado banqueiro Walther Moreira Salles -- homem de grande inteligencia, cultura, elegancia e brilhante empreendedor. A partir de uma pequena casa bancaria de uma unica agencia, Moreira Salles (ex-ministro das financas, ex-embaixador nos EUA) construiu um gigantesco banco -- um dos tres maiores grupos financeiros do Brasil. Mas Walther (Moreira) Salles, cineasta e banqueiro (ou sera banqueiro e cineasta?) prefere gastar o tempo na companhia da estupidentzia brasileraloide, a fazer tudo para dar a imagem do filho rebelde que sempre preferiu estar do lado do "povo" e nao ao lado do papai bilionario (e banqueiro ainda por cima!). A verdade nua e crua e que o rapaz, nascido em berco doirado, continuou pela vida a viver a grande e a francesa gracas -- exclusivamente -- a fortuna do papa. Termino aqui com uma expressao de alivio (para Walthinho, e claro...): que sorte o rapaz nao ter nascido na ilha caribenha gerida pelo famigerado Che-da-T-shirt. Banqueiro? Teria sido devidamente fuzilado no paredon -- com guevarissima "ternura", ja se ve.

 
Desculpem, mas não dou baldwins
Entretanto, peço, precisamente, a esta comunidade de africanos e conhecedores africanos que me ajudem num problema. Começo por reproduzir a mensagem que me caíu na caixa do correio há uns dias atrás (desculpem o inglês do rapaz, mas pelo contexto percebe-se que ele anda um pouco nervoso):

I SINCERELY APPOLOGISE FOR THIS UNEXPECTED URGENT PROPOSAL I AM BALDWIN
TAYLOR A BROTHER TO CHARLES TAYLOR THE FORMER PRESIDENT OF LIBERIA,WHO IS
PRESENTLY ON A POLITICAL ASSYLUM IN NIGERIA.BECAUSE OF HIS DEEPENING
PREDICAMENT,HE
SENT ME TO ACCRA,GHANA WITH THE DOCUMENTS THAT WILL ENABLE ME WITHDRAW THE
CRATE OF MONEY HE DEPOSITED WITH A SECURITY COMPANY AS PERSONAL
EFFECTS IN 2002. I WAS TO WITHDRAW THIS CASH AND SHIP IT TO HIM IN
NIGERIA,THROUGH
DIPLOMATIC COURRIER SERVICE.BUT I HAD
DIVERTED THE SHIPMENT TO SPAIN THROUGH THE SAME MEANS.AND TO MY INSTRUCTION
THE DIPLOMAT HAD DEPOSITEDTHE CASH OF $37,000,000USD WITH A BANK CALLED,BANCO
SANTANDER CENTRAL HISPANO FOR ONWARD TRANSFER. MY REASON OF CONTACTING YOU
IS FOR YOU TO ASSIST IN
PROVIDING THE ACCOUNT WHERE THIS MONEY CAN BE TRANSFERED INTO.AND AS SOON
AS THE MONEY GETS TO YOUR ACCOUNT,I WILL GIVE FORTHER INSTRUCTIONS ABOUT
THE DISBURSMENT.FOR YOUR ASSISTANCE,I WILL GIVE YOU 30% OF THE TOTAL SUM.PLEASE
IF YOU ARE WILLING AND READY TO HELP,KINDLY RESPOND TO THIS MAIL ASAP SO
THAT I CAN
GIVE YOU MORE INFORMATIONS ON HOW THIS CAN BE ACTUALISED. PLEASE I WANT
YOU TO KNOW THAT THIS TRANSACTION REQUIRES AN URGENT ATTENTION SO THAT IT
CAN BE CONCLUDED IN THE SHORTEST
POSSIBLE TIME AND BEFORE MY BROTHER CHARLES TAYLOR TRACKS ME DOWN IN MY
HIDEOUT. THANKS FOR THE ANTICIPATED COOPERATION.


Bem... Espera lá... Charles Taylor não é aquele tipo que torturou não-sei-quantos liberianos enquanto foi por lá presidente? Que matou em números idênticos? Que fomentou e enviou crianças para combater na guerra civil da Serra Leoa?
É assim como se, de repente, caísse aqui na caixa do correio a seguinte mensagem:

Pesso imença desculpa pelo incómodo, eu sou Franz Hitler, o irmão desconhecido de Adolf Hitler, o antigo chanceler da Alemanha, que está agora em assilu pulitico em Vila Nova da Barquinha (disem que ele morreu no banquer de Brelim, mas é mentira). A çituassâo dele não é boa e por eça rrasão me pediu para levantar o monte de dinheiru que tinha numa conta do Crédito Predial Português. Eu levantei o dinheiro, mas não lho mandei-lhe. E agora um diplomata abrio uma conta na Caixa de Crédito Agrícola para faser umas trasnferências e eu preciso do número da sua conta...
E por aí fora...

A ajuda que quero é a seguinte: porque é que este esquema, como todas as dezenas de esquemas deste género que vão caíndo na minha caixa de correio, têm origem na Nigéria? Não estou a brincar. É uma coisa que me intriga mesmo.
E, já agora, eles não conseguem arranjar umas histórias menos rocambolescas?
 
BLOGOPS
Há uns dias atrás, este rapaz fez um link para aqui. Fui lá ver e, de link em link dos que ele lá disponibiliza, acabei por descobrir uma pequena comunidade de BLOGOPS (Blogs de Língua Oficial Portuguesa), como por exemplo, este, este e mais este (de um português em África - excelente, excelente diário). Algumas das vozes mais interessantes no panorama dos media portugueses encontram-se na blogosfera. Pois o mesmo me pareceu passar-se neste caso. O tom destes blogs não tem nada que ver com o oficialismo grotesco da RTP África. Mas também está muito longe do vitimismo que tem sido a infeliz marca de muito do discurso imigrante ou do discurso africano para consumo europeu. Os olhares destes bloggers sobre África (e, já agora, sobre Portugal) são inteligentes, irónicos e críticos (ou até laudatórios), sem serem panfletários. Mais uma lição da blogosfera.
 
As segundas coisas segundo
O Carlos Alberto Amorim, ex-Mata-Mouros (vamos lá a matá-los bem mortos hoje à noite, hã!) e corrente Blasfemo, decidiu agraciar-me com dois-prémios-dois (entre os quais o de melhor blog da semana passada), numa nova tribuna sobre blogs. A tribuna está instalada numa publicação que se dedica a apoiar o partido liderado pelo Dr. Manuel Monteiro. Eis o que mostra grande desportivismo da parte do CAA, dadas algumas graçolas a puxar para o chocarreiro que já aqui fiz com o dito Dr. e o seu partido.
Manda a cortesia que lhe agradeça, mesmo se isso implica fazer um pouco de propaganda política. E já agora boa sorte nessa tarefa inglória (a de apoiar o Dr. Monteiro, não a de classificar blogs). E com esta piadola acabo de perder o prémio de melhor blog da próxima semana.
 
As primeiras coisas primeiro
Com um dia de atraso, muitos parabéns ao JCD pelo primeiro aniversário do excelente Jaquinzinhos.
segunda-feira, Maio 24, 2004
 
Ensaio sobre a Logorreia
Esperava Bulimicunda compreender a razão de estar aquele ramo, verde e crespo, que os ramos de oliveira o são, dada a impolidez da espécie, mesmo até quando fincada em solo úbere, tão vergado ao peso do ninho de tordo. Baltajar, sabido como poucos o são, ardiloso mancebo, não na significância militar, mas na abstracta e genérica, que é dessa que agora curamos, porque as denúncias ao sistema castrense podem custar caro, sabia interpretar a torção a que se sujeitava o vegetal lenhoso. Era em sofreguidão que Bulimicunda pedia, Baltajar, dir-me-ás tu a que se deve a inflexão do braço arbóreo, pois tordos não são carrego que baste para causar semelhante conclusão, ao que Baltajar, paciente na sageza, Mas, Bulimicunda, não compreenderás tu que sempre erradamente nos ministraram os preceitos d’O Livro, e que o Espírito Santo não é pomba não, que as pombas são entes soberbos, e que o último elo da Trindade é apenas vernáculo tordo, que não o Fernando, mais versado em lides taurinas e menos em saberes ornitológicos, que é como a zoologia denomina o conhecimento da passarada. Bulimicunda, sempre assombrada pelos dotes que seu afeiçoado detinha, abrangia enfim o engodo em que a hierarquia sacerdotal a fizera incorrer desde o berço, esse leito que para muitos é dourado, embora para outros pouco mais não seja que um feixe de palha, caso em que se revelam qualidades da espécie superiores, porque deles virá a salvação.
Observavam Bulimicunda e Baltajar a árvore na margem, por detrás de Joana Parva, que conduzia a jangada de pedra com a mestria legada a poucos, mesmo quando peritos no trato marítimo-fluvial, esse excelente ofício donde resultou a ímpar expansão, em nome da qual lusos marujos trucidaram aqueles a quem chamavam infiéis, mas isso não eram, porque infiel é o obeso dignitário que do topo põe e dispõe, mas já é tempo de pôr termo a tais ofensas à justiça.
Colocavam-se a Joana Parva, com firmeza escorada no leme, duas alternativas, não mais, porque mais não havia, e duas até já eram demais, e apenas uma seria a ideal, como em Platão, o mestre do ideal, que sempre compreendeu a diferença entre conceito e objecto concreto, mas isto já é rebuscar de sobejo para a singeleza dos desmandos dos navegantes que ora seguimos. Quando a Bulimicunda lhe foi colocada a alternativa, não no sentido do Fernando, que é táureo e próprio de tardes soalheiras, Bulimicunda, com escândalo dos camaradas, proferiu, Eu voto em branco. Na embarcação se gerou tremendo impasse, ignaros os nautas sobre o destino a conferir à rochsosa nave que cavalgavam, porque nem só os cavalos o merecem.
Foi este o instante em que do firmamento brotou um semblante ornado de longas cãs e crivado de próteses oculares, que é aproveitar enquanto existe segurança social, À Esquerda! À Esquerda! À Esquerda e salvai-vos, que sedes jovens e dos jovens virá um cosmos asseado e bom, Mas quem és tu, inquiriu Joana Parva, de nome e por causa da imprópria aparição, Sou o Zé, o Zé das Vírgulas, pois polvilho meu verbo com vírgulas, para interpor ideias em associação livre, como no caso daqueles autores que fizeram novidade e estrondo ao raiar a transacta centúria, O Zé, se espantou Baltajar, Sim, respondeu o senhor das cãs, o Zé, o Zé dos Sinónimos, que tenho lá em casa grosso tomo de apelido Dicionário de Sinónimos, o cujo consulto a cada três conjuntos de caracteres, a quem por vezes chamam “palavra”, palavra de honra, pois quero mostrar minha sabedoria em palavras, palavras de honra, O Zé, falou Bulimicunda embasbacada, Sim, o Zé, o Zé das perífrases, pois que muitas uso, e aconselho, pois para quê dizer “ave” quando se pode dizer “vertebrado ovíparo dotado de asas”, Mas eu vejo teu interior, anunciou Bulimicunda, e teu interior é prenhe de temas imortais, ao que o dono das próteses oculares respondeu, E imortais são, pois gigantescos são os conceitos de minha Palavra, palavra de honra, e não fora assim e não me teriam conferido aquele galardão que só aos melhores conferem, e por isso Borges o não cheirou e Agustina para sempre ficará a ver jangadas.
 
Pétanque pour Colombine
Caro José Mário: Cannes e Michael Moore? Eis uma coisa sobre a qual não tenho nada para dizer. É como no caso do Sudão e da ONU há uns dias atrás. I rest my case.
sexta-feira, Maio 21, 2004
 
O Homem das T-Shirts
O homem das t-shirts do título deste post não é o homem que monta uma banca e vende t-shirts ali ao Martim Moniz, em Lisboa. O homem das t-shirts é o homem que aparece nas t-shirts de qualquer jovem universitário sofisticado, consciente e progressista que se preze. Lá onde também aparecem Kurt Cobain ou os Strokes, aparece ele, Ernesto “Che” Guevara. De cada vez que tropeço em mais uma t-shirt do “Che” coloco duas alternativas: uma, eles não sabem realmente quem foi aquele homem, para além de umas trivialidades semi-propagandísticas; outra, eles sabem e não têem vergonha. Como mantenho uma perspectiva optimista sobre a natureza humana, tendo a acreditar na primeira.
Isto não é um ensaio sobre a revolução cubana e, portanto, não vale a pena estar aqui a analisá-la. Mesmo assim, talvez seja interessante notar como ainda hoje se ouve da boca de conhecidos intelectuais o velho bordão de que a revolução cubana representou então “uma esperança”, que a partir de certa altura teria sido traída. Não representou esperança nenhuma, a não ser para a deliquescência intelectual típica de algumas pessoas no ocidente à época. Como todas as outras experiências socialistas ou comunistas, também ela trouxe o proverbial cortejo de violências sistemáticas. Não sendo a Cuba de Batista um país exactamente recomendável (também o czarismo russo o não era), era uma das nações mais ricas da América Latina e uma das que mais elevados índices educacionais tinha (a sua taxa de analfabetismo era, em 1958, de 22% - embora a propaganda revolucionária afirme que era de 50%; para termos uma noção comparada, a taxa de analfabetismo em Portugal à época era de 32%). Hoje Cuba é um dos mais pobres países da região. Tem, para além disso, no seu passivo um número de execuções que rondará os 20.000 desde 1959.
Já ao tempo da insurreição, na Sierra Maestra, o Che se tinha destacado pelos acessos de violência que o levavam a agredir e mesmo matar alguns dos seus companheiros a sangue-frio. Depois de os revoltosos entrarem em Havana, coube ao Che o papel de avaliar processos de prisioneiros. Na Fortaleza de la Cabaña, onde desempenhou a sua actividade, decidiu a sorte de milhares de prisioneiros. Pela sua mão foram mandados executar, na base de vagas acusações de natureza ideológica, um número de indivíduos de que se desconhece o número exacto, mas que oscilam entre os 600 e os 2000 apenas nos primeiros anos do novo regime. Cabe ao Che o privilégio de ter montado o primeiro dos muitos campos de reeducação no país, instalado confessadamente a exemplo do gulag soviético.
Quem conheça algumas das suas declarações não ficará surpreendido. Era Che quem louvava o “ódio eficaz que faz do homem uma eficaz, violenta, selectiva e fria máquina de matar”. Era também ele quem, ainda em 1952, antes de se transformar num dos mais célebres revolucionários de todos os tempos, escrevia no seu diário de viagem pela América Latina, Diários da Motocicleta, o seguinte: no momento em que a humanidade fosse dividida “em apenas duas fracções antagónicas, estarei com o povo, e (...), uivando como um possesso, assaltarei as barricadas e trincheiras, tinjirei a minha arma de sangue e, louco de fúria, degolarei todos os vencidos que caiam nas minhas mãos. (...) Já sinto as minhas narinas dilatadas, saboreando o odor acre de pólvora e sangue, de morte inimiga”. Walter Salles apresenta por estes dias em Cannes um filme (produzido por Robert Reford) baseado nestes diários, mas não vamos certamente ver nele uma sequência inspirada por esta sentrença, ao estilo da célebre deixa de Robert Duvall em Apocalypse Now: “I love the smell of napalm in the morning”.
No fundo, no fundo, o Che está bem nas t-shirts dos meninos burgueses e tontos das universidades ocidentais. Afinal ele próprio era isso mesmo, um menino burguês argentino, que colou com cuspo umas leituras de marxismo em segunda mão. Um idiota a quem deram responsabilidades e meios para gerar catástrofes. E a quem a posteridade concedeu a sorte de um dia alguém lhe ter feito aquela fotografia.

(Adenda: grato ao Rui, do Superflumina, por uma correcção)
quarta-feira, Maio 19, 2004
 
A persistência da memória
Diz-se que os homens aprendem com os seus erros. Uma acção infeliz ou conducente a resultados infelizes, levá-los-ia a ajustarem o seu comportamento de forma a não repetirem o equívoco. De cada vez que ouço esta trivialidade lembro-me de duas histórias, do mesmo autor. O autor é o escritor argentino Jorge Luís Borges e a primeira história chama-se “Pierre Menard, autor do Quixote”. Menard escreve em 1918 fragmentos do D. Quixote (queria escrevê-lo todo, mas não teve tempo). Não uma versão contemporânea do D. Quixote, mas O D.Quixote. Sem o apoio de notas ou outro instrumento mnemónico, Menard escreve três capítulos da obra. Um deles é idêntico, em termos literais, ao de Cervantes. Isto é, 416 anos depois, Menard escreve exactamente a mesma coisa que o castelhano, sem que o tenha copiado. O narrador do conto considera a obra de Menard em certos momentos superior à de Cervantes. O que é estranho, repetindo o texto verbalmente o primeiro. Mas explica o narrador que, exactamente por ser uma repetição literal, o segundo texto adquire um significado completamente novo. Escrever palavra a palavra o mesmo texto não tem o mesmo significado em 1918 e em 1602.
A segunda história chama-se “Funes, o memorioso”. Ireneo Funes é um homem paralisado (primeiro apenas mentalmente, depois mesmo fisicamente, sendo por isso levado à morte precoce) pela memória. Funes não consegue esquecer. A sua mente é uma acumulação de detalhes de eventos passados. Invadido pela persistência da memória, Funes não consegue pensar e não consegue agir, porque é incapaz de abstracção, incapaz do esquecimento necessário para pensar, do esquecimento necessário para acreditar que está perante certa situação pela primeira vez. Ireneo Funes, a partir de determinada idade, nunca enfrenta situações novas. Funes não só já lá esteve (todos nós já lá estivemos) mas, o que é mais, lembra-se. Por isso conhece as consequências, e não age.
A verdade é que é mentira que aprendamos com os erros. Pelo contrário, fazemos sempre os mesmos erros, mas de cada vez que os fazemos eles deixam de ser os mesmos. Repetir um erro é, afinal, cometer um erro completamente diferente. Todos nós que vamos sobrevivendo somos Menards, replicando, sem saber, palavra por palavra Cervantes. Fôssemos Funes e, por incapacidade de repetição do erro, permaneceríamos imóveis. Fosse eu Funes e não escreveria estas linhas. Estou certo de estar a repetir o texto de alguém, escrito há muito tempo atrás. Mas felizmente não me lembro. E vocês também não.
 
Beyond a reasonable doubt
Com o intuito de provocar a limpeza étnica dos negros da região de Darfur, o governo sudanês (controlado por árabes) enviou para aquela região ocidental do país os janjaweed, uma milícia montada, tradicionalmente usada contra os cristãos do sul. Aos janjaweed existentes juntou desde há um ano atrás criminosos de delito comum, libertados da cadeia de propósito para este fim, os ta’ibeen (palavra que quer dizer, “aqueles que se arrependeram”). A estes deu cavalos, armas e uns dólares, e mão-livre para reprimir os habitantes de Darfur. Desde Fevereiro do ano passado que Janjaweed e ta’ibeen vão lançando raides sobre as aldeias da região, queimando, destruindo, matando e violando os seus residentes. Estima-se que cerca de um milhão de pessoas tenham sido deslocadas em resultado destas acções (a história pode ser lida aqui – só para assinantes – e aqui – para o vulgar cidadão).
A semana passada, o Sudão foi eleito pelos países africanos, por aclamação, membro da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Já aqui disse em momentos anteriores muita coisa sobre a inutilidade da organização e mesmo o seu carácter desprezível. Também já disse algumas coisas sobre as lideranças de muitos países africanos. Depois desta história, não digo mais nada. I rest my case.
 
Meu Deus, como é repugnante o fascismo
Eis o fascismo em acção. Vergonhoso…

segunda-feira, Maio 17, 2004
 
O senhor Bronstein do Café Central
Existe hoje em Portugal um partido que está representado na Assembleia da República e que se reclama das ideias (juro!) de Trotsky. Vasco Rato já há uns dias atrás disse umas coisas sobre Trotsky a merecer consulta (aqui e aqui). Ajunto aqui apenas mais umas notas, sem pretensões a grande coisa.
Uma das mais extraordinárias ficções que comunistas, ex-comunistas e outras espécies sortidas por lá próximas continuam a alimentar é a de que a experiência soviética seria uma coisa maravilhosa não fora terem-se dado alguns acidentes de percurso, o maior dos quais seria Estaline (gosto da ideia de chamar “acidente de percurso” a Estaline). No fundo, desde 1917 que tudo corria bem, mas de repente começou tudo a correr mal. Não vale a pena explicar o que toda a gente sabe (e se não sabe é porque não quer saber): a violência política sobre os opositores do projecto comunista e a violência fratricida entre proponentes do projecto comunista foi uma constante desde o início da história. Não se trata de umas quezílias de bairro ou sequer de programas de encarceramento à Latino-americana. Trata-se da violência permanente, sistemática, cruel e, o que é mais importante, sem complexos, porque justificada pela grandeza da causa. Era Trotsky quem dizia: “independentemente das circunstâncias da minha morte, morrerei com uma fé inquebrantável no futuro do comunismo. (…) Esta fé (…) dá-me um poder de resistência que nenhuma religião daria”. Quem quiser ilustrar-se sobre esta componente violenta da instalação do comunismo na Rússia, tem aqui apenas algumas referências bibliográficas (for starters, pode ser esta, esta, esta e esta).
Trotsky foi, precisamente, um dos grandes praticantes (e depois vítima) dessa violência. Trotsky é, juntamente com Lenine, o inventor do moderno campo de concentração. Não, evidentemente, apenas do nome (embora ele seja o primeiro a usá-lo). Afinal, podia chamar-se campo de concentração e dedicar-se à prática do amor livre e da recreação desportiva. Trotsky fez a primeira menção a essa instituição em 1918, quando mandou encarcerar uma legião de soldados checoslovacos revoltados (mas que tinham ido em ajuda da revolução durante a guerra civil) em “campos de concentração”. Desde esta menção, os ditos campos não deixaram de aumentar em número. Muita gente não sabe que foram estes primeiros campos de concentração a inspirar os equivalentes nazis.
Nada disto surpreende muito. Afinal, para Trotsky, “a ditadura do partido comunista deve ser mantida com recurso a toda a forma de violência”. E era também ele quem apoiava a pergunta retórica de Lenine: “como é possível fazer uma revolução sem execuções?” O próprio diria logo em 1917: “não há nada de imoral no facto de o proletariado eliminar a classe em extinção. É o seu direito. (…) Dentro de um mês no máximo o terror vai assumir formas assustadoras, baseadas no modelo dos grandes revolucionários de França. Os nossos inimigos não vão enfrentar a prisão, mas a guilhotina”. A guilhotina era um instrumento que Trotsky apreciativa e alarvemente chamava uma máquina “que faz encolher um homem pelo tamanho de uma cabeça”.
Trotsky sempre foi uma fonte inesgotável de boas ideias. Durante a guerra civil, foi comandante do Exército Vermelho. Tinha o hábito de viajar para a frente à maneira das actuais pop stars, num comboio luxuoso, fornecido de excelentes iguarias (era um gourmet). Vestia fardas impecáveis e botas lustrosas, num estilo em que alguém se inspirou também mais tarde. Certamente enlevado por esta boa experiência, lembrou-se nos anos 20, quando foi necessário reconstruir o país, de duas coisas: 1) usar os encarcerados nos campos de concentração para esse esforço – uma ideia com grande futuro e ainda hoje utilizada, por exemplo, em Cuba; 2) organizar a mão-de-obra civil (toda a mão-de-obra civil) de acordo com regras militares – chamou-se a esta magnífica ideia, precisamente, a “militarização da mão-de-obra”.
Em suma, às mãos desta e doutras criaturas, já muito antes de Estaline, centenas de milhar de pessoas estavam encarceradas em campos de trabalhos forçados e dezenas de milhar tinham sido executadas, em geral de forma sumária. É nas ideias da dita criatura que o partido de que falei ao início se inspira. Seria possível sem escândalo, existir na Assembleia da República, um partido inspirado nas ideias de Goebbels? Muitos de nós, se sabemos que existiu, achamos dele o que a polícia vienense achava quando o ouvia a fazer prédicas socialistas no Café Central em Viena: “o senhor Lev Bronstein (seu verdadeiro nome ) é um inofensivo radical”. Viu-se.
(with special thanks to LM - um verdadeiro copydesk especializado)
 
E Sam Spade chorou
AC, obrigadinho. Eu esforcei-me tanto (e diverti-me outro tanto) e só tu, meu moço, é que ligaste àquele post. Ainda por cima chamas-me facho (já há muito tempo, diga-se a verdade) e mesmo assim gostas de mim... Já vou na minha segunda caixa de kleenexes. Entretanto, o script já está vendido. Para o papel de "Long" Licks indiquei Selma Hayek. Por duas razões: a primeira é óbvia, a segunda também.
 
Os merecidos linques
Já é a segunda vez que digo para mim mesmo: ora cá está uma coisa para fazer um link lá no blog. Dou uma olhadela pela concorrência e o Manuel já se adiantou (aqui e aqui). São excelentes (para além do próprio Manuel, evidentemente) o artigo de VDH na NR (gosto de falar por siglas, dá um ar entendido) e a análise clínica de um cartoon do Le Monde por Nelson Archer no Europundits.
sexta-feira, Maio 14, 2004
 
E mais uma coisinha
Parabéns a estes corajosos irmãos UBLianos.
 
Olha outro
Este Mascarenhas é do diabo. Então não é que foi catar mais um dos melhores fachos da praça para aquilo que ameaça transformar-se no dream team dos fachos na blogosfera? Desta vez foi o João Marques de Almeida. Johnny, my man, afinal também tu cedeste aos encantos da banda larga. E foi logo a matar. Olha, eu já assinei. Até porque reivindico uma parcelita de paternidade da história. Salvo erro, fui o primeiro a falar do assunto aqui na blogsfera, citando um excelente artigo desse nosso excelente amigo comum que é o Rui Ramos. Claro que a coisa foi redireccionada do mundo virtual para o real por vias mais dignas. Seja como for, é sempre bom saber que gajos rascas como eu sempre servem de inspiração para qualquer coisa.
 
O Argumento
Existe um argumento dos defensores da guerra do Iraque que tem sido muito ridicularizado. Diz esse argumento que o aspecto crucial deste trágico episódio de Abu Ghraib é a capacidade de um regime democrático, liberal e baseado no governo da lei não tolerar eventos daquela natureza e puni-los com exacta severidade. Quem ridiculariza este argumento mostra a sua mais absoluta incompreensão sobre o que é a democracia, a liberdade e o dito governo da lei. Assentemos nisto: esse argumento é O Argumento sobre a questão.
Só nos delírios socio-comunistas de antanho (e respectivas sequelas mais ou menos informes de hoje) alguém imaginou que os regimes políticos alteram a natureza humana. Só nesses delírios alguém imaginou que a instauração do socialismo, do comunismo, da anarquia, da democracia seria capaz de criar homens universal e homogeneamente bons. O que é importante na democracia, no liberalismo e no governo da lei não é a transformação do homem num ser angelical, a partir da vil matéria original. O que é importante é que um regime democrático e liberal faça as suas instituições assentarem num corpo de leis capaz de dissuadir os homens de levarem à prática as suas piores tentações. Quando a mera existência das leis não os dissuade, então as leis devem ser aplicadas e aqueles que não foram dissuadidos devem ser castigados.
Devemos entender-nos de uma vez por todas sobre Abu Ghraib: o que lá aconteceu não devia (não podia!) ter acontecido. Para vergonha de todos os que apoiaram a guerra no Iraque, aconteceu. A única solução para atenuar (nem sequer é apagar) a mancha que caiu sobre eles é mostrarem porque razão a guerra foi feita. A guerra não foi feita para transformar os iraquianos em querubins alados, foi feita para que aqueles que no Iraque abusavam do poder para torturar, matar e castigar arbitrariamente deixassem de o fazer. Abu Ghraib é a oportunidade para, precisamente, mostrar isso mesmo. Quem fez o que lá fez deve ser castigado na exacta proporção (legal) do mal que causou.
Ao contrário do que pode parecer, dado o actual estado do debate, a questão política de Abu Ghraib não é a demonstração da maldade ou bondade intrínseca dos americanos. Essa questão política, na realidade, subdivide-se em duas:
1) Alguém torturou e matou prisioneiros iraquianos. Até onde na cadeia de comando vão as responsabilidades criminais? As responsabilidades esgotam-se na acção espontânea e desenquadrada dos soldados que guardavam os prisioneiros? Esgotam-se nos seus superiores imediatos? E nos superiores destes? É isto que tem de ser esclarecido. Não é andar a gritar que são todos assassinos, Rumsfled e Bush os piores deles. Uma vez estabelecido o limite razoável de responsabilidade, os que a têm devem ser punidos de acordo com a lei.
2) Se é este o problema político, então o que se deve seguir não é a gritaria indignada contra o fascismo americano, mas a exigência de que o sistema de controle e punição funcione. As indicações até agora não são más: a primeira informação sobre o episódio teve origem num relatório interno do exército (do general Taguba) e desde então foram desencadeados diversos inquéritos. Quando a CBS e a New Yorker divulgaram as imagens (cuja fonte é o próprio exército), já esses inquéritos estavam a decorrer. Devemos pedir agora que as coisas assim continuem até às últimas consequências.
Quem usa o caso de Abu Ghraib para gritar contra a guerra está a fazer um uso instrumental da tortura (a maior parte dessas pessoas tem aliás um património político lamentável neste domínio) para outro fim. A exigência que deve ser feita é que a lei se cumpra, pagando os culpados o que tiverem a pagar. Seria essa a melhor demonstração de que a guerra foi justificada e justa.
quarta-feira, Maio 12, 2004
 
The Rhonda Licks Affair
Ao chegar ao escritório, por volta das 11 da manhã, sentei-me na cadeira e pousei os pés na secretária. Esfreguei a testa para aliviar os efeitos da ressaca da noite e folheei a edição do dia do Santa Monica Chronicle. O costume: corrupção na Casa Branca, corrupção no Senado, corrupção na Casa dos Representantes, corrupção no FDA. É em dias como este que me lembro do que o meu pai me dizia: “serás um homem justo e bom”. Pois, papá, também já acreditei nisso, mas foi antes de ter descoberto o Jack Daniel's com duas pedras de gelo. Dei uma olhadela ao relatório de peritagem para a Save America Insurance que Joe tinha deslizado por debaixo da porta. Era um caso perdido. Mais uma vez a minha conta bancária ia ficar em seco.
Enquanto inalava o meu décimo Chesterfield do dia (ultimamente ando a fumar pouco) e dava três golos em jejum na garrafinha de xarope (marca Jack Daniel's), tocou o telefone. Era ela. Rhonda. Rhonda Licks. O seu quarto marido tinha-me contratado para a vigiar: suspeitava que o andava a traír. Os três maridos anteriores tinham morrido de estranhas causas. A mim não pareciam estranhas: com mulheres como Rhonda tais coisas acontecem muito naturalmente. Rhonda era conhecida em Hollywood como “Long” Licks. Disputava-se em Beverly Hills a razão da alcunha: seria porque Rhonda tinha tendência para lamber completamente as fortunas colossais dos falecidos esposos? Ou seria porque usava com proficiência a língua para outros fins? “Frank?”, disse ela, na sua voz rouca. “Queria falar consigo.” Eu conhecia aquele tom de voz: era Primavera, a época do cio entre as focas do Pacífico. “Ah, sim? Quer finalmente ter uma conversa intelectual? Quer que lhe conte o final de The Scarlet Letter, de Hawthorne?”. Um pequeno ruído gutural do outro lado do fio indicava que “Long” Licks tinha sorrido: “Frank, é esse seu humor que o vai perder...”
Aceitei fazer a visita que me pedia, na sua barraquita de Redondo Beach, para onde ia desenjoar de Malibu. Montei no meu Chevrolet Cavalier em quarta mão, não sem antes admirar a pancada por cima da roda direita com que um qualquer ás do volante tinha decidido decorar o meu bichano. Desci de Bel-Air em direcção ao Santa Monica Boulevard, meti a Wilshire Boulevard, girando depois à esquerda para entrar na Interstate 405, em direcção a Redondo Beach. No caminho observei as casas ornadas de buganvílias. O cor-de-rosa das buganvílias sempre me tinha enjoado. E L.A. rebentava de buganvílias. Deve ser por isso que L.A. me enjoa.
Subi a alameda entre o portão e a modesta casa de 20 divisões de que “Long” Licks era proprietária. Antes de saír do carro, sorvi mais um Chester, bochechei um pouco do xarope e apalpei as costas, na zona do coldre. Lá estava ela, a minha querida, a minha Magnum 45, aquela sem a qual não sou ninguém e que passeio por todo o lado. Sabem que mais? Nunca me traíu. Fui conduzido pelo mordomo à piscina, onde Rhonda se estirava numa cadeira longa, beberricando um cocktail e fumando um King Size. O espectáculo era digno de ser contemplado: a pele tostada deixava adivinhar uns resquícios de bikini florido. O marido suspeitava de qualquer coisa? Eu, se fosse a ele, também, mas mesmo antes de me casar com ela. Com aquilo que tinha para oferecer, o que é que ela podia fazer senão traír maridos?
Sentei-me numa cadeira ao lado da sua: “Quer que lhe traga uma camisola de gola alta? É capaz de estar com frio...” perguntei inocentemente. Novo ruído gutural. “Frank. Você e eu poderíamos fazer grandes coisas. Essa sua verve é mortal”. “Sim, Rhonda, e se se constipar, não se preocupe, eu trago o supositório”.
“Sabe, Frank? Suspeito que alguém me anda a vigiar”. Atirei uma concha para dentro da piscina e reagi: “a sério, Rhonda? Certamente alguém com vontade de ter uma experiência espiritual consigo”. “Não. Acho que é o meu marido”. Estive para perguntar se ainda era o marido, ou não seria já o ex-marido. Contive-me. E, para além disso, ela levantou-se, coisa que me deixou em estado de choque. Poupo-vos a descrição do que passou diante dos meus olhos. Baixou-se na minha direcção, tendo o cuidado de deixar a parte de cima do bikini na linha recta horizontal do meu olhar. Levantou os óculos escuros para a testa e, com as pupilas dilatadas, fixou-me. “Espere aqui”, disse finalmente, enquanto se dirigia para o interior da casa. Eu percebia muito bem o que uma mulher queria quando olhava assim para mim. Até porque muitas mulheres tinham querido muita coisa de mim. E eu tinha dado. Não era por acaso que me chamavam “Frank, the piston” no velho liceu de San Fernando.
Foi nessa altura que senti uma pancada na nuca. As cores do guarda-sol fundiram-se num arco-íris fantástico quando caí inconsciente. Ainda me pude aperceber da figura do mordomo segurando uma pequena moca metálica. Ah pois, a culpa é sempre do mordomo.
A próxima coisa de que me lembro é da porta da arca frigorífica a abrir, seguida da voz do Sargento Silva, da GNR de Arcos de Valdevez: “Bem... se este não é o Detective Correia? O gajo das investigações com dignidade. Está aqui congelado dentro da arca. Bem fanadinho e bem durinho”. Responde o Sargento Lopes: “Eh pá, não havia de estar? O Detective Correia sempre foi um duro”. As gargalhadas deles ecoaram pela cozinha, enquanto eu sonhava encontrar no céu o bikini de Rhonda. De preferência com Rhonda lá dentro.
terça-feira, Maio 11, 2004
 
Quatro vezes é suficiente
George Bush pediu desculpa, Tony Blair pediu desculpa, Donald Rumsfled pediu desculpa e ontem o Senado americano pediu desculpa. Parece-me que já chega. Quatro vezes é suficiente. Bastava, aliás, uma vez, pela voz do comandante-chefe das principais forças armadas envolvidas no teatro de guerra. A maneira de melhor atenuar a mancha lançada sobre os aliados em resultado dos actos de violência cometidos pelos seus soldados nas prisões iraquianas seria concentrar esforços em duas coisas: a) na demonstração (que já está ser feita, de resto) de vontade em investigar detalhadamente estes actos horríveis e punir quem tiver que ser punido; b) na prossecução do esforço de implantação de um regime apresentável no Iraque.
De acordo com uma sugestão tonta (muito típica da nossa era de símbolos superficiais) feita pela revista The Economist e outras pessoas, Donald Rumsfeld deveria demitir-se, por forma a que os defensores da guerra pudessem oferecer um “iconic act” em resposta ao “iconic act” que representam as fotografias de Abu Ghraib. Donald Rumsfeld não tem nada que demitir-se, pelo menos por enquanto. Se da investigação que está a ser feita resultar a indicação comprovada de que Rumsfeld sabia e apoiou semelhantes actos, então deverá demitir-se. Neste momento, a sua demissão não seria mais do que o enésimo e estéril “pedido de desculpas”. Os defensores da guerra têm “iconic acts” melhores a oferecer do que a demissão do Secretário da Defesa americano. Têm a oferecer o funcionamento de uma democracia capaz de punir quem não cumpra os valores por que se rege, e têm a oferecer a possibilidade de instalação de um regime idêntico lá onde tal coisa nunca existiu.
segunda-feira, Maio 10, 2004
 
O nevoeiro da guerra
Um exercício genericamente imbecil a que muita gente se vai dedicando por aí é o de estabelecer comparações, em termos militares, entre a guerra do Iraque e a do Vietname. Tal como a do Vietname, a guerra do Iraque seria um “atoleiro” (quagmire), conducente à inevitável derrota ocidental. Convém compreender uma coisa: não há qualquer comparação possível (no domínio estritamente militar) entre a guerra do Vietname e a do Iraque. A guerra do Vietname durou entre duas a três décadas e envolveu uma antiga potência colonial (a França) e uma superpotência do pós-II Guerra Mundial (os EUA). No Vietname, os EUA enfrentavam um inimigo mutável e mutante, que em determinadas circunstâncias se convertia numa força de guerrilha, noutras num exército convencional (em 1973, o Vietname do Norte tinha o terceiro maior exército do mundo, depois dos EUA e da URSS). Em 1973, quando se iniciam as célebres negociações de Paris, os EUA tinham a guerra ganha militarmente. No Iraque a guerra durou três semanas e foi seguida por um ano de actos terroristas e escaramuças que nada têm que ver com a escala de combates do Vietname. Os EUA não enfrentam um exército da escala do vietnamita, mas grupelhos rusticamente armados, que vão causando baixas civis e militares sem qualquer comparação com as do Vietname.
As comparações com o Vietname só poderão fazer sentido no que toca à relação da opinião pública com a guerra. O Vietname não foi uma guerra perdida no campo de batalha, mas perdida por aquilo que cada vez mais parecia ser a falta de vontade de lutar do povo americano. A guerra do Vietname foi perdida na chamada frente doméstica: nas televisões, nos jornais, nos campuses universitários. A derrota do Vietname é uma derrota imposta a si mesmos pelos EUA. Neste sentido, a guerra do Iraque pode ser parecida com a do Vietname. Basta que a opinião pública ocidental o queira. E neste sentido, quem compara as duas guerras pode muito bem ter razão. Tem, aliás, mais do que razão: está a cumprir uma profecia que se cumpre a si mesma.
A opinião pública que se opôs à guerra do Vietname nas décadas de 60 e 70 fê-lo sob a retórica do pacifismo e da crítica à violência. Fê-lo também em nome da construção de sociedades que seriam superiores à sociedade ocidental, como todas as sociedades socialistas então existentes no mundo (alguém se lembra?). O Vietname foi mais uma dessas sociedades superiores ao Ocidente. A opinião pública ocidental considerou cumprido o seu dever de difusão do bem e da paz pelo mundo quando o último helicóptero americano saiu do terraço da embaixada americana em Saigão. E no entanto, o verdadeiro horror estava para começar: alega-se (sem certezas rigorosamente nenhumas) que os americanos terão causado no Vietname 50.000 vítimas civis. Admitamos que sim. A vitória comunista e ocupação do Vietname do Sul trouxe um milhão de boat people, centenas de milhares de refugiados na Tailândia (deste conjunto, entre boat people e refugiados terrestres, quase dois milhões foram recebidos nas “inferiores” sociedades ocidentais) e milhares de chineses expulsos do país, na sequência de uma campanha de limpeza étnica. Indivíduos em números por estabelecer (mas nunca menos do que da ordem das centenas de milhar) foram internados em campos de reeducação, muitos sumariamente executados. Caído o Vietname, caíram também o Cambodja e o Laos. Nos dois anos subsequentes à queda de Saigão já havia duas vezes mais vítimas civis do poder comunista em todo o Sudeste asiático – à conta do genocídio cambodjano, das execuções sumárias e das horríveis condições de vida nos campos de reeducação - do que durante os dez anos de verdadeira guerra no Vietname (1965-1974).
As vítimas deste verdadeiro holocausto, na impossibilidade de fazerem outra coisa, continuam à espera, pelo menos, de um pedido de desculpas.
quinta-feira, Maio 06, 2004
 
O meu melhor amigo
Há exactamente quatro anos atrás toquei pela primeira vez no meu melhor amigo. Tinha-o conhecido apenas uns meses antes e tinha-o visto pela primeira vez num monitor de televisão. Desde então, temo-nos perdido em grandes alegrias e grandes zangas. Às vezes grito eu com ele, outras grita ele comigo (mais eu do que ele, mas isso vem do meu proverbial mau feitio). Ele mostra-me uns livros, eu outros. Umas vezes escolho eu o filme, outras vezes ele. Ele adora a FNAC e a casa de gelados da Häagen-Dazs, ambas no Chiado. Não falamos de política, mas de futebol (partilha comigo a infelicidade ser do Sporting) e literatura (talvez o seu autor favorito seja J.M. Barrie, embora ultimamente se venha entusiasmando com E.B. White). São já incontáveis as ocasiões em que, farto de tudo, apenas com ele encontro consolação. Espero que com ele aconteça a mesma coisa, mas não tenho a certeza. Hoje organizamos uma festa para comemorar o dia em que nos olhámos nos olhos pela primeira vez. Ele chama-se Manuel, Manuel Amaral, é meu filho e veio ao mundo a 6 de Maio do ano 2000 (talvez o dia mais importante da minha vida). Às vezes pergunto-me porque o ajudei a vir a esta terra. A única coisa que lhe peço é que, quando tiver a minha idade, me desculpe, como eu não sei se consigo desculpar os meus pais.
quarta-feira, Maio 05, 2004
 
Ai, que marotos...
Já corrigiste, Pedrocas. Muito bem, meu maroto, muito bem. Quem ajuda os meninos malandrecos a fazer o trabalho de casa, quem é? Não se manda um beijinho ao papá, nem nada?
 
Secôquingue
A estes rapazes é preciso ensinar-lhes tudo. Pedro, ninguém te obriga a escrever em inglês. Mas se queres escrever em inglês, já agora escreve com a ortografia exacta. Presumo que quisesses escrever shocking, no sentido de chocante. Escreveste schoking, algo que se poderá talvez ler como secôquingue.
É apenas uma pequena correcção ortográfica, que podes usar livremente. Ou então estou enganado e é qualquer coisa gira aprendida com a malta dos SMSs. Hoje, se calhar, já não se veste smoking, mas sim secônquingue, ou schoking, em inglês. Se alguém se quer livrar do vício da cocaína, entra num processo de schoking. Não sei, não sei, as coisas mudam tão depressa agora.
 
Vitriolica and Madge
Entretanto, aconselho toda a gente a conhecer as aventuras das meninas Vitriolica e Madge, da autoria da minha amiga Lucy Pepper. A Lucy é inglesa mas vive em Portugal (escolheste o homem errado, escolheste o homem errado...) e desenvolveu um olho clínico e cómico sobre aquilo que por cá vai vivendo. Vitriolica escreve e é mazinha. Madge desenha e é boazinha (pelo menos eu acho que é boazinha). Não que Madge exprima emoções verbalmente, mas porque os desenhos me parecem sempre muito simpáticos, mesmo quando feitos com a intenção de ridicularizar.
Já tens contrato com uma editora para fazeres o livro?
 
Maggie. Mas agora a sério
Depois da idiotice daquelas mensagens em estilo hooliganístico para relembrar os 25 anos da primeira vitória eleitoral de Margaret Thatcher – é sempre penoso ver pessoas que me habituei a considerar inteligentes fazerem tamanha demonstração de palermice: espero sinceramente que seja uma coisa passageira -, vamos lá dizer qualquer coisita um bocadinho mais condigna a esse respeito.
Convém lembrar o que era a Grã-Bretanha de 1979: um país com uma economia decadente, a caminho da estatização completa, dominada pelo mais absurdo socialismo (quando não o era pela presença do Partido Trabalhista no governo, era-o em termos intelectuais no conjunto da sociedade, por falta de afirmação de um programa liberal). Aquele que tinha sido até antes da II Guerra Mundial o mais rico país da Europa havia caído para o fundo da tabela europeia em finais dos anos 70. Mais do que privatizar e impedir que a Grã-Bretanha fosse governada por sindicatos de mineiros e camionistas, Maggie foi a primeira governante a dizer aquilo que é hoje um lugar-comum. Lugar-comum que (creio) nem sequer Luís Fazenda discutirá: que sem mercado mais ou menos livre, que sem propriedade privada, que sem capitalismo (mais ou menos regulamentado: a distinção entre esquerda e direita está agora aqui, não está entre abolir o capitalismo e manter a sua existência) não há prosperidade económica. Mesmo se Maggie não fez nem metade do que poderia ter feito, hoje a Grã-Bretanha é uma das mais vibrantes economias europeias.
Mas convém lembrar, sobretudo, o que era o mundo em 1979: a Europa de Berlim para lá estava entregue ao mais repugnante totalitarismo comunista. E o mesmo acontecia a uma fracção muito substancial do mundo. Maggie foi a primeira governante a dizer que mais do que aprendermos a conviver com esse facto, era preciso fazê-lo desaparecer. Quem ouça as tontices que habitualmente sobre ela se dizem, nem sequer percebe que o presumível consenso que hoje se vive em torno da (à época) desprezivelmente denominada “democracia burguesa” muito deve a Maggie. Antes dela (e de Ronald Reagan), custa a crer mas é verdade, o socialismo (fosse na sua versão das estepes, na sua versão do deserto de Gobi, na sua versão tropical americana, na sua versão luso-tropical, na sua versão albanesa, na sua versão Kim-ba) era apresentado (nas famosas palavras de Sartre) como o “horizonte inultrapassável da humanidade”. Se há uns dias atrás uns quantos países do Leste europeu entraram para a União Europeia (a mesma União que Maggie tanto ridicularizou, mas que paradoxalmente tanto ajudou a salvar) muito a ela devem. Se hoje em dia Carlos Marques é a favor da permanência de Portugal na UE, em parte o deve a Maggie. Falo de Carlos Marques, porque Carlos Marques é do BE e porque me lembro de o ver dizer (não sei bem em que circunstância) em 1989 (atenção: em 1989, não em 1979) que a Albânia tinha o tipo de regime que Portugal deveria adoptar (ou qualquer coisa deste género). Se hoje até mesmo a esquerda mais idiota tem vergonha do seu passado soviético, maoísta, castrista, sunguista, hoxista, muito o deve a Maggie.
Eles não se lembram, eles não sabem, eles não querem saber. E é por isso que pessoas como Maggie se calhar não deveriam nunca existir. Tal como Schumpeter avisou já há uns 70 anos: o liberalismo cria a mesma estirpe de pessoas cuja única ideia é destruí-lo. O que faz com que as suas vitórias sejam esquecidas. E faz com que a sua viabilidade esteja sempre a ser questionada. Provavelmente com razão: talvez o liberalismo seja mesmo inviável.
terça-feira, Maio 04, 2004
 
Resistir é vencer (obrigado Zémário)
Francisco Sarsfield Cabral tem uma coluna quotidiana no Diário de Notícias, com o nome genérico “Tentar Perceber”. São sempre de louvar pessoas que tentam perceber. Eu por mim já desisti de tentar perceber o grande imbecilismo contemporâneo ocidental. Aquele que se manifesta no ódio inexplicável do Ocidente por si mesmo. Não importa que vivamos hoje com padrões de liberdade únicos. Sempre aparecerão cretinos a asseverar-nos que o sistema é repugnante.
Não há, evidentemente, uma explicação racional para isto. Quem ler Disgrace, de J.M. Coetzee, perceberá que não há. Não perceberá porque é que não há. Mas perceberá que não há.
Felizmente, nem toda a gente desiste de tentar perceber e persiste (resiste? Obrigado Zémário). É o caso de Victor Davis Hanson, um dos melhores historiadores militares americanos vivos. Deixo aqui um artigo. Eu sei que não convence ninguém, mas deixo-o na mesma. For the record.

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