O Comprometido Espectador
Quarta-feira, Junho 16, 2004
Unbloomsday
Faz hoje um ano nascia O Comprometido Espectador, um blog sobre… Sobre o que é que é, exactamente? Conta quem viu que, nesse dia, o céu se cindiu em dois e dele brotaram sete serpentes aladas, cada uma delas representando uma diferente qualidade humana: a temperança, a obstinação, a paciência, o vício, a inépcia, a fé e a constância. Testemunhas oculares afirmam terem visto um elefante de chifres rombos a urrar na Praça do Rossio. Relatos contraditórios dão nota de cem (nas palavras de alguns circunstantes) ou duzentas (nas palavras de outros) crianças com cauda de porco entoando o Padre Nosso no terminal da Carris à Pontinha. E existe mesmo o testemunho de uma mulher (por confirmar), segundo o qual, às 14.35 dessa tarde, um hipopótamo sem cabeça terá subido o elevador de Sta. Justa, em Lisboa.
Ora, que melhor maneira de comemorar um evento tão momentoso senão encerrando O Comprometido Espectador? Pois é exactamente isso que vai acontecer. Não foi decisão tomada ontem, durante o jantar, mas há meses. Desde há já bastante tempo que me dei o limite da data do primeiro aniversário d’O Comprometido Espectador para o encerrar.
Perguntarão os parcos (parquíssimos) leitores regulares do pasquim: mas porquê, Comprometido? Mas porquê, Espectador? Querem uma resposta sincera? Pois aqui vai. Por nada de especial, a não ser a falta de tempo (que, como toda a gente sabe, é falta de dinheiro). Isto dos blogs é muito divertido. Como sabem as pessoas que cá andam, divertido de mais. Quem, de entre nós, não passou já uma tarde inteira a matutar numa piadinha qualquer para pôr no blog, com o trabalho a empilhar-se na secretária? É que, pode não parecer, mas eu tenho uma profissão, a qual não é escrever blogs. Pode não parecer, mas eu tenho uma família, que não se alimenta de eu escrever em blogs. Pode não parecer, mas eu tenho vícios, que idem. Foi muito engraçado, mas agora é tempo de desligar aqui o bicharoco.
Termino apenas desejando a todos os que por cá continuam que continuem e continuem a divertir-se. Acrescento ainda uma pequena lista dos blogs que leio e gosto de ler (uns diariamente, outros mais espaçadamente). O número de blogs aumentou tanto ao longo deste ano que fui obrigado a ir seleccionado aqueles que ia lendo e continuarei a ler. Dos que não cito, alguns são blogs que não aprecio mesmo, outros serão blogs de que talvez gostasse mas não conheço o suficiente para recomendar. A quem caiba nesta categoria, peço desde já desculpa por não ser incluído. Igualmente peço desculpa por começar a lista pelos meus valorosos irmãos da UBL, benfazeja organização que é exímia na organização de jantaradas, todas elas dedicadas à mais sistemática prossecução da defesa dos nobres princípios da liberdade. A lista organiza-se não por ordem de preferência, mas alfabética.
Adeusinho e have fun
A Lista:
A UBL:
A Causa foi Modificada
Bomba Inteligente
Blogue dos Marretas
Contra a Corrente
De Direita
Fumaças
Gato Fedorento (Zé Diogo Quintela)
O Intermitente
Jaquinzinhos
Mar Salgado
No Quinto dos Impérios
Picuinhices
Tradução Simultânea
Valete Fratres!
Voz do Deserto
Os outros:
O Acidental
Africanidades
A Kathleen Gomes é um Boi
Babugem
Barnabé
O Bazonga da Kilumba
Blasfémias
Blogue de Esquerda (II)
Cartas de Londres
Causa Liberal
Como se fosse uma Baleia
Desesperada Esperança
Ditadura do Consenso
Estrada do Coco
Fora do Mundo
Homem a Dias
La Inqusición
João Pereira Coutinho
Ma-Schamba
Os Meninos de Ouro
Miss Vitriolica Webb’s Ite
My Moleskine
Nós e os Outros
Nova Frente
O Observador
O País Relativo
O Projecto
A Razão das Coisas
Roda Livre
Superflumina
Um em Muitos
Veritatis
What Do You Represent
Ardimanhas
Meu caro Ardiloso. Você não sabe, mas eis aí uma coisa que não sou: ardiloso. Direi mesmo mais: sou um nabo. Eu já ouvi falar desses programas e até já beneficiei, via amigos, dos resultados da nobre actividade. Mas (chame-me tosco à vontade), não sei bem porquê, sempre me faltou a paciência para instalar um aqui no computador. Mas não há estupidez que sempre dure nem preguiça que nunca acabe. E por isso você acaba de dar-me o último argumento para me deixar de parvoíces. Vai ver. Daqui a um mês até lhe mando o próximo disco dos Magnetic Fields. O quê? Só vai saír daqui a três anos? Pois vai andar a rodar cá em casa há três semanas.
Terça-feira, Junho 15, 2004
De 2002?
Meu caro Ricardo, Yankee Hotel Foxtrot é um dos melhores discos de 2002, 2001 e mesmo 2000 - em 2002 ouvi-o tão obsessivamente que a espessura do disco se deve ter reduzido a metade.
O que eu gostava era de saber como é que a 15 de Junho ouves um disco que apenas vai ser lançado a 22 - olh'áqui.
Segunda-feira, Junho 14, 2004
Análise eleitoral (IX)
Em Portugal:
PSD/CDS-PP - 33%
Se eles continuarem assim. Eles vão voltar a perder.
Análise eleitoral (II)
Na Alemanha:
CDU - 46%
SPD - 23%
Verdes - 10,5%
Eles não mentem. Eles levam um bigode.
Sexta-feira, Junho 11, 2004
O Sr. Churchill
Aqui há umas semanas atrás, o André Belo lançou-se numa diatribe sobre a utilização da história para fins políticos correntes. Havia muito a dizer sobre ela, mas se calhar um blog não é o espaço apropriado para isso. No final da diatribe o André utilizava o exemplo da oposição Churchill-Chamberlain para ilustrar as suas ideias genéricas e fazia uma espécie de petição para que a história, enquanto disciplina que deve cultivar uma certa objectividade, fosse capaz de dar uma imagem mais justa de Chamberlain e do chamado appeasement em geral – e também de colocar Churchill num lugar um pouco mais abaixo do pedestal onde foi posto desde a II Guerra Mundial. Visivelmente, o André desconhece a existência em Inglaterra nos dias que correm de uma verdadeira indústria historiográfica de reabilitação do appeasement e de desmistificação da lenda de Churchill. O inevitável Christopher Hitchens fez, de resto, há uns anos, uma análise dessa literatura, na qual também ajudava à festa iconoclasta (aqui). A sensação que me fica, mesmo depois de considerar essa literatura (que trouxe muita coisa válida e verdadeira, mas também muita irrelevância e falsidade), é que o mito resiste. Mesmo Hitchens, na violência verbal que o caracteriza, acaba por reconhecer isso mesmo a determinado passo.
De onde vem o mito de Churchill (e o correspondente anti-mito de Chamberlain)? A má imprensa de Chamberlain decorre essencialmente da sua acção enquanto primeiro-ministro entre 1936 e 1938, período durante o qual a Grã-Bretanha e a França (não apenas Chamberlain) tergiversaram perante as evidentes acções destabilizadoras de Hitler (a remilitarização da Renânia, o Anchluss e a invasão da Checoslováquia). Aquilo a que se chama appeasement são precisamente essas tergiversações. O appeasement fundava-se em princípios compreensíveis. Alguns dotados de uma certa nobreza, nomeadamente o princípio de ressarcir a Alemanha das injustiças do Tratado de Versalhes e o princípio de manter a paz na Europa, outros não, como a mal escondida simpatia por Hitler de alguns dos seus representantes. Curiosamente, neste período, Churchill não se destaca particularmente pelo seu “belicismo”. Não era um appeaser muito convicto, mas também não era um “belicista” muito convicto. Na verdade, oscilava entre dizer, em determinados momentos, que não se devia negociar com Hitler e aceitar, noutros, negociações. De resto, não é Churchill quem declara guerra à Alemanha, na sequência da invasão da Polónia, mas Chamberlain.
Onde a acção de Churchill é extraordinária e merecedora da memória eterna da humanidade não é, portanto, nesta altura, mas mais tarde, em Maio de 1940, já durante a guerra. Para se perceber porquê é necessário conhecer um dos mais importantes (e conhecidos, de resto) episódios da II Guerra Mundial, a chamada Batalha de França. A Batalha de França trouxe uma das mais humilhantes derrotas militares francesas. Essencialmente, num mês o exército alemão entrou em França e ocupou quase integralmente o seu território, com o exército francês a demonstrar uma desesperante incapacidade para lhe fazer frente. Com a débâcle francesa e com Churchill já em primeiro-ministro, colocou-se no War Cabinet de novo a questão de negociar com Hitler. Para muita gente na Grã-Bretanha, com a vertiginosa e inesperada derrota francesa, a guerra estava acabada e a vitória era alemã. Tratava-se agora, para a Grã-Bretanha, de procurar termos de entendimento com os novos senhores do continente. No governo presidido por Churchill, duas pessoas se destacaram pelo seu apoio a negociações, Chamberlain e Lord Halifax. Para eles, a situação, mais do que desesperada, era impossível de ser revertida. E muita gente na Grã-Bretanha acreditava nisso mesmo. Não Churchill, que em Maio dissera a Roosevelt: “if necessary, we shall continue the war alone. We are not affraid of that”. Foi contra uma larga parte da opinião pública britânica e de muita gente no seu próprio governo que Churchill impôs a sua posição. Assim se salvou a Europa de permanecer nas mãos da Alemanha nazi e o mundo de entrar numa das mais negras fases da sua história. É esta a extraordinária acção de Churchill que a posteridade recordará agradecida.
Altura em que podemos regressar à questão da avaliação histórica de determinados episódios. A história, enquanto disciplina científica (??), pode perfeitamente reabilitar Chamberlain, Halifax e todos aqueles favoráveis a um entendimento com Hitler. Afinal, tal posição é perfeitissimamente compreensível. Com a Europa, da França à Polónia, entregue à Alemanha nazi e à Itália fascista, e a Grã-Bretanha isolada na sua ilha, incapaz de qualquer acção ofensiva, como não compreender o desejo de negociação? Já a acção de Churchill pende mais para o lado do incompreensível. Um conselheiro sensato teria provavelmente dito a Churchill para não tentar a loucura de continuar em guerra com a Alemanha em circunstâncias tão desesperadas. Só que Churchill era, de facto, um pouco louco. E foi da sua insensatez, loucura e pura coragem (em larga medida incompreensíveis, à luz, por exemplo, de uma avaliação histórica assente na razoabilidade) que nasceu um dos mais notáveis momentos da história da humanidade.
A literatura dedicada a desmistificar Churchill nota o seu carácter inconstante, algumas duvidosas simpatias, os sistemáticos fracassos políticos e militares – em muito maior número do que os êxitos – e mil e um aspectos menos recomendáveis da sua vida. Tivesse Churchill morrido em 1938 e essa vida provavelmente resumir-se-ia numa palavra: fracasso. Semi-louco, alcoólico, tantas vezes patético, imperialista, com um curriculum militar carregado de desastres, Churchill seria talvez recordado assim mesmo com estas palavras que acabei de usar. Mas, não sendo Churchill, visivelmente, um santo, há na sua vida certos ingredientes das vidas dos santos. Tal como os santos se redimem de um passado pecaminoso comportando-se de forma benfazeja a partir de certa altura, o mesmo parece acontecer com Churchill e a sua obstinação anti-hitleriana de 1940.
Como a história é cruel, esta foi uma santidade ajudada pela vitória : o que diriam a opinião pública e os historiadores de hoje se a Grã-Bretanha tivesse sido derrotada na sequência da insensata decisão de Churchill? Desde logo, o mundo seria certamente diferente daquele em que vivemos. Mas mesmo admitindo que fosse igual, muito provavelmente diriam que essa derrota era previsível e que Churchill não teria passado de uma criatura disparatada que, a juntar aos fracassos anteriores, em 1940 lançara a Grã-Bretanha na mais insana das aventuras.
Mas é por tudo isto que eu acho que o mito sobrevive. Porque só um louco disparatado e insensato como Winston Churchill seria capaz de uma acção equivalente. Nenhuma criatura razoável e ponderada (como Chamberlain, por exemplo) o faria. No mais belo texto sobre Churchill que me foi dado ler, “Mr. Churchill”, de Isaiah Berlin (aqui), diz-se exactamente isto. Poucos políticos seriam capazes de dizerem com absoluta sinceridade que aquele preciso momento de 1940 era “a time when it was equally good to live or die”. Porque aquilo que resiste a todo o revisionismo é uma ideia, a qual, ao juntar-se com os restantes dados biográficos, dá origem a uma vida que se transcende a si mesma. E essa ideia é a ideia de que há momentos em que a rendição é impossível, porque vergonhosa, mesmo se a derrota aparece como mais provável do que a vitória. Momentos em que podemos morrer e sabemo-lo, mas antes isso do que vivermos manchados por uma vergonha intolerável. E isto, a história “objectiva” não “compreende”. A história “objectiva” certamente que “compreende” muito melhor as razões da rendição – afinal as mais sensatas. E quem ler o texto infestado de verrina de Christopher Hitchens ficará com a estranha sensação de que aquilo que ele diz está tudo certo (e nem sempre está: Hitchens toma como correctos erros revisionistas posteriormente desmentidos), mas rigorosamente errado ao mesmo tempo. Porque falta que Hitchens nos explique aquele momento único, que (goste-se ou não) é o momento fundador do mundo no qual vivemos actualmente. É por tudo isto mesmo que o mito de Churchill sobrevive. Porque a verdade é que só aquele homem carregado daqueles defeitos todos poderia feito a última e salvadora insensatez da sua vida. Salvando-se assim a ele, e com ele, salvando-nos a nós.
Quinta-feira, Junho 10, 2004
Ground Control to Major Tom
Em condições normais, a negação da realidade é um problema clínico, podendo mesmo conduzir ao internamento em determinadas instituições hospitalares. Mas, por razões misteriosas, a sociedade exterior aos muros dessas instituições alberga um certo número de indivíduos cuja inteira biografia adulta (admitindo que na pré-adulta a isso tenham escapado) foi gasta na negação da realidade.
Um caso recente, à atenção dos especialistas do ramo, é o de certas reacções à recente resolução da ONU para o Iraque. Parece que, afinal, a assinatura da dita resolução correspondeu a uma grande derrota para os EUA. Ground Control to Major Tom (pi pip), Ground Control to Major Tom: valerá a pena lembrar quem governava o Iraque há cerca de um ano atrás? E valerá a pena lembrar quem removeu quem governava no Iraque há cerca de um ano atrás? A ONU vem agora dar caução à presença militar das tropas estrangeiras e corroborar o calendário que o Presidente Bush anda a anunciar há meio ano. A ONU dá cobertura jurídica à desejável (embora ainda incerta) democratização do Iraque. Quem permitiu que essa democratização possa vir a verificar-se? Como deveria ser evidente a toda a cabeçita funcional, a nova resolução da ONU é um ajustamento de todas as partes que a assinaram a certas perspectivas dos parceiros. Mas convém lembrar de que ponto é que estamos a falar e como foi possível cá chegar. Se tivesse prevalecido a posição inicial dos outros membros do Conselho de Segurança, Saddam Hussein ainda governaria o Iraque por estas horas. É provável que esteja desactualizado e existam agora novos conceitos de vitória e derrota. Alguém é capaz de me ilustrar?
Pelo que termino aconselhando umas leituras, que podem ser terapêuticas para os casos ainda não perdidos, precedendo-as apenas de umas notas: quando se inicia uma guerra não se sabe como ela vai acabar. Quando se inicia uma guerra inicia-se um período de imprevisibilidade e permanente surpresa. Durante uma guerra fazem-se sempre, dos dois lados, muitos erros (uns mais lamentáveis que outros). E é necessário estar sempre a ajustar as nossas acções às acções do inimigo, com o máximo de agilidade possível. Neste momento, no meio dos vários erros e surpresas, um objectivo da coligação que conduziu a guerra no Iraque foi alcançado: remover o antigo mandante. Falta o outro, o mais difícil, mas que era impossível sem êxito no primeiro. Já houve muitos erros, surpresas e ajustamentos. E é provável que continuem a haver. Mas convém manter presentes os objectivos iniciais. Êxito e fracasso têm que ser medidos em relação a eles.
Ah, as leituras! São esta e esta, ambas de John Keegan (um dos melhores historiadores vivos) e ambas lidas no nós e os outros (um blog que prova a possibilidade da quadratura do círculo: afinal é possível ser-se inteligente e ao mesmo tempo apoiar a vitória de Kerry nas eleições americanas de Novembro).
E quem disser o contrário...
...é porque realmente nunca ouviu isto.
Adenda a/c do Sr. Dr. Alberto Gonçalves, para relembrar uma conversa já antiga: onde se mostra quem, depois do JOÃO (todo com maiúsculas, que é como ele é), melhor cantou bossa nesta terrinha.
Quarta-feira, Junho 09, 2004
O mais correcto
Suspender a campanha eleitoral parece, efectivamente, ser o mais correcto sinal de respeito pela morte de Sousa Franco: acaba-se assim com o triste e enfadonho espectáculo que vinha decorrendo já há quase duas semanas.
Terça-feira, Junho 08, 2004
O OBNI
Afinal já ninguém sabe dizer muito bem de onde vem o padeiro, que assim se converte num verdadeiro OBNI (Objecto Batedor Não Identificado). E no entanto, esperem lá... Coloquem-lhe uns óculos (daqueles que não são esquisitos), umas melenas prateadas e deixem-no bater forte. Então? Ainda restam dúvidas sobre a identidade do grande panificador da classe operária e do povo trabalhador? Exactamente: é o Fernando Roswell.
Segunda-feira, Junho 07, 2004
Homo Luso-tropicalis
A sb tratou de esclarecer-me a mim e ao resto da blogosfera que não é um brasileiro a viver em Portugal, mas uma portuguesa a viver no Brasil. Quando as coisas chegam a este estado, colocam-se duas hipóteses: a) estamos perante um caso de alzheimer precoce (a minha); b) estamos perante a realização do sonho de Gylberto Freire para além do seu próprio sonho: a concretização absoluta do homem luso-tropical, nem português nem brasileiro, nem homem nem mulher, nem branco nem preto, nem sequer mulato, uma espécie de ser total, um ente sintetizando todas as características de cá e de lá. Será para aí que nos conduz a Estrada do Coco?
Eça é que é Eça
Entretanto, o Bruno Reis (um jovem e excelente historiador contemporâneo da praça) reagiu àquilo que aqui escrevi sobre o Dia D. O Bruno teria (quase) toda a razão caso tivesse dedicado a sua crítica a um post que, afinal, eu não escrevi. É provável que o problema seja meu, que não me tenha explicado bem. Vamos por partes:
1) Eu não quis dizer que apenas os americanos deram as suas vidas na II Guerra Mundial. É evidente que o esforço de guerra entre 1939 e 1945 não foi exclusivamente americano. É evidente que muitos europeus verteram o seu sangue contra o nazismo. Talvez seja até evidente que os mais heróicos momentos da guerra se deveram à Grã-Bretanha entre Maio de 1940 e Dezembro de 1941, quando permaneceu solitária contra o Eixo (e contra toda a aparente sensatez). Mas resta um contributo americano essencial: o da possibilidade e certeza da vitória. Podemos ser heróicos na nossa resistência determinada e não ter qualquer possibilidade de vencer. O que os EUA trouxeram a partir de 1941 foi, precisamente, essa possibilidade – quase certeza. Por muito heroísmo que muitos europeus tivessem demonstrado até 1941, só com a entrada em cena da máquina militar americana foi possível conceber uma vitória aliada. O Bruno não desconhecerá, certamente, o famoso desabafo de Churchill ao tomar conhecimento do ataque a Pearl Harbor (i.e., no dia da trágica destruição da frota americana do Pacífico): “so we’ve won after all”.
2) É evidente que a cooperação europeia é uma obra europeia feita por europeus. Mas (embora muitos europeus o ignorem ou queiram ignorar) é em larga medida (em larguíssima medida, aliás) também uma obra americana. Começa por ser uma obra americana pelas razões do ponto 1: esta Europa pacífica, democrática e cooperante em que vivemos tem entre as suas fundações aquelas vidas americanas. Para que ela existisse foram muitos os americanos que verteram o seu sangue. É também uma obra americana porque os EUA foram, durante os anos 50, um parceiro directo das negociações que conduziram à criação da EFTA e da CEE. Não só um parceiro directo como muitas vezes o parceiro decisivo para desbloquear negociações emperradas pelos egoísmos nacionais europeus. No actual ambiente reinante de anti-americanismo ignorante, isto pode passar por polémico. Mas não é. É do mais estrito domínio dos factos. Finalmente, é uma obra americana porque os EUA assumiram uma parte desproporcionada da defesa europeia durante toda a guerra fria.
Estava muito longe de mim negar que a actual Europa é obra de europeus: isso seria desafiar a evidência de forma absurda. Mas é importante percebermos que foram os EUA quem, muitas vezes, deram um sentido de unidade a um projecto onde as feridas e rivalidades do passado nem sempre tinham sarado e, o que é mais, chegaram a ameaçar a sua continuidade. Se queres que te diga, muito francamente não ponho as minhas mãos no fogo pela capacidade de entendimento entre os europeus no dia (se ele chegar) em que os EUA decidirem zarpar daqui. Hás-de desculpar-me a graçola fácil, mas… Eça é que é Eça.
Domingo, Junho 06, 2004
Overlord: o dia mais longo do século
Quando o dia 6 de Junho de 1944 nasceu, os jovens americanos, ingleses e canadianos que, embarcados nos LCIs (Landing Craft Infantry), se aproximavam da costa da Normandia, presenciaram um espectáculo tão exaltante como aterrador. Tanto quanto a vista podia alcançar, o mar tinha-se coberto de navios. No céu, o cortejo de aviões esmagava-os com um barulho ensurdecedor. Diante de si, acima da linha das dunas e mais além, o chão rebentava em erupções de pó e fumo, resultantes dos bombardeamentos aéreos. Do outro lado da frente, os jovens alemães que há semanas esperavam o iminente desembarque nas praias que ficaram conhecidas pelos nomes de código Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword, terão ficado ainda mais aterrados com o que viram. Os únicos elementos de fragilidade de que poderiam aperceber-se eram os homens que, carregando o seu equipamento e acabados de desembarcar, lutavam para avançar através da rebentação ou dos obstáculos deixados na praia. Pouco depois, também a praia começaria a explodir, agora sob o impacto do seu próprio tiroteio. Começava assim a operação que recebeu o nome de código Overlord e aquele que Rommel chamou “o dia mais longo do século” – na verdade, o real começo da operação tinha-se dado ainda durante a noite, de forma muito menos espectacular, com o lançamento de tropas aerotransportadas para dentro do território francês. E começava assim, pela França, a libertação da Europa da ocupação nazi.
Foram desembarcados na Normandia cerca de 160.000 soldados. Metade deles do exército dos EUA, a outra distribuindo-se entre britânicos e canadianos. Cerca de 10.000 foram atingidos, 60% dos quais americanos (a maior parte no matadouro de Omaha Beach), 25% britânicos e 10% canadianos. A II Guerra Mundial iria durar mais um ano na Europa e um ano e alguns meses no Pacífico, mas com o desembarque bem sucedido do exército americano na Europa, deixaram de restar dúvidas acerca do resultado final. E o que é mais: finalmente a democracia regressava ao continente, até então submergido pelos totalitarismos nazi e soviético.
Era a segunda vez no século XX que tropas americanas desembarcavam na Europa para resolver querelas europeias – a primeira tinha sido em 1917. Em 1918 os americanos não quiseram assumir a tutela da Europa. Mas em 1945, sim, não fosse necessário desembarcar uma terceira vez para decidir mais um conflito de proporções catastróficas. Assumiram a tutela e obrigaram os europeus a entender-se. O Plano Marshall foi oferecido à Europa sob a condição de os europeus cooperarem. E foi dessa cooperação que nasceu a CEE – que, em última instância, resultaria na actual UE. Os EUA tutelaram todo o processo de criação das primeiras instituições europeias e (mais do que qualquer país europeu) quiseram aqui criar uma federação, se possível à imagem da federação americana. As tropas dos EUA permaneceram na Europa e defenderam-na contra as intenções expansionistas da URSS. Essas tropas constituem, ainda hoje, as verdadeiras Forças Armadas Europeias, sem as quais o continente, neste seu actual formato pacífico e próspero, provavelmente já não existiria.
Um dos mais tristes disparates que hoje em dia se repetem consiste em opor a “civilização europeia” à “civilização (?) americana”, supostamente inferior. Nós seríamos ricos, justos e pacíficos. Os americanos, apenas ricos (e apenas quando brancos). Isto é um disparate, entre outras coisas que demorariam muito tempo a esclarecer, porque a tradição europeia até 1945 é o exacto contrário disso. O que marca a existência do continente europeu até 1945 é a sucessão de guerras, no seu solo e exportadas para fora dele. Se a Europa viveu os últimos 60 anos em paz deve-o aos EUA, que não só obrigaram os europeus a entender-se como se substituíram a eles na sua própria defesa. Coisa que lhes permitiu, adicionalmente, cortar nos desnecessários gastos militares e engrossar os do celebrado welfare state, o tal que os autoriza a considerarem-se mais justos do que o resto do mundo.
Os europeus de hoje não sabem que são filhos da América. Ou melhor, não sabem que as suas presumíveis virtudes são filhas dos presumíveis defeitos da América. E também ainda não perceberam que quando se emanciparem terão de perder muitas dessas presumíveis virtudes e adquirir muitos daqueles presumíveis defeitos. Ou talvez não. Caso em que a Europa deve preparar-se para seguir o caminho de tantas outras notáveis civilizações pretéritas: o cinzeiro da história – na expressão do afamado Trotsky.
Sexta-feira, Junho 04, 2004
Meio do caminho
Quase sem exagero se poderá dizer que o dia 4 de Junho de 1942 (hoje, há sessenta e dois anos) foi aquele em que a civilização ocidental (chamemos-lhe assim, por convenção) terá sido salva da extinção. É fácil perceber porquê, se olharmos para o estado do mundo no dia anterior. No maior país da Europa vigorava desde 1917 um dos mais tenebrosos regimes políticos que a humanidade conheceu, o comunismo soviético. O resto do continente tinha-se entregue a regimes também violentos, embora de signo oposto, tendo um equivalente perfeito no nazismo alemão. A única excepção a este quadro era a Grã-Bretanha. Sozinha na guerra contra a Alemanha desde 1940 (na sequência da trágica débâcle francesa), a Grã-Bretanha esperou um ano e meio pela participação militar da grande democracia americana na II Guerra Mundial. Coisa que aconteceu em Dezembro de 1941, com a destruição da frota do Pacífico estacionada em Pearl Harbor. Os EUA, ao contrário do Japão, não estavam preparados para a guerra em 1941. Com Pearl Harbor atingiu-se o fundo, e ninguém apostaria num futuro de liberdade e democracia no Ocidente.
É nestas trágicas circunstâncias, portanto, que chega o dia 4 de Junho de 1942. Para responder à ocupação, ilha a ilha, que o Japão ia fazendo do Pacífico, os EUA sentiram-se na necessidade de reagir. Em 1942, porém, os EUA não tinham ainda montado a destruidora máquina militar que desembarcaria na Europa dois anos depois. Em consequência, todas as suas acções militares no Pacífico se revelaram inócuas. Pronto a resolver o incómodo com rapidez, o Japão decide responder em força, enviando a sua frota para um combate decisivo. O qual efectivamente ocorreu naquele dia e ficou conhecido como Batalha de Midway (do nome da ilha a meio caminho entre a América e a Ásia).
Os americanos tinham à sua disposição um número de navios que era menos de metade do japonês. Também a qualidade do material era infinitamente inferior do seu lado. Entre porta-aviões, restantes navios e aviões, o material japonês era o estado-da-arte do combate marítimo e aéreo. Contra as modernas embarcações japonesas, os EUA tinham para oferecer navios reparados muitas vezes à pressa, ou requisitados do Atlântico, já afectados por combates. Contra os famosos Zero (talvez os melhores aviões de combate da II Guerra Mundial), a resposta americana era uma variedade de aviões obsoletos e lentos. Nas palavras de um oficial americano da época, a Batalha de Midway seria sempre um “desperate affair”. Do lado japonês, a confiança não tinha medida, raiando a arrogância.
A batalha começou com o ridículo ataque à frota japonesa dos ridículos Devastators comandados por Jack Waldron. Este ataque foi tão ridículo quanto crucial para o desfecho do confronto. Todos os homens que montaram naqueles aviões sabiam que iam morrer, fosse porque seriam atingidos, fosse porque não teriam combustível para regressar ao porta-aviões de origem. Naquele tempo, o combate aéreo não era feito com armas teleguiadas, lançadas de milhares de pés de altitude. Um ataque aéreo de precisão obrigava os aviões a aproximar-se tanto quanto possível do alvo inimigo para, enfrentando a resposta das baterias anti-aéreas, terem a certeza de o atingir. Os Devastators eram de uma lentidão exasperante. Na sua aproximação à frota japonesa, vários foram abatidos pelas defesas anti-aéreas, outros pelos Zeros que levantaram. Os poucos que conseguiram largar as suas bombas falharam totalmente os alvos – e nenhum conseguiu, efectivamente, regressar. Nos decks dos navios japoneses, pilotos e marinheiros abanavam a cabeça, sorrindo do amadorismo da acção. Mas ela foi suficiente para manter ocupado um certo número de aviões japoneses, que foram então obrigados a pousar para reabastecimento de combustível e munições. A acção da esquadrilha de Waldron havia encoberto um perigo desconhecido para os japoneses: a esquadrilha de bombardeiros de mergulho (dive bombers) sortidos comandada por Wade McClusky, que os sobrevoava fora do alcance da visão, acima do nível das nuvens. A situação mais frágil para um porta-aviões ocorre quando os seus aviões necessitam de reabastecimento – é então que o deck se enche de munições e combustível, altamente inflamáveis. Pois foi nesse estado que McClusky encontrou a frota japonesa na manhã de 4 de Junho, às 10.22. E foi a essa hora que os 36 aviões por si comandados iniciaram um vôo picado sobre os porta-aviões japoneses. Não é difícil imaginar a excitação, num misto de terror e euforia, que estes pilotos sentiram ao lançar os seus aparelhos em direcção ao mar a uma velocidade de cerca de 600 Km por hora – terror pela possibilidade de morrerem, euforia por estarem conscientes do carácter decisivo da sua acção. Nove aviões conseguiram atravessar o nevoeiro mortal dos projectéis anti-aéreos. Em cerca de 5 minutos, destruíram três dos mais importantes porta-aviões da frota japonesa, abrindo assim caminho à vitória final americana.
Midway foi a primeira grande vitória das democracias na II Guerra Mundial, e uma vitória tanto mais exaltante quanto obtida em condições terríveis. Claro que, já antes, a resistência britânica tinha sido crucial. Mas tratara-se sempre de uma resistência desesperada, defensiva. Se a Batalha de Midway tivesse sido perdida pelos EUA o nosso mundo seria, com toda a probabilidade, completamente diferente daquele que conhecemos. Mas em cinco minutos, o Ocidente, pela mão de nove pilotos da Força Aérea americana, começava a subir a parede do poço fundo em que tinha caído havia já muito tempo. Era apenas o começo. Nem sequer era o meio do caminho.
(Adenda: agradeço ao leitor Miguel Henriques uma pequena correcção)
The Charm of the Highway Strip
I was young, then not so young
Scary either way
One more rung down that black ladder
Every day
One more floor down the elevator
To oblivion -
What fun -
But the singularly awful one
Is being born
Stephin Merritt, "I was Born", in The Magnetic Fields, i.
Quarta-feira, Junho 02, 2004
Nietzsche, Maquiavel e o padeiro
Relembrei há uns dias atrás uma famosa passagem de Nietzsche, na qual, ao estabelecer uma possível similitude entre a verdade e a mulher, ele diminui os esforços da filosofia. Para o célebre nihilista, se os filósofos tivessem tanto talento para alcançar a verdade quanto o normalmente demonstrado para alcançar uma mulher, a verdade fugir-lhes-ia como o diabo foge da cruz.
Tentarei secundar Nietzsche, oferecendo material empírico que ajuda a comprovar a sua asserção. Leia-se esta passagem d'O Príncipe , de Nicolau Maquiavel (tradução caseira):
"a sorte é mutável, enquanto os homens são obstinados nos seus procedimentos, [e portanto] os homens prosperam quando sorte e política estão de acordo, falhando quando elas colidem. Eu acredito sinceramente no seguinte: que é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é uma mulher, e para ela ser submissa é necessário derrotá-la e coagi-la. [...] Sendo uma mulher, ela entrega-se mais facilmente aos homens jovens, porque eles são menos circunspectos e mais ardentes, e porque a dirigem com maior audácia".
Não admira, repito, não admira que o mundo esteja como esteja. Se isto é das melhores coisinhas que um dos maiores vultos intelectuais da humanidade tem para oferecer, então tudo se explica.
Meu caro Nicolau: as suas ideias são prejudicadas pela sua percepção dos desejos da mulher, e a sua percepção dos desejos da mulher parece-me profundamente errada. Afinal, toda a gente sabe que elas gostam é de quem lhes bate forte.
Terça-feira, Junho 01, 2004
Momento Betty Ford
São já incontáveis os telefonemas, as cartas, as mensagens de e-mail perguntando-me sobre o sucesso do programa de desintoxicação. Calma, rapaziada. Eu estou bem. Juro. Estou bem. Não passei sequer pela fase peru frio (do inglês, cold turkey). Vejo o meu dealer todos os dias e nem sequer sinto a tentação. Tive apenas uma pequena recaída no dia 12 de Março, perfeitamente compreensível, dada a gravidade do momento. Quanto ao mais, é verdade: são já três meses sem ler o Público e quatro sem ler o Expresso.
Segunda-feira, Maio 31, 2004
Seiscentas Folhas
E porque blog também é cultura, a cultura também por aqui Acontece. Podíamos falar de África, Mãe África, Balatucá, Balatuqué, Balutuqui, Balatucó, Balatu..., África, Mãe África, cores cálidas, corpos sensuais, Cultura, Balatucultura, tanta coisa, poesia Acontece, Acontece poesia... Mas não. Falamos apenas de um livro, recomendado pelo Ricardo Dias de Sousa, que chegou a fazer parte da equipa d'O Comprometido espectador que cobriu o 11 de Março. A recomendação foi sugerida ao Ricardo pela leitura do post anterior:
Acabo de ler este post sobre a vida de Brian e
Bruce e imediatamente me lembrei de um livro que li recentemente:
Middlesex, de Jeffrey Eugenides. A história de três geraçöes de uma familia de origem grega que emigra para os Estados Unidos no início da
década de 20 contada por Callie/Cal Stephanides, um hemafrodita que
nasceu duas vezes, primeiro como Caliope em 1960 e depois como Cal
catorze anos mais tarde. Como estou fora do país näo faço a miníma ideia
se o livro tem sido divulgado em Portugal mas como ainda näo vi nada
sobre o assunto na blogosfera atrevo-me a dizer que, se sim, foi de
forma insuficiente. Aproveito para te falar dele porque o médico que
examina Callie tem a mesma teoria sobre o sexo que este John Money e
mais näo conto porque iria estragar o final do livro, mas, em tempo de
Feira do Livro, näo deixo de recomenda-lo a quem tenha paciencia para as
mais de 600 páginas.
A Vida de Brian e Bruce
A 22 de Agosto de 1965, em Winnipeg, Canadá, nasceram dois irmãos gémeos, Bruce e Brian Reimer. Os pais foram aconselhados pelo médico de família a circuncidar os filhos, quando ambos tinham sete meses de idade. A operação teve lugar num dos hospitais da cidade e correu bem a Brian, mas horrivelmente mal a Bruce. O instrumento utilizado queimou o pénis de Bruce, de tal forma que o órgão sexual caíu do seu corpo. Sem saberem como resolver a situação, os pais acabaram por tomar conhecimento da existência de um médico de Baltimore, John Money, que propunha uma teoria segundo a qual a determinação do sexo dos humanos não seria genética, mas ambiental. Uma criança do sexo masculino, por exemplo, a quem fosse amputado o pénis nos primeiros meses de vida e fosse educada como uma rapariga transformar-se-ia espontaneamente numa rapariga. Para além do interesse científico da experiência, Money pretendia provar um determinado ponto então sugerido por certos movimentos feministas: o de que não havia qualquer determinação genética na formação sexual dos indivíduos. Homens e mulheres seriam rigorosamente iguais, capazes não só de desempenharem as mesmas tarefas com idêntica eficiência, como também de trocar de papéis por força da educação – com uma pequena ajuda cirúrgica. Os pais de Bruce decidiram-se a seguir o programa proposto por Money. Bruce passou a chamar-se Brenda e foi educado como uma rapariga, sempre sem saber que tinha nascido rapaz. Ao que parece, logo aos dois anos Brenda/Bruce começou a reagir mal ao facto de a mãe vesti-la como uma menina. E ao longo de toda a sua vida de criança e adolescente, Brenda/Bruce foi ostracizada na escola tanto por rapazes como por raparigas. Entretanto, em complemento à sua educação fictícia, Brenda/Bruce seguiu o programa psicológico oferecido por Money. Segundo alguns relatos, o programa chegou a incluir violência sexual (em sessões onde estavam presentes os seus pais e o irmão gémeo Brian), de maneira a que Brenda/Bruce pudesse sentir o mesmo tipo de fragilidade sexual supostamente sentida pelas mulheres. Aos nove anos Brenda/Bruce teve o seu primeiro esgotamento nervoso. E até aos catorze anos tentou o suicídio pelo menos uma vez. Money baptizou a experiência “John/Joan Study” e considerava-a um sucesso. A imprensa da época também. A Time chegou a dizer que ela “provides strong support for a major contention of women’s liberationists: that conventional patterns on masculine and feminine behaviour can be altered”. Finalmente, em 1980, o pai de Brenda/Bruce, quando esta tinha catorze anos, decidiu contar-lhe que afinal ela nascera um menino. Brenda/Bruce adoptou o nome de David, reconstruiu o seu pénis (com a ajuda de outra cirurgia) e tentou reconstruir a sua vida. Aos 23 anos casou, mas o episódio não foi duradouro. Em 2002, o irmão Brian morreu com uma overdose. A 4 de Maio passado, David/Brenda/Bruce, com 38 anos de idade, suicidou-se. O médico John Money continua a ensinar na Universidade de Johns Hopkins em Baltimore.
Respect
If yous ain't checked da Ali G show on telly, yous don't know wot yous is not checkin. It's simply da wickedest and bestest comedy show since da geeza put is bloody foots on da moon. Yous know wot I do? Every bloody monday I just sit in front of da well telly wiv me pals and me crew, tune it to SIC Radical at 9 pm, have a bit of erbal remedy, and just dig da well show. Why don't yous do da same, yous batty holes? Respect.
Sexta-feira, Maio 28, 2004
A verdade a que tenho direito
Friedrich Nietzsche começa Para Além do Bem e do Mal com uma experiência mental: suponhamos que a verdade é uma mulher. Nesse caso, não seria bem fundada a ideia de que a generalidade dos filósofos, por regra ineptos na aproximação às mulheres, revelariam a mesma incapacidade na aproximação à verdade? A mesma trapalhice convencida, normalmente aplicada por si no flirt , estaria afinal presente em tomos e tomos de filosofia.
É muito possível que o genial filósofo alemão tenha dito a verdade. O que confirma algo que sempre pensei: afinal Arnold Schwarzenegger e as suas incríveis patorras em cima de uma dúzia de mulheres, ou ZéZé Camarinhas e as 1000 e tal mulheres que já conseguiu levar à cama estão mais próximos da verdade do que eu, as minhas patorras e os 1000 e tal livros que fui conseguindo levar à cama ao longo da vida.
Pura Goiaba
A leitora Ana Cristina Moreira, apreciadora do Kibe Loco, chama-me a atenção para outro blog brasileiro muito divertido - a Ana acha-o (nem mais, nem menos) "genial" -, o Pura Goiaba.
Quinta-feira, Maio 27, 2004
E Tinh'razão
O António Aly Silva, autor do Ditadura do Consenso, queixou-se-me, por não desempenhar bem a recente tarefa de promotor de BLOGOPS. E tinh'razão, como dizia o Alexandre O'Neill. E por isso cá vão dois links, para compensar.
Lul'Au Vin
Volto a fazer um link para o Ma-Schamba, porque lhe devo a descoberta do Estrada de Coco (que me parece ser de um brasileiro a viver em Portugal), mas sobretudo a deste fantástico blog brasileiro, o Kibe Loco - toca a pôr nos favorites, já.
419 Scam
Jorge Camões, do Ser Português (Ter Que), envia-me uma mensagem com alguns subsídios para a compreensão dos scams da Nigéria:
Esta história já se perde nas brumas da memória da Internet, e é genericamente conhecida por 419 scam (o 419 é o artigo do código penal nigeriano aplicável). Há uma história hilariante em http://www.savannahsays.com/kizombe.htm de uma jornalista que resolveu responder.
Em http://www.scamorama.com/ há uma lista de variantes, incluindo uma mensagem da viúva de Savimbi: http://www.scamorama.com/savimbi_8d.html
Em http://www.theregister.co.uk pesquise "419 Nigeria scam". Eles divertem-se imenso com a coisa. Têm um concurso de mensagens escritas com haikus, uma mensagem do Bush, e vendem t-shirts ("my money went to Nigeria and all I got was this lousy t-shirt").
http://www.theregister.co.uk/2002/10/22/ghostly_419_the_scam/
http://www.theregister.co.uk/2003/01/27/beware_new_nigerian_bush_spam/
http://www.theregister.co.uk/2004/02/17/urgently_seeking_419_haiku/
Aparentemente, a coisa começou realmente na Nigéria, mas internacionalizou-se.
Quarta-feira, Maio 26, 2004
O Comprometido Espectador goes transatlantic
Ainda a respeito de Che Guevara, Os Diários de Motocicleta e Walther Salles, do Brasil escreve Marcos de Escobar, relatando aspectos da vida de Salles para mim desconhecidos (desculpem ao Marcos a falta de acentos):
Tomo a liberdade de acrescentar alguns dados sobre o director de cinema Walther Salles.
Para ja refira-se que o talentoso artista recusa-se a usar o apelido completo: Moreira Salles, usado pelos seus tres irmaos. O cineasta e filho do finado banqueiro Walther Moreira Salles -- homem de grande inteligencia, cultura, elegancia e brilhante empreendedor. A partir de uma pequena casa bancaria de uma unica agencia, Moreira Salles (ex-ministro das financas, ex-embaixador nos EUA) construiu um gigantesco banco -- um dos tres maiores grupos financeiros do Brasil. Mas Walther (Moreira) Salles, cineasta e banqueiro (ou sera banqueiro e cineasta?) prefere gastar o tempo na companhia da estupidentzia brasileraloide, a fazer tudo para dar a imagem do filho rebelde que sempre preferiu estar do lado do "povo" e nao ao lado do papai bilionario (e banqueiro ainda por cima!). A verdade nua e crua e que o rapaz, nascido em berco doirado, continuou pela vida a viver a grande e a francesa gracas -- exclusivamente -- a fortuna do papa. Termino aqui com uma expressao de alivio (para Walthinho, e claro...): que sorte o rapaz nao ter nascido na ilha caribenha gerida pelo famigerado Che-da-T-shirt. Banqueiro? Teria sido devidamente fuzilado no paredon -- com guevarissima "ternura", ja se ve.
Desculpem, mas não dou baldwins
Entretanto, peço, precisamente, a esta comunidade de africanos e conhecedores africanos que me ajudem num problema. Começo por reproduzir a mensagem que me caíu na caixa do correio há uns dias atrás (desculpem o inglês do rapaz, mas pelo contexto percebe-se que ele anda um pouco nervoso):
I SINCERELY APPOLOGISE FOR THIS UNEXPECTED URGENT PROPOSAL I AM BALDWIN
TAYLOR A BROTHER TO CHARLES TAYLOR THE FORMER PRESIDENT OF LIBERIA,WHO IS
PRESENTLY ON A POLITICAL ASSYLUM IN NIGERIA.BECAUSE OF HIS DEEPENING
PREDICAMENT,HE
SENT ME TO ACCRA,GHANA WITH THE DOCUMENTS THAT WILL ENABLE ME WITHDRAW THE
CRATE OF MONEY HE DEPOSITED WITH A SECURITY COMPANY AS PERSONAL
EFFECTS IN 2002. I WAS TO WITHDRAW THIS CASH AND SHIP IT TO HIM IN
NIGERIA,THROUGH
DIPLOMATIC COURRIER SERVICE.BUT I HAD
DIVERTED THE SHIPMENT TO SPAIN THROUGH THE SAME MEANS.AND TO MY INSTRUCTION
THE DIPLOMAT HAD DEPOSITEDTHE CASH OF $37,000,000USD WITH A BANK CALLED,BANCO
SANTANDER CENTRAL HISPANO FOR ONWARD TRANSFER. MY REASON OF CONTACTING YOU
IS FOR YOU TO ASSIST IN
PROVIDING THE ACCOUNT WHERE THIS MONEY CAN BE TRANSFERED INTO.AND AS SOON
AS THE MONEY GETS TO YOUR ACCOUNT,I WILL GIVE FORTHER INSTRUCTIONS ABOUT
THE DISBURSMENT.FOR YOUR ASSISTANCE,I WILL GIVE YOU 30% OF THE TOTAL SUM.PLEASE
IF YOU ARE WILLING AND READY TO HELP,KINDLY RESPOND TO THIS MAIL ASAP SO
THAT I CAN
GIVE YOU MORE INFORMATIONS ON HOW THIS CAN BE ACTUALISED. PLEASE I WANT
YOU TO KNOW THAT THIS TRANSACTION REQUIRES AN URGENT ATTENTION SO THAT IT
CAN BE CONCLUDED IN THE SHORTEST
POSSIBLE TIME AND BEFORE MY BROTHER CHARLES TAYLOR TRACKS ME DOWN IN MY
HIDEOUT. THANKS FOR THE ANTICIPATED COOPERATION.
Bem... Espera lá... Charles Taylor não é aquele tipo que torturou não-sei-quantos liberianos enquanto foi por lá presidente? Que matou em números idênticos? Que fomentou e enviou crianças para combater na guerra civil da Serra Leoa?
É assim como se, de repente, caísse aqui na caixa do correio a seguinte mensagem:
Pesso imença desculpa pelo incómodo, eu sou Franz Hitler, o irmão desconhecido de Adolf Hitler, o antigo chanceler da Alemanha, que está agora em assilu pulitico em Vila Nova da Barquinha (disem que ele morreu no banquer de Brelim, mas é mentira). A çituassâo dele não é boa e por eça rrasão me pediu para levantar o monte de dinheiru que tinha numa conta do Crédito Predial Português. Eu levantei o dinheiro, mas não lho mandei-lhe. E agora um diplomata abrio uma conta na Caixa de Crédito Agrícola para faser umas trasnferências e eu preciso do número da sua conta...
E por aí fora...
A ajuda que quero é a seguinte: porque é que este esquema, como todas as dezenas de esquemas deste género que vão caíndo na minha caixa de correio, têm origem na Nigéria? Não estou a brincar. É uma coisa que me intriga mesmo.
E, já agora, eles não conseguem arranjar umas histórias menos rocambolescas?
BLOGOPS
Há uns dias atrás, este rapaz fez um link para aqui. Fui lá ver e, de link em link dos que ele lá disponibiliza, acabei por descobrir uma pequena comunidade de BLOGOPS (Blogs de Língua Oficial Portuguesa), como por exemplo, este, este e mais este (de um português em África - excelente, excelente diário). Algumas das vozes mais interessantes no panorama dos media portugueses encontram-se na blogosfera. Pois o mesmo me pareceu passar-se neste caso. O tom destes blogs não tem nada que ver com o oficialismo grotesco da RTP África. Mas também está muito longe do vitimismo que tem sido a infeliz marca de muito do discurso imigrante ou do discurso africano para consumo europeu. Os olhares destes bloggers sobre África (e, já agora, sobre Portugal) são inteligentes, irónicos e críticos (ou até laudatórios), sem serem panfletários. Mais uma lição da blogosfera.
As segundas coisas segundo
O Carlos Alberto Amorim, ex-Mata-Mouros (vamos lá a matá-los bem mortos hoje à noite, hã!) e corrente Blasfemo, decidiu agraciar-me com dois-prémios-dois (entre os quais o de melhor blog da semana passada), numa nova tribuna sobre blogs. A tribuna está instalada numa publicação que se dedica a apoiar o partido liderado pelo Dr. Manuel Monteiro. Eis o que mostra grande desportivismo da parte do CAA, dadas algumas graçolas a puxar para o chocarreiro que já aqui fiz com o dito Dr. e o seu partido.
Manda a cortesia que lhe agradeça, mesmo se isso implica fazer um pouco de propaganda política. E já agora boa sorte nessa tarefa inglória (a de apoiar o Dr. Monteiro, não a de classificar blogs). E com esta piadola acabo de perder o prémio de melhor blog da próxima semana.
As primeiras coisas primeiro
Com um dia de atraso, muitos parabéns ao JCD pelo primeiro aniversário do excelente Jaquinzinhos.
Segunda-feira, Maio 24, 2004
Ensaio sobre a Logorreia
Esperava Bulimicunda compreender a razão de estar aquele ramo, verde e crespo, que os ramos de oliveira o são, dada a impolidez da espécie, mesmo até quando fincada em solo úbere, tão vergado ao peso do ninho de tordo. Baltajar, sabido como poucos o são, ardiloso mancebo, não na significância militar, mas na abstracta e genérica, que é dessa que agora curamos, porque as denúncias ao sistema castrense podem custar caro, sabia interpretar a torção a que se sujeitava o vegetal lenhoso. Era em sofreguidão que Bulimicunda pedia, Baltajar, dir-me-ás tu a que se deve a inflexão do braço arbóreo, pois tordos não são carrego que baste para causar semelhante conclusão, ao que Baltajar, paciente na sageza, Mas, Bulimicunda, não compreenderás tu que sempre erradamente nos ministraram os preceitos d’O Livro, e que o Espírito Santo não é pomba não, que as pombas são entes soberbos, e que o último elo da Trindade é apenas vernáculo tordo, que não o Fernando, mais versado em lides taurinas e menos em saberes ornitológicos, que é como a zoologia denomina o conhecimento da passarada. Bulimicunda, sempre assombrada pelos dotes que seu afeiçoado detinha, abrangia enfim o engodo em que a hierarquia sacerdotal a fizera incorrer desde o berço, esse leito que para muitos é dourado, embora para outros pouco mais não seja que um feixe de palha, caso em que se revelam qualidades da espécie superiores, porque deles virá a salvação.
Observavam Bulimicunda e Baltajar a árvore na margem, por detrás de Joana Parva, que conduzia a jangada de pedra com a mestria legada a poucos, mesmo quando peritos no trato marítimo-fluvial, esse excelente ofício donde resultou a ímpar expansão, em nome da qual lusos marujos trucidaram aqueles a quem chamavam infiéis, mas isso não eram, porque infiel é o obeso dignitário que do topo põe e dispõe, mas já é tempo de pôr termo a tais ofensas à justiça.
Colocavam-se a Joana Parva, com firmeza escorada no leme, duas alternativas, não mais, porque mais não havia, e duas até já eram demais, e apenas uma seria a ideal, como em Platão, o mestre do ideal, que sempre compreendeu a diferença entre conceito e objecto concreto, mas isto já é rebuscar de sobejo para a singeleza dos desmandos dos navegantes que ora seguimos. Quando a Bulimicunda lhe foi colocada a alternativa, não no sentido do Fernando, que é táureo e próprio de tardes soalheiras, Bulimicunda, com escândalo dos camaradas, proferiu, Eu voto em branco. Na embarcação se gerou tremendo impasse, ignaros os nautas sobre o destino a conferir à rochsosa nave que cavalgavam, porque nem só os cavalos o merecem.
Foi este o instante em que do firmamento brotou um semblante ornado de longas cãs e crivado de próteses oculares, que é aproveitar enquanto existe segurança social, À Esquerda! À Esquerda! À Esquerda e salvai-vos, que sedes jovens e dos jovens virá um cosmos asseado e bom, Mas quem és tu, inquiriu Joana Parva, de nome e por causa da imprópria aparição, Sou o Zé, o Zé das Vírgulas, pois polvilho meu verbo com vírgulas, para interpor ideias em associação livre, como no caso daqueles autores que fizeram novidade e estrondo ao raiar a transacta centúria, O Zé, se espantou Baltajar, Sim, respondeu o senhor das cãs, o Zé, o Zé dos Sinónimos, que tenho lá em casa grosso tomo de apelido Dicionário de Sinónimos, o cujo consulto a cada três conjuntos de caracteres, a quem por vezes chamam “palavra”, palavra de honra, pois quero mostrar minha sabedoria em palavras, palavras de honra, O Zé, falou Bulimicunda embasbacada, Sim, o Zé, o Zé das perífrases, pois que muitas uso, e aconselho, pois para quê dizer “ave” quando se pode dizer “vertebrado ovíparo dotado de asas”, Mas eu vejo teu interior, anunciou Bulimicunda, e teu interior é prenhe de temas imortais, ao que o dono das próteses oculares respondeu, E imortais são, pois gigantescos são os conceitos de minha Palavra, palavra de honra, e não fora assim e não me teriam conferido aquele galardão que só aos melhores conferem, e por isso Borges o não cheirou e Agustina para sempre ficará a ver jangadas.
Pétanque pour Colombine
Caro José Mário: Cannes e Michael Moore? Eis uma coisa sobre a qual não tenho nada para dizer. É como no caso do Sudão e da ONU há uns dias atrás. I rest my case.
Sexta-feira, Maio 21, 2004
O Homem das T-Shirts
O homem das t-shirts do título deste post não é o homem que monta uma banca e vende t-shirts ali ao Martim Moniz, em Lisboa. O homem das t-shirts é o homem que aparece nas t-shirts de qualquer jovem universitário sofisticado, consciente e progressista que se preze. Lá onde também aparecem Kurt Cobain ou os Strokes, aparece ele, Ernesto “Che” Guevara. De cada vez que tropeço em mais uma t-shirt do “Che” coloco duas alternativas: uma, eles não sabem realmente quem foi aquele homem, para além de umas trivialidades semi-propagandísticas; outra, eles sabem e não têem vergonha. Como mantenho uma perspectiva optimista sobre a natureza humana, tendo a acreditar na primeira.
Isto não é um ensaio sobre a revolução cubana e, portanto, não vale a pena estar aqui a analisá-la. Mesmo assim, talvez seja interessante notar como ainda hoje se ouve da boca de conhecidos intelectuais o velho bordão de que a revolução cubana representou então “uma esperança”, que a partir de certa altura teria sido traída. Não representou esperança nenhuma, a não ser para a deliquescência intelectual típica de algumas pessoas no ocidente à época. Como todas as outras experiências socialistas ou comunistas, também ela trouxe o proverbial cortejo de violências sistemáticas. Não sendo a Cuba de Batista um país exactamente recomendável (também o czarismo russo o não era), era uma das nações mais ricas da América Latina e uma das que mais elevados índices educacionais tinha (a sua taxa de analfabetismo era, em 1958, de 22% - embora a propaganda revolucionária afirme que era de 50%; para termos uma noção comparada, a taxa de analfabetismo em Portugal à época era de 32%). Hoje Cuba é um dos mais pobres países da região. Tem, para além disso, no seu passivo um número de execuções que rondará os 20.000 desde 1959.
Já ao tempo da insurreição, na Sierra Maestra, o Che se tinha destacado pelos acessos de violência que o levavam a agredir e mesmo matar alguns dos seus companheiros a sangue-frio. Depois de os revoltosos entrarem em Havana, coube ao Che o papel de avaliar processos de prisioneiros. Na Fortaleza de la Cabaña, onde desempenhou a sua actividade, decidiu a sorte de milhares de prisioneiros. Pela sua mão foram mandados executar, na base de vagas acusações de natureza ideológica, um número de indivíduos de que se desconhece o número exacto, mas que oscilam entre os 600 e os 2000 apenas nos primeiros anos do novo regime. Cabe ao Che o privilégio de ter montado o primeiro dos muitos campos de reeducação no país, instalado confessadamente a exemplo do gulag soviético.
Quem conheça algumas das suas declarações não ficará surpreendido. Era Che quem louvava o “ódio eficaz que faz do homem uma eficaz, violenta, selectiva e fria máquina de matar”. Era também ele quem, ainda em 1952, antes de se transformar num dos mais célebres revolucionários de todos os tempos, escrevia no seu diário de viagem pela América Latina, Diários da Motocicleta, o seguinte: no momento em que a humanidade fosse dividida “em apenas duas fracções antagónicas, estarei com o povo, e (...), uivando como um possesso, assaltarei as barricadas e trincheiras, tinjirei a minha arma de sangue e, louco de fúria, degolarei todos os vencidos que caiam nas minhas mãos. (...) Já sinto as minhas narinas dilatadas, saboreando o odor acre de pólvora e sangue, de morte inimiga”. Walter Salles apresenta por estes dias em Cannes um filme (produzido por Robert Reford) baseado nestes diários, mas não vamos certamente ver nele uma sequência inspirada por esta sentrença, ao estilo da célebre deixa de Robert Duvall em Apocalypse Now: “I love the smell of napalm in the morning”.
No fundo, no fundo, o Che está bem nas t-shirts dos meninos burgueses e tontos das universidades ocidentais. Afinal ele próprio era isso mesmo, um menino burguês argentino, que colou com cuspo umas leituras de marxismo em segunda mão. Um idiota a quem deram responsabilidades e meios para gerar catástrofes. E a quem a posteridade concedeu a sorte de um dia alguém lhe ter feito aquela fotografia.
(Adenda: grato ao Rui, do Superflumina, por uma correcção)
Quarta-feira, Maio 19, 2004
A persistência da memória
Diz-se que os homens aprendem com os seus erros. Uma acção infeliz ou conducente a resultados infelizes, levá-los-ia a ajustarem o seu comportamento de forma a não repetirem o equívoco. De cada vez que ouço esta trivialidade lembro-me de duas histórias, do mesmo autor. O autor é o escritor argentino Jorge Luís Borges e a primeira história chama-se “Pierre Menard, autor do Quixote”. Menard escreve em 1918 fragmentos do D. Quixote (queria escrevê-lo todo, mas não teve tempo). Não uma versão contemporânea do D. Quixote, mas O D.Quixote. Sem o apoio de notas ou outro instrumento mnemónico, Menard escreve três capítulos da obra. Um deles é idêntico, em termos literais, ao de Cervantes. Isto é, 416 anos depois, Menard escreve exactamente a mesma coisa que o castelhano, sem que o tenha copiado. O narrador do conto considera a obra de Menard em certos momentos superior à de Cervantes. O que é estranho, repetindo o texto verbalmente o primeiro. Mas explica o narrador que, exactamente por ser uma repetição literal, o segundo texto adquire um significado completamente novo. Escrever palavra a palavra o mesmo texto não tem o mesmo significado em 1918 e em 1602.
A segunda história chama-se “Funes, o memorioso”. Ireneo Funes é um homem paralisado (primeiro apenas mentalmente, depois mesmo fisicamente, sendo por isso levado à morte precoce) pela memória. Funes não consegue esquecer. A sua mente é uma acumulação de detalhes de eventos passados. Invadido pela persistência da memória, Funes não consegue pensar e não consegue agir, porque é incapaz de abstracção, incapaz do esquecimento necessário para pensar, do esquecimento necessário para acreditar que está perante certa situação pela primeira vez. Ireneo Funes, a partir de determinada idade, nunca enfrenta situações novas. Funes não só já lá esteve (todos nós já lá estivemos) mas, o que é mais, lembra-se. Por isso conhece as consequências, e não age.
A verdade é que é mentira que aprendamos com os erros. Pelo contrário, fazemos sempre os mesmos erros, mas de cada vez que os fazemos eles deixam de ser os mesmos. Repetir um erro é, afinal, cometer um erro completamente diferente. Todos nós que vamos sobrevivendo somos Menards, replicando, sem saber, palavra por palavra Cervantes. Fôssemos Funes e, por incapacidade de repetição do erro, permaneceríamos imóveis. Fosse eu Funes e não escreveria estas linhas. Estou certo de estar a repetir o texto de alguém, escrito há muito tempo atrás. Mas felizmente não me lembro. E vocês também não.
Beyond a reasonable doubt
Com o intuito de provocar a limpeza étnica dos negros da região de Darfur, o governo sudanês (controlado por árabes) enviou para aquela região ocidental do país os janjaweed, uma milícia montada, tradicionalmente usada contra os cristãos do sul. Aos janjaweed existentes juntou desde há um ano atrás criminosos de delito comum, libertados da cadeia de propósito para este fim, os ta’ibeen (palavra que quer dizer, “aqueles que se arrependeram”). A estes deu cavalos, armas e uns dólares, e mão-livre para reprimir os habitantes de Darfur. Desde Fevereiro do ano passado que Janjaweed e ta’ibeen vão lançando raides sobre as aldeias da região, queimando, destruindo, matando e violando os seus residentes. Estima-se que cerca de um milhão de pessoas tenham sido deslocadas em resultado destas acções (a história pode ser lida aqui – só para assinantes – e aqui – para o vulgar cidadão).
A semana passada, o Sudão foi eleito pelos países africanos, por aclamação, membro da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Já aqui disse em momentos anteriores muita coisa sobre a inutilidade da organização e mesmo o seu carácter desprezível. Também já disse algumas coisas sobre as lideranças de muitos países africanos. Depois desta história, não digo mais nada. I rest my case.
Segunda-feira, Maio 17, 2004
O senhor Bronstein do Café Central
Existe hoje em Portugal um partido que está representado na Assembleia da República e que se reclama das ideias (juro!) de Trotsky. Vasco Rato já há uns dias atrás disse umas coisas sobre Trotsky a merecer consulta (aqui e aqui). Ajunto aqui apenas mais umas notas, sem pretensões a grande coisa.
Uma das mais extraordinárias ficções que comunistas, ex-comunistas e outras espécies sortidas por lá próximas continuam a alimentar é a de que a experiência soviética seria uma coisa maravilhosa não fora terem-se dado alguns acidentes de percurso, o maior dos quais seria Estaline (gosto da ideia de chamar “acidente de percurso” a Estaline). No fundo, desde 1917 que tudo corria bem, mas de repente começou tudo a correr mal. Não vale a pena explicar o que toda a gente sabe (e se não sabe é porque não quer saber): a violência política sobre os opositores do projecto comunista e a violência fratricida entre proponentes do projecto comunista foi uma constante desde o início da história. Não se trata de umas quezílias de bairro ou sequer de programas de encarceramento à Latino-americana. Trata-se da violência permanente, sistemática, cruel e, o que é mais importante, sem complexos, porque justificada pela grandeza da causa. Era Trotsky quem dizia: “independentemente das circunstâncias da minha morte, morrerei com uma fé inquebrantável no futuro do comunismo. (…) Esta fé (…) dá-me um poder de resistência que nenhuma religião daria”. Quem quiser ilustrar-se sobre esta componente violenta da instalação do comunismo na Rússia, tem aqui apenas algumas referências bibliográficas (for starters, pode ser esta, esta, esta e esta).
Trotsky foi, precisamente, um dos grandes praticantes (e depois vítima) dessa violência. Trotsky é, juntamente com Lenine, o inventor do moderno campo de concentração. Não, evidentemente, apenas do nome (embora ele seja o primeiro a usá-lo). Afinal, podia chamar-se campo de concentração e dedicar-se à prática do amor livre e da recreação desportiva. Trotsky fez a primeira menção a essa instituição em 1918, quando mandou encarcerar uma legião de soldados checoslovacos revoltados (mas que tinham ido em ajuda da revolução durante a guerra civil) em “campos de concentração”. Desde esta menção, os ditos campos não deixaram de aumentar em número. Muita gente não sabe que foram estes primeiros campos de concentração a inspirar os equivalentes nazis.
Nada disto surpreende muito. Afinal, para Trotsky, “a ditadura do partido comunista deve ser mantida com recurso a toda a forma de violência”. E era também ele quem apoiava a pergunta retórica de Lenine: “como é possível fazer uma revolução sem execuções?” O próprio diria logo em 1917: “não há nada de imoral no facto de o proletariado eliminar a classe em extinção. É o seu direito. (…) Dentro de um mês no máximo o terror vai assumir formas assustadoras, baseadas no modelo dos grandes revolucionários de França. Os nossos inimigos não vão enfrentar a prisão, mas a guilhotina”. A guilhotina era um instrumento que Trotsky apreciativa e alarvemente chamava uma máquina “que faz encolher um homem pelo tamanho de uma cabeça”.
Trotsky sempre foi uma fonte inesgotável de boas ideias. Durante a guerra civil, foi comandante do Exército Vermelho. Tinha o hábito de viajar para a frente à maneira das actuais pop stars, num comboio luxuoso, fornecido de excelentes iguarias (era um gourmet). Vestia fardas impecáveis e botas lustrosas, num estilo em que alguém se inspirou também mais tarde. Certamente enlevado por esta boa experiência, lembrou-se nos anos 20, quando foi necessário reconstruir o país, de duas coisas: 1) usar os encarcerados nos campos de concentração para esse esforço – uma ideia com grande futuro e ainda hoje utilizada, por exemplo, em Cuba; 2) organizar a mão-de-obra civil (toda a mão-de-obra civil) de acordo com regras militares – chamou-se a esta magnífica ideia, precisamente, a “militarização da mão-de-obra”.
Em suma, às mãos desta e doutras criaturas, já muito antes de Estaline, centenas de milhar de pessoas estavam encarceradas em campos de trabalhos forçados e dezenas de milhar tinham sido executadas, em geral de forma sumária. É nas ideias da dita criatura que o partido de que falei ao início se inspira. Seria possível sem escândalo, existir na Assembleia da República, um partido inspirado nas ideias de Goebbels? Muitos de nós, se sabemos que existiu, achamos dele o que a polícia vienense achava quando o ouvia a fazer prédicas socialistas no Café Central em Viena: “o senhor Lev Bronstein (seu verdadeiro nome ) é um inofensivo radical”. Viu-se.
(with special thanks to LM - um verdadeiro copydesk especializado)
E Sam Spade chorou
AC, obrigadinho. Eu esforcei-me tanto (e diverti-me outro tanto) e só tu, meu moço, é que ligaste àquele post. Ainda por cima chamas-me facho (já há muito tempo, diga-se a verdade) e mesmo assim gostas de mim... Já vou na minha segunda caixa de kleenexes. Entretanto, o script já está vendido. Para o papel de "Long" Licks indiquei Selma Hayek. Por duas razões: a primeira é óbvia, a segunda também.
Os merecidos linques
Já é a segunda vez que digo para mim mesmo: ora cá está uma coisa para fazer um link lá no blog. Dou uma olhadela pela concorrência e o Manuel já se adiantou (aqui e aqui). São excelentes (para além do próprio Manuel, evidentemente) o artigo de VDH na NR (gosto de falar por siglas, dá um ar entendido) e a análise clínica de um cartoon do Le Monde por Nelson Archer no Europundits.
Sexta-feira, Maio 14, 2004
Olha outro
Este Mascarenhas é do diabo. Então não é que foi catar mais um dos melhores fachos da praça para aquilo que ameaça transformar-se no dream team dos fachos na blogosfera? Desta vez foi o João Marques de Almeida. Johnny, my man, afinal também tu cedeste aos encantos da banda larga. E foi logo a matar. Olha, eu já assinei. Até porque reivindico uma parcelita de paternidade da história. Salvo erro, fui o primeiro a falar do assunto aqui na blogsfera, citando um excelente artigo desse nosso excelente amigo comum que é o Rui Ramos. Claro que a coisa foi redireccionada do mundo virtual para o real por vias mais dignas. Seja como for, é sempre bom saber que gajos rascas como eu sempre servem de inspiração para qualquer coisa.
O Argumento
Existe um argumento dos defensores da guerra do Iraque que tem sido muito ridicularizado. Diz esse argumento que o aspecto crucial deste trágico episódio de Abu Ghraib é a capacidade de um regime democrático, liberal e baseado no governo da lei não tolerar eventos daquela natureza e puni-los com exacta severidade. Quem ridiculariza este argumento mostra a sua mais absoluta incompreensão sobre o que é a democracia, a liberdade e o dito governo da lei. Assentemos nisto: esse argumento é O Argumento sobre a questão.
Só nos delírios socio-comunistas de antanho (e respectivas sequelas mais ou menos informes de hoje) alguém imaginou que os regimes políticos alteram a natureza humana. Só nesses delírios alguém imaginou que a instauração do socialismo, do comunismo, da anarquia, da democracia seria capaz de criar homens universal e homogeneamente bons. O que é importante na democracia, no liberalismo e no governo da lei não é a transformação do homem num ser angelical, a partir da vil matéria original. O que é importante é que um regime democrático e liberal faça as suas instituições assentarem num corpo de leis capaz de dissuadir os homens de levarem à prática as suas piores tentações. Quando a mera existência das leis não os dissuade, então as leis devem ser aplicadas e aqueles que não foram dissuadidos devem ser castigados.
Devemos entender-nos de uma vez por todas sobre Abu Ghraib: o que lá aconteceu não devia (não podia!) ter acontecido. Para vergonha de todos os que apoiaram a guerra no Iraque, aconteceu. A única solução para atenuar (nem sequer é apagar) a mancha que caiu sobre eles é mostrarem porque razão a guerra foi feita. A guerra não foi feita para transformar os iraquianos em querubins alados, foi feita para que aqueles que no Iraque abusavam do poder para torturar, matar e castigar arbitrariamente deixassem de o fazer. Abu Ghraib é a oportunidade para, precisamente, mostrar isso mesmo. Quem fez o que lá fez deve ser castigado na exacta proporção (legal) do mal que causou.
Ao contrário do que pode parecer, dado o actual estado do debate, a questão política de Abu Ghraib não é a demonstração da maldade ou bondade intrínseca dos americanos. Essa questão política, na realidade, subdivide-se em duas:
1) Alguém torturou e matou prisioneiros iraquianos. Até onde na cadeia de comando vão as responsabilidades criminais? As responsabilidades esgotam-se na acção espontânea e desenquadrada dos soldados que guardavam os prisioneiros? Esgotam-se nos seus superiores imediatos? E nos superiores destes? É isto que tem de ser esclarecido. Não é andar a gritar que são todos assassinos, Rumsfled e Bush os piores deles. Uma vez estabelecido o limite razoável de responsabilidade, os que a têm devem ser punidos de acordo com a lei.
2) Se é este o problema político, então o que se deve seguir não é a gritaria indignada contra o fascismo americano, mas a exigência de que o sistema de controle e punição funcione. As indicações até agora não são más: a primeira informação sobre o episódio teve origem num relatório interno do exército (do general Taguba) e desde então foram desencadeados diversos inquéritos. Quando a CBS e a New Yorker divulgaram as imagens (cuja fonte é o próprio exército), já esses inquéritos estavam a decorrer. Devemos pedir agora que as coisas assim continuem até às últimas consequências.
Quem usa o caso de Abu Ghraib para gritar contra a guerra está a fazer um uso instrumental da tortura (a maior parte dessas pessoas tem aliás um património político lamentável neste domínio) para outro fim. A exigência que deve ser feita é que a lei se cumpra, pagando os culpados o que tiverem a pagar. Seria essa a melhor demonstração de que a guerra foi justificada e justa.
Quarta-feira, Maio 12, 2004
The Rhonda Licks Affair
Ao chegar ao escritório, por volta das 11 da manhã, sentei-me na cadeira e pousei os pés na secretária. Esfreguei a testa para aliviar os efeitos da ressaca da noite e folheei a edição do dia do Santa Monica Chronicle. O costume: corrupção na Casa Branca, corrupção no Senado, corrupção na Casa dos Representantes, corrupção no FDA. É em dias como este que me lembro do que o meu pai me dizia: “serás um homem justo e bom”. Pois, papá, também já acreditei nisso, mas foi antes de ter descoberto o Jack Daniel's com duas pedras de gelo. Dei uma olhadela ao relatório de peritagem para a Save America Insurance que Joe tinha deslizado por debaixo da porta. Era um caso perdido. Mais uma vez a minha conta bancária ia ficar em seco.
Enquanto inalava o meu décimo Chesterfield do dia (ultimamente ando a fumar pouco) e dava três golos em jejum na garrafinha de xarope (marca Jack Daniel's), tocou o telefone. Era ela. Rhonda. Rhonda Licks. O seu quarto marido tinha-me contratado para a vigiar: suspeitava que o andava a traír. Os três maridos anteriores tinham morrido de estranhas causas. A mim não pareciam estranhas: com mulheres como Rhonda tais coisas acontecem muito naturalmente. Rhonda era conhecida em Hollywood como “Long” Licks. Disputava-se em Beverly Hills a razão da alcunha: seria porque Rhonda tinha tendência para lamber completamente as fortunas colossais dos falecidos esposos? Ou seria porque usava com proficiência a língua para outros fins? “Frank?”, disse ela, na sua voz rouca. “Queria falar consigo.” Eu conhecia aquele tom de voz: era Primavera, a época do cio entre as focas do Pacífico. “Ah, sim? Quer finalmente ter uma conversa intelectual? Quer que lhe conte o final de The Scarlet Letter, de Hawthorne?”. Um pequeno ruído gutural do outro lado do fio indicava que “Long” Licks tinha sorrido: “Frank, é esse seu humor que o vai perder...”
Aceitei fazer a visita que me pedia, na sua barraquita de Redondo Beach, para onde ia desenjoar de Malibu. Montei no meu Chevrolet Cavalier em quarta mão, não sem antes admirar a pancada por cima da roda direita com que um qualquer ás do volante tinha decidido decorar o meu bichano. Desci de Bel-Air em direcção ao Santa Monica Boulevard, meti a Wilshire Boulevard, girando depois à esquerda para entrar na Interstate 405, em direcção a Redondo Beach. No caminho observei as casas ornadas de buganvílias. O cor-de-rosa das buganvílias sempre me tinha enjoado. E L.A. rebentava de buganvílias. Deve ser por isso que L.A. me enjoa.
Subi a alameda entre o portão e a modesta casa de 20 divisões de que “Long” Licks era proprietária. Antes de saír do carro, sorvi mais um Chester, bochechei um pouco do xarope e apalpei as costas, na zona do coldre. Lá estava ela, a minha querida, a minha Magnum 45, aquela sem a qual não sou ninguém e que passeio por todo o lado. Sabem que mais? Nunca me traíu. Fui conduzido pelo mordomo à piscina, onde Rhonda se estirava numa cadeira longa, beberricando um cocktail e fumando um King Size. O espectáculo era digno de ser contemplado: a pele tostada deixava adivinhar uns resquícios de bikini florido. O marido suspeitava de qualquer coisa? Eu, se fosse a ele, também, mas mesmo antes de me casar com ela. Com aquilo que tinha para oferecer, o que é que ela podia fazer senão traír maridos?
Sentei-me numa cadeira ao lado da sua: “Quer que lhe traga uma camisola de gola alta? É capaz de estar com frio...” perguntei inocentemente. Novo ruído gutural. “Frank. Você e eu poderíamos fazer grandes coisas. Essa sua verve é mortal”. “Sim, Rhonda, e se se constipar, não se preocupe, eu trago o supositório”.
“Sabe, Frank? Suspeito que alguém me anda a vigiar”. Atirei uma concha para dentro da piscina e reagi: “a sério, Rhonda? Certamente alguém com vontade de ter uma experiência espiritual consigo”. “Não. Acho que é o meu marido”. Estive para perguntar se ainda era o marido, ou não seria já o ex-marido. Contive-me. E, para além disso, ela levantou-se, coisa que me deixou em estado de choque. Poupo-vos a descrição do que passou diante dos meus olhos. Baixou-se na minha direcção, tendo o cuidado de deixar a parte de cima do bikini na linha recta horizontal do meu olhar. Levantou os óculos escuros para a testa e, com as pupilas dilatadas, fixou-me. “Espere aqui”, disse finalmente, enquanto se dirigia para o interior da casa. Eu percebia muito bem o que uma mulher queria quando olhava assim para mim. Até porque muitas mulheres tinham querido muita coisa de mim. E eu tinha dado. Não era por acaso que me chamavam “Frank, the piston” no velho liceu de San Fernando.
Foi nessa altura que senti uma pancada na nuca. As cores do guarda-sol fundiram-se num arco-íris fantástico quando caí inconsciente. Ainda me pude aperceber da figura do mordomo segurando uma pequena moca metálica. Ah pois, a culpa é sempre do mordomo.
A próxima coisa de que me lembro é da porta da arca frigorífica a abrir, seguida da voz do Sargento Silva, da GNR de Arcos de Valdevez: “Bem... se este não é o Detective Correia? O gajo das investigações com dignidade. Está aqui congelado dentro da arca. Bem fanadinho e bem durinho”. Responde o Sargento Lopes: “Eh pá, não havia de estar? O Detective Correia sempre foi um duro”. As gargalhadas deles ecoaram pela cozinha, enquanto eu sonhava encontrar no céu o bikini de Rhonda. De preferência com Rhonda lá dentro.
Terça-feira, Maio 11, 2004
Quatro vezes é suficiente
George Bush pediu desculpa, Tony Blair pediu desculpa, Donald Rumsfled pediu desculpa e ontem o Senado americano pediu desculpa. Parece-me que já chega. Quatro vezes é suficiente. Bastava, aliás, uma vez, pela voz do comandante-chefe das principais forças armadas envolvidas no teatro de guerra. A maneira de melhor atenuar a mancha lançada sobre os aliados em resultado dos actos de violência cometidos pelos seus soldados nas prisões iraquianas seria concentrar esforços em duas coisas: a) na demonstração (que já está ser feita, de resto) de vontade em investigar detalhadamente estes actos horríveis e punir quem tiver que ser punido; b) na prossecução do esforço de implantação de um regime apresentável no Iraque.
De acordo com uma sugestão tonta (muito típica da nossa era de símbolos superficiais) feita pela revista The Economist e outras pessoas, Donald Rumsfeld deveria demitir-se, por forma a que os defensores da guerra pudessem oferecer um “iconic act” em resposta ao “iconic act” que representam as fotografias de Abu Ghraib. Donald Rumsfeld não tem nada que demitir-se, pelo menos por enquanto. Se da investigação que está a ser feita resultar a indicação comprovada de que Rumsfeld sabia e apoiou semelhantes actos, então deverá demitir-se. Neste momento, a sua demissão não seria mais do que o enésimo e estéril “pedido de desculpas”. Os defensores da guerra têm “iconic acts” melhores a oferecer do que a demissão do Secretário da Defesa americano. Têm a oferecer o funcionamento de uma democracia capaz de punir quem não cumpra os valores por que se rege, e têm a oferecer a possibilidade de instalação de um regime idêntico lá onde tal coisa nunca existiu.
Segunda-feira, Maio 10, 2004
O nevoeiro da guerra
Um exercício genericamente imbecil a que muita gente se vai dedicando por aí é o de estabelecer comparações, em termos militares, entre a guerra do Iraque e a do Vietname. Tal como a do Vietname, a guerra do Iraque seria um “atoleiro” (quagmire), conducente à inevitável derrota ocidental. Convém compreender uma coisa: não há qualquer comparação possível (no domínio estritamente militar) entre a guerra do Vietname e a do Iraque. A guerra do Vietname durou entre duas a três décadas e envolveu uma antiga potência colonial (a França) e uma superpotência do pós-II Guerra Mundial (os EUA). No Vietname, os EUA enfrentavam um inimigo mutável e mutante, que em determinadas circunstâncias se convertia numa força de guerrilha, noutras num exército convencional (em 1973, o Vietname do Norte tinha o terceiro maior exército do mundo, depois dos EUA e da URSS). Em 1973, quando se iniciam as célebres negociações de Paris, os EUA tinham a guerra ganha militarmente. No Iraque a guerra durou três semanas e foi seguida por um ano de actos terroristas e escaramuças que nada têm que ver com a escala de combates do Vietname. Os EUA não enfrentam um exército da escala do vietnamita, mas grupelhos rusticamente armados, que vão causando baixas civis e militares sem qualquer comparação com as do Vietname.
As comparações com o Vietname só poderão fazer sentido no que toca à relação da opinião pública com a guerra. O Vietname não foi uma guerra perdida no campo de batalha, mas perdida por aquilo que cada vez mais parecia ser a falta de vontade de lutar do povo americano. A guerra do Vietname foi perdida na chamada frente doméstica: nas televisões, nos jornais, nos campuses universitários. A derrota do Vietname é uma derrota imposta a si mesmos pelos EUA. Neste sentido, a guerra do Iraque pode ser parecida com a do Vietname. Basta que a opinião pública ocidental o queira. E neste sentido, quem compara as duas guerras pode muito bem ter razão. Tem, aliás, mais do que razão: está a cumprir uma profecia que se cumpre a si mesma.
A opinião pública que se opôs à guerra do Vietname nas décadas de 60 e 70 fê-lo sob a retórica do pacifismo e da crítica à violência. Fê-lo também em nome da construção de sociedades que seriam superiores à sociedade ocidental, como todas as sociedades socialistas então existentes no mundo (alguém se lembra?). O Vietname foi mais uma dessas sociedades superiores ao Ocidente. A opinião pública ocidental considerou cumprido o seu dever de difusão do bem e da paz pelo mundo quando o último helicóptero americano saiu do terraço da embaixada americana em Saigão. E no entanto, o verdadeiro horror estava para começar: alega-se (sem certezas rigorosamente nenhumas) que os americanos terão causado no Vietname 50.000 vítimas civis. Admitamos que sim. A vitória comunista e ocupação do Vietname do Sul trouxe um milhão de boat people, centenas de milhares de refugiados na Tailândia (deste conjunto, entre boat people e refugiados terrestres, quase dois milhões foram recebidos nas “inferiores” sociedades ocidentais) e milhares de chineses expulsos do país, na sequência de uma campanha de limpeza étnica. Indivíduos em números por estabelecer (mas nunca menos do que da ordem das centenas de milhar) foram internados em campos de reeducação, muitos sumariamente executados. Caído o Vietname, caíram também o Cambodja e o Laos. Nos dois anos subsequentes à queda de Saigão já havia duas vezes mais vítimas civis do poder comunista em todo o Sudeste asiático – à conta do genocídio cambodjano, das execuções sumárias e das horríveis condições de vida nos campos de reeducação - do que durante os dez anos de verdadeira guerra no Vietname (1965-1974).
As vítimas deste verdadeiro holocausto, na impossibilidade de fazerem outra coisa, continuam à espera, pelo menos, de um pedido de desculpas.
Quinta-feira, Maio 06, 2004
O meu melhor amigo
Há exactamente quatro anos atrás toquei pela primeira vez no meu melhor amigo. Tinha-o conhecido apenas uns meses antes e tinha-o visto pela primeira vez num monitor de televisão. Desde então, temo-nos perdido em grandes alegrias e grandes zangas. Às vezes grito eu com ele, outras grita ele comigo (mais eu do que ele, mas isso vem do meu proverbial mau feitio). Ele mostra-me uns livros, eu outros. Umas vezes escolho eu o filme, outras vezes ele. Ele adora a FNAC e a casa de gelados da Häagen-Dazs, ambas no Chiado. Não falamos de política, mas de futebol (partilha comigo a infelicidade ser do Sporting) e literatura (talvez o seu autor favorito seja J.M. Barrie, embora ultimamente se venha entusiasmando com E.B. White). São já incontáveis as ocasiões em que, farto de tudo, apenas com ele encontro consolação. Espero que com ele aconteça a mesma coisa, mas não tenho a certeza. Hoje organizamos uma festa para comemorar o dia em que nos olhámos nos olhos pela primeira vez. Ele chama-se Manuel, Manuel Amaral, é meu filho e veio ao mundo a 6 de Maio do ano 2000 (talvez o dia mais importante da minha vida). Às vezes pergunto-me porque o ajudei a vir a esta terra. A única coisa que lhe peço é que, quando tiver a minha idade, me desculpe, como eu não sei se consigo desculpar os meus pais.
Quarta-feira, Maio 05, 2004
Ai, que marotos...
Já corrigiste, Pedrocas. Muito bem, meu maroto, muito bem. Quem ajuda os meninos malandrecos a fazer o trabalho de casa, quem é? Não se manda um beijinho ao papá, nem nada?
Secôquingue
A estes rapazes é preciso ensinar-lhes tudo. Pedro, ninguém te obriga a escrever em inglês. Mas se queres escrever em inglês, já agora escreve com a ortografia exacta. Presumo que quisesses escrever shocking, no sentido de chocante. Escreveste schoking, algo que se poderá talvez ler como secôquingue.
É apenas uma pequena correcção ortográfica, que podes usar livremente. Ou então estou enganado e é qualquer coisa gira aprendida com a malta dos SMSs. Hoje, se calhar, já não se veste smoking, mas sim secônquingue, ou schoking, em inglês. Se alguém se quer livrar do vício da cocaína, entra num processo de schoking. Não sei, não sei, as coisas mudam tão depressa agora.
Vitriolica and Madge
Entretanto, aconselho toda a gente a conhecer as aventuras das meninas Vitriolica e Madge, da autoria da minha amiga Lucy Pepper. A Lucy é inglesa mas vive em Portugal (escolheste o homem errado, escolheste o homem errado...) e desenvolveu um olho clínico e cómico sobre aquilo que por cá vai vivendo. Vitriolica escreve e é mazinha. Madge desenha e é boazinha (pelo menos eu acho que é boazinha). Não que Madge exprima emoções verbalmente, mas porque os desenhos me parecem sempre muito simpáticos, mesmo quando feitos com a intenção de ridicularizar.
Já tens contrato com uma editora para fazeres o livro?
Maggie. Mas agora a sério
Depois da idiotice daquelas mensagens em estilo hooliganístico para relembrar os 25 anos da primeira vitória eleitoral de Margaret Thatcher – é sempre penoso ver pessoas que me habituei a considerar inteligentes fazerem tamanha demonstração de palermice: espero sinceramente que seja uma coisa passageira -, vamos lá dizer qualquer coisita um bocadinho mais condigna a esse respeito.
Convém lembrar o que era a Grã-Bretanha de 1979: um país com uma economia decadente, a caminho da estatização completa, dominada pelo mais absurdo socialismo (quando não o era pela presença do Partido Trabalhista no governo, era-o em termos intelectuais no conjunto da sociedade, por falta de afirmação de um programa liberal). Aquele que tinha sido até antes da II Guerra Mundial o mais rico país da Europa havia caído para o fundo da tabela europeia em finais dos anos 70. Mais do que privatizar e impedir que a Grã-Bretanha fosse governada por sindicatos de mineiros e camionistas, Maggie foi a primeira governante a dizer aquilo que é hoje um lugar-comum. Lugar-comum que (creio) nem sequer Luís Fazenda discutirá: que sem mercado mais ou menos livre, que sem propriedade privada, que sem capitalismo (mais ou menos regulamentado: a distinção entre esquerda e direita está agora aqui, não está entre abolir o capitalismo e manter a sua existência) não há prosperidade económica. Mesmo se Maggie não fez nem metade do que poderia ter feito, hoje a Grã-Bretanha é uma das mais vibrantes economias europeias.
Mas convém lembrar, sobretudo, o que era o mundo em 1979: a Europa de Berlim para lá estava entregue ao mais repugnante totalitarismo comunista. E o mesmo acontecia a uma fracção muito substancial do mundo. Maggie foi a primeira governante a dizer que mais do que aprendermos a conviver com esse facto, era preciso fazê-lo desaparecer. Quem ouça as tontices que habitualmente sobre ela se dizem, nem sequer percebe que o presumível consenso que hoje se vive em torno da (à época) desprezivelmente denominada “democracia burguesa” muito deve a Maggie. Antes dela (e de Ronald Reagan), custa a crer mas é verdade, o socialismo (fosse na sua versão das estepes, na sua versão do deserto de Gobi, na sua versão tropical americana, na sua versão luso-tropical, na sua versão albanesa, na sua versão Kim-ba) era apresentado (nas famosas palavras de Sartre) como o “horizonte inultrapassável da humanidade”. Se há uns dias atrás uns quantos países do Leste europeu entraram para a União Europeia (a mesma União que Maggie tanto ridicularizou, mas que paradoxalmente tanto ajudou a salvar) muito a ela devem. Se hoje em dia Carlos Marques é a favor da permanência de Portugal na UE, em parte o deve a Maggie. Falo de Carlos Marques, porque Carlos Marques é do BE e porque me lembro de o ver dizer (não sei bem em que circunstância) em 1989 (atenção: em 1989, não em 1979) que a Albânia tinha o tipo de regime que Portugal deveria adoptar (ou qualquer coisa deste género). Se hoje até mesmo a esquerda mais idiota tem vergonha do seu passado soviético, maoísta, castrista, sunguista, hoxista, muito o deve a Maggie.
Eles não se lembram, eles não sabem, eles não querem saber. E é por isso que pessoas como Maggie se calhar não deveriam nunca existir. Tal como Schumpeter avisou já há uns 70 anos: o liberalismo cria a mesma estirpe de pessoas cuja única ideia é destruí-lo. O que faz com que as suas vitórias sejam esquecidas. E faz com que a sua viabilidade esteja sempre a ser questionada. Provavelmente com razão: talvez o liberalismo seja mesmo inviável.
Terça-feira, Maio 04, 2004
Resistir é vencer (obrigado Zémário)
Francisco Sarsfield Cabral tem uma coluna quotidiana no Diário de Notícias, com o nome genérico “Tentar Perceber”. São sempre de louvar pessoas que tentam perceber. Eu por mim já desisti de tentar perceber o grande imbecilismo contemporâneo ocidental. Aquele que se manifesta no ódio inexplicável do Ocidente por si mesmo. Não importa que vivamos hoje com padrões de liberdade únicos. Sempre aparecerão cretinos a asseverar-nos que o sistema é repugnante.
Não há, evidentemente, uma explicação racional para isto. Quem ler Disgrace, de J.M. Coetzee, perceberá que não há. Não perceberá porque é que não há. Mas perceberá que não há.
Felizmente, nem toda a gente desiste de tentar perceber e persiste (resiste? Obrigado Zémário). É o caso de Victor Davis Hanson, um dos melhores historiadores militares americanos vivos. Deixo aqui um artigo. Eu sei que não convence ninguém, mas deixo-o na mesma. For the record.
Ainda a tortura
Regresso ao tema da tortura: Mário Soares, Sérgio Sousa Pinto e Francisco Louçã foram vistos a perorar sobre "o socialismo, a globalização, a Europa, a crise dos partidos ou a ascensão do neoliberalismo". Aaah, não! Mais não!! Parem, por favor! Confesso: sou um neo-liberal sem alma, de tendências fascizantes!!
Um moço de virtudes
Daniel, meu pequerrucho, constato que te transferiste para uma fase superior de luta: passaste de insultar a tua inteligência e a dos outros para me insultares a mim. Não te preocupes, isso passa-te.
Ah, e quando quiseres falar a sério sobre tortura, o 25 de Abril, o Iraque, o fascismo, a democracia, o comunismo, horticultura, qualquer coisa, na realidade, avisa, está bem? Talvez nesse dia te comece a levar a sério.
Segunda-feira, Maio 03, 2004
Tu quoque, Vascus?
Também tu, meu grande facho? O quê? Não me digas que não sabias que eras facho? Durante muito tempo também eu pensei que não era. Mas depois explicaram-me que eu era ainda pior que o Tony Blair. Ora, o Blair é um facho consabido. E se ele é facho, a fortiori o serei eu. E tu também. Welcome aboard, fili mi.
The horror, the horror…
Corre por aí grande excitação com a tortura dos soldados americanos e ingleses aos prisioneiros iraquianos. Compreende-se, é a confirmação daquilo que já toda a gente suspeitava: a Grã-Bretanha e os EUA são e sempre foram regimes totalitários. O seu traço distintivo é, aliás, o de torturarem selvaticamente tudo o que lhes apareça à frente. Onde existe hoje em dia a tortura como método policial regular? Nos EUA, na Grã-Bretanha, em Israel e, claro, desde há um ano atrás, no Iraque. O resto do mundo – e isto há que dizê-lo com frontalidade – é um paraíso livre de semelhante horror.
Coisa que constitui, aliás, pretexto para uma efeméride. Creio ter passado despercebido um artigo do meu amigo Rui Ramos no jornal Independente, na véspera do 1º de Maio. É mais uma coisa que se compreende: o Rui é um jovem simplório, que só sabe despejar baboseiras da caneta para fora. Nesse artigo ele recorda como a 25 de Abril de 1974 existiam em Portugal umas centenas de presos políticos. E recorda ainda como ao fim de um ano o número de presos políticos tinha mais ou menos decuplicado, tendo a muitos deles sido aplicadas as famosas “sevícias” – um conceito inteiramente diferente (como toda a gente sabe) da “tortura”. Imagine-se que trigésimo aniversário estaríamos aqui nós a comemorar tivessem o Dr. Cunhal, o major Otelo, o brigadeiro Vasco Gonçalves ou a Dra. Isabel do Carmo (numa enumeração não exaustiva) conseguido fazer vingar os seus diversos “projectos de liberdade”.
Seja como for, tudo isto são minudências. Importante, importante é a tortura a que me tenho sujeitado desde hoje de manhã. Então não é que diz no jornal que a abstenção favorece a esquerda nas eleições europeias... Andava eu a pensar abster-me, para depois levar um choque destes. E agora não faço mais nada senão torturar-me com esta ideia trágica: afinal sempre vou ter que votar. Desde então que não passo de um marine de mim mesmo, de um copcon de mim mesmo, de um Silva Pais de mim mesmo. E a tortura será ainda maior quando puser lá a cruzinha…
Caro Adjunto
Aquela de que não havia por aí muito trabalho era a brincar. Peço desde já desculpa, quanto mais não seja porque deve dar ainda mais trabalho ouvir a enésima gracinha sobre como a malta do governo não sabe o que é o trabalho.
Sexta-feira, Abril 30, 2004
Estou aqui
Estou aqui, Paulo. Desculpa o atraso na resposta, mas tens de compreender, aquelas sujeitas de Malibu não me largavam da mão. Os teus elogios são completamente desporpositados, mas agradeço na mesma. Então decidiste juntar-te a esta pandilha? Eu bem suspeitei que por aí não havia muito trabalho. A propósito: devo-te um artigo, remember? Não o escrevi porque entretanto houve o fogo-de-artifício de Atocha, seguido da decisão de abandonar a minha carreira de colunista (coisa para a qual visivelmente o Criador não me forneceu os melhores dotes). Talvez um dia dê para isso. Seja como for, muito bem-vindo. É sempre bom ter ter-te por aqui.
Back in business
Como se diz em bom português: e prontos... regressei. Como provavelmente saberão, estive em missão civilizacional do outro lado do Atlântico (mesmo do outro lado do outro continente do outro lado do Atlântico, nas margens do outro oceano do outro lado do outro continente do outro lado do Atlântico).
É simples. Tal como aqueles famosos rapazes (os da praia), recebi um chamamento. Eles explicaram isso muito bem em 1985:
California callin'
I'll be there right away
There's some beautiful women
Gonna find me one
To show me how to ride the ultimate wave
Now I've joined the surfin' nation and so
I'll take a permanent vacation and go
To the golden shores of 'Frisco Bay
I'll ride 'em all the way to Malibu
And I'll take ya' boogie boardin' with me
'Cause when we're surfin' it's so great to be free
And when you're on a California beach
You might even find 'em windsurfin' too
California callin'
I'll be there right away
There's some beautiful women
Gonna find me one
To show me how to ride the ultimate wave
Parti com a ideia de levar luzes e sofisticação àquele povo de brutos ignorantes. Queria explicar-lhes o que é o 25 de Abril. Vai daí, fiz questão de no próprio dia 25 subir a Pacific Coast Highway com um chaimite de 1970. Com o meu camuflado do exército português, estacionei em Malibu e montei a banca com cartazes alusivos e CDs da “Grândola” e do “E Depois do Adeus”, e mais algumas coisas avulsas (um best of do Tino Flores, um sortido de discos em vinil do José Mário Branco, livros de Joaquim Pessoa e José Fanha, enfim, o trivial, capaz de mostrar àquelas bestas o que é um verdadeiro país europeu sofisticado e de alta cultura). Incompreensivelmente, todos eles sabiam o que era o 25 de Abril. Ao perceberem que vinha de Portugal, diziam-me: “yeah, sure, Portugal: Eusébio, Amália, 25 de Abril”. Mais: não só sabiam o que era como o comemoravam furiosamente. Uma loura coberta com uns vestígios de roupa que se interessou pelo meu chaimite explicou-me depois que os americanos viam no 25 de Abril algo anterior ao próprio 4 de Julho. A lógica era muito simples: Abril antecede Julho, sendo inevitável retirar aquela conclusão. Enfim, para eles Otelo é um Jefferson em crisálida, Costa Gomes um Franklin mais ilustrado e Vasco Gonçalves um Washignton a quem não deixaram ser Presidente.
Incapaz de desenvolver a tarefa a que me tinha obrigado, acabei por resvalar para o nível cultural local: troquei o chaimite por um Ford Mustang vermelho (agora não estou a brincar), convidei a loura a acompanhar-me (agora estou) e continuei a subir a Pacific Coast Highway. Foi então que quis que o 25 de Abril fosse sempre.
Domingo, Março 21, 2004
O blog é que paga
Até ao fim do mês estou com muito trabalhito. Em Abril estarei, por razões profissionais, mostly abroad, primeiro no Pequeno Satã (Londres), depois no Grande Satã propriamente dito (Los Angeles) - espero que a CIA e o MI6 façam os pagamentos em atraso pelo trabalho sujo que ando por aqui a fazer. O blog é que vai pagar, e é já a partir de hoje. Se o sr. Bin Bin não se lembrar de deitar abaixo os aviões em que vou viajar ou destruir as cidades que vou visitar, talvez lá para Maio regresse ao vosso ameno convívio. Entretanto, divirtam-se.
Século XXI = Século XX
Pedro, meu padrinho. Eu ensino numa escola de economia, local onde se procura explicar a forma mais eficiente de gerir os recursos disponíveis. Não me passaria pela cabeça remexer na livralhada para escrever uma insignificância chamada post, em resposta a outra insignificância do mesmo nome. Para infelicidade das criaturas que têm que suportar a exposição da minha fraca sabedoria nas aulas, eu ensino-lhes as instituições inglesas nos séculos XVII e XVIII, e portanto aquelas parcas notas estavam quase todas fresquinhas dentro da minha cabecita (toc toc). Não sei se o argumento 2003 = 1939 é imbecil. É capaz. Mas se for, olha que não é o único que por aí circula. E por uma questão de amizade nem sequer vou especificar quem os difunde de forma olimpicamente calma.
Seja como for, não era nesse argumento que estava a pensar. Era noutro. Não percebeste qual? Paciência...
Happy Birthday to You
Carlos, desculpa o atraso. Andei uns dias afastado das lides, mas parabéns. E continua com o teu Proper Study of Mankind.
Quinta-feira, Março 18, 2004
Novas novas do Al-Andaluz (terra a ser brevemente reconquistada ao infiel): Rossé Luís is back
Dada a gravidade dos eventos espanhóis, o correspondente deste blog em Madrid, José Luís Lencastre, decidiu (por livre iniciativa) reiniciar actividades. Eis o seu mais recente report:
Caro Luciano,
Não querendo ficar atrás na moda ora vigente, de envio de SMS, mails e debate em chats, para dizer mal do governo, convocar manifestações "espontâneas", pedir o fim da guerra, etc., junto lhe envio um mail que recebi hoje na minha caixa de correio, pedindo-lhe que o divulgue através do seu blog.
Melhores cumprimentos,
JLL
En respuesta a Pedro Almodóvar
Con estupor leo en ABC unos comentarios hechos por usted en los que afirma que lo sucedido el pasado domingo constituye la «recuperación de la democracia». Ésa es una opinión discutible, pero soy de los que creen en la libertad de expresión. A eso sólo cabría objetar que la democracia en este país no se ha perdido desde que se consiguió en 1975. Pero es que, junto a esa gratuita afirmación, usted se permite hacer una serie de valoraciones difamantes que, como poco, ofenden a mi inteligencia. Es por ello que me parece necesario contestarle.
En primer lugar, yo no soy militante ni simpatizante del PP. Soy alguien de izquierdas que, por repugnancia a determinados comportamientos pasados del PSOE, dejó -como tantos- de votar a ese partido. Me he guiado siempre por los resultados de los comportamientos de las personas, no en función de las ideas que dicen defender. En consecuencia, no soy alguien sospechoso de contestarle desde una tribuna afín a ningún partido
Pero, cuando usted se atreve a decir públicamente que está muy contento -e, «incluso dispuesto a arrodillarse ante el inventor de los móviles y de los mensajes en Internet»- porque gracias a ellos se torció el voto y pudo ganar el PSOE -manifestación digna de alguien que milita o, al menos, es simpatizante de ese partido- se hace necesario hacerle algunas precisiones que usted está en su derecho de ignorar. Esa alegría que le produjo el cambio de resultados no le da ningún derecho a decir algo tan terrible -y, sobre todo, inexacto- de que «el PP estuvo a punto de provocar un golpe de Estado». Pero, ¿cómo un golpe de Estado? ¿De dónde se saca ese argumento? Mire, señor Almodóvar, lo único que sí pudo haber sucedido, lo que todas esas manifestaciones convocadas por Internet y móviles estuvo a punto de provocar, es el retraso en la convocatoria a las urnas, que sería la segunda vez que sucediese si tomamos en cuenta lo que sucedió en las elecciones a la Presidencia de la Comunidad de Madrid
En mi opinión fue el PP quien tuvo la valiente actitud de no acudir a la Junta Electoral Central y pedir un retraso en la fecha de la votación. Algo que, pienso, hubiera podido hacer ante la intolerable intromisión que supuso tanto la convocatoria de manifestaciones como la intervención del señor Rubalcaba en la noche del día de reflexión, leyendo un comunicado a todas luces demagógico, en el que se acusaba al Gobierno de mentir. Algo incierto, por lo demás, ya que el ministro del Interior, Ángel Acebes, se dirigió a los ciudadanos a lo largo de todo ese día dando la información veraz de que disponía el Gobierno sobre la marcha de las investigaciones. ¿Y sabe por qué pienso que no acudió a la Junta Electoral con esa petición? Porque eso hubiera podido provocar muchas e imprevisibles crispaciones. Si tiene algún respeto por la opinión de los demás ciudadanos, no ofenda a la inteligencia de éstos diciendo insensateces demagógicas. Siga usted haciendo ese cine que ha venido haciendo, sin cortapisas, durante toda esa etapa que, en su torpe opinión, ha sido de «pérdida de la democracia», y no utilice el lugar en el que está para aparecer como alguien pensante. Ya tiene usted asegurado un lugar en el pesebre. Confórmese con eso y deje de decir estupideces.
En todos los años que llevamos de una democracia que, por supuesto, hemos contribuido todos -no sólo el PSOE- a instalar en nuestro país, puedo asegurarle que jamás he visto una más alevosa y torpe manipulación de unos terribles hechos con resultado de múltiples víctimas como la que resultó de las manifestaciones y declaraciones hechas en torno a ese lamentable asunto. Es de esperar que alguien del PSOE le rectifique a usted, ya que, de otro modo, eso significaría que da por buenas sus palabras y admite que hubo manipulación
Acaso convenga reflexionar en que ese «no a la guerra» que tanto se ha jaleado últimamente puede adaptarse perfectamente a contestar a actitudes de personas que, como usted, convierten el resultado de unas elecciones en argumento para lanzar prédicas desde una tribuna, con el solo objeto de contribuir a la crispación de todos. ¿O es que pretende que guerreen los ganadores y los perdedores de unas elecciones democráticas?
Por último quiero decirle que para mí, que me considero ciudadano del mundo, me duele en mi carne todas esas víctimas del 11-M. Pero también me duelen las víctimas del 11-S. Y el trágico modo de vivir de tantos pueblos sometidos a dictadores, tanto de derechas como de izquierdas. Y el hambre del mundo. Eso quizás pueda entenderlo usted si, como dice, se considera un demócrata.
Todo esto lo digo exclusivamente desde mi calidad de hombre perteneciente al mundo de la Cultura, que es el mundo en el que se consideran y defienden los valores universales de la Libertad de todo el género humano.
Ramiro Oliveros, Madrid
Actor
PS - Já agora esclareço, na realidade a mensagem SMS do José Luís foi uma carta ao director do ABC.
Ainda aqui estão?
O Pedro gosta de, às vezes, dar um bocadinho de lustro às suas intervenções blogosféricas com citações de episódios históricos. Agora lembrou-se de citar as famosas palavras de Oliver Cromwell ao Long Parliament (também conhecido nesta fase por Rump Parliament), quando o dissolveu em 1653. O Pedro devia estar desesperado para usar aquela frase em qualquer circunstância. Porque um dos propósitos destas citações históricas é constituírem alguma espécie de alegoria ou metáfora da situação com a qual se pretendem comparar. Por esse critério, a frase de Cromwell é um péssimo exemplo para o próprio Pedro. Cromwell foi, primeiro, um terrível belicista (e, também, um génio militar) e, depois, um ditador (talvez o primeiro ditador moderno). A sua ascensão política deve-se quase integralmente às suas façanhas militares enquanto comandou a célebre New Model Army durante as guerras civis inglesas dos anos 40 do século XVII. É em parte responsável pelo decepamento de Carlos I e pela instauração da chamada Commonwealth (o governo republicano subsequente à morte do rei). Ao seu nome estão ligados o massacre de Drogheda na Irlanda e a protestantização da dita. A dissolução do parlamento ocorre quando este se nega a alargar os poderes de Cromwell, bem como reformas institucionais que o eternizariam no poder. Depois de dissolvido o parlamento (momento durante o qual usou a frase transcrita pelo Pedro), Cromwell tornou-se Lord Protector e procedeu a uma espécie de militarização radical das instituições e da sociedade inglesas. Morreu poucos anos depois, sempre exercendo o poder de forma brutal.
Deve ser isto que o Pedro quer: que os líderes da coligação partam, para que lhes sucedam coisas muito piores. Infelizmente, já aconteceu inúmeras vezes no passado da esquerda: denunciar e destruir as imperfeições existentes em nome do paraíso na terra, para depois construir, afinal, verdadeiros e reais infernos na terra. Beware, pal, beware…
Novas do Al-Andaluz
Do meu colega espanholista NG recebo a seguinte mensagem:
Talvez queiras acrescentar ao teu blog que o comunicado dos terroristas que associa a vitória do PSOE ao fim dos atentados não aparece no Expresso online e vem totalmente distorcido na TSF sem referência ao PSOE (link: http://www.tsf.pt/online/internacional/interior.asp?id_artigo=TSF143521). Já a Cadena Ser também se "esqueceu" do comunicado link:http://www.cadenaser.com/noticias/) e o El Pais não lhe dá sequer destaque na edição online (link: http://www.elpais.es/), apesar de o comunicado anterior da mesma organização ter merecido grande destaque na 6a feira passada. Curioso, já que são apontados como os exemplos da comunicação livre e independente. A comunicação social de direita, obviamente manipulada pelo PP, anuncia esse comunicado para, claro está, manipular os cidadãos e fazer um segundo golpe de estado informativo...
Já o pedido do Kerry a Zapatero [Kerry pediu a Zapatero para reconsiderar na retirada do Iraque] não merece sequer referência na TSF nem no Expresso online !! Pelo menos a Cadena Ser tem a decência de o mencionar...
a+b = c, logo b+a = d
Obrigadinho Statler (fellow UBLian). É que um homem desespera: tantos anos a estudar para afinal não dominar sequer os mais rudimentares instrumentos da lógica. Comentários não tenho, meu amigo: isto aqui é um blog de direita, entendido? Sabes como é, a nossa tradição é ser-se facho, securitário, belicista e não ter comentários. Já a malta de esquerda (a propósito, o que é que fazes num blog com comentários, grande traidor?) tem um património diferente, todo florido, todo muito ligado a comentários e a um passado recente anti-facho, anti-secutritário e anti-belicista, visível em cumes da organização social e política como Cuba, a Coreia do Norte, a China, o Vietname, o Laos, o Cambodja, o Iémen, a Etiópia, o Quénia, a Tanzânia, Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, Líbia, Argélia, Irão, Iraque, Síria, Roménia, Bulgária, Jugoslávia, Hungria, Checoslováquia, Albânia, Alemanha, União Soviética, oh pá, sei lá, são tantos e tão bons que lhes perco até a conta.
É um passado destes que nos permite estar sempre tão seguros de que é preciso ter cuidado com fachos como nós, que estamos aqui para matar tudo: as liberdades, as pessoas e, sobretudo (sim, sobretudo), os comentários.
Quarta-feira, Março 17, 2004
Volta Averróis, estás perdoado
O grupo terrorista membro da al-Qaeda que reivindicou o atentado de Madrid anunciou a interrupção dos atentados sobre o "Al-Andalus" (sic! - para quem não saiba Al-Andalus foi a designação que a península ibérica recebeu durante o período de domínio muçulmano) em consequência da vitória do PSOE - o resto está aqui.
Mea culpa: todos vós, arautos do diálogo, tínheis razão. Com diálogo e umas concessões tudo se consegue. Hoje Zapatero devolve o Iraque, amanhã o quê? O Al-Andalus?
Causas necessárias e suficientes
O que se ouve por aí:
A al-Qaeda foi autora do 11 de Setembro. Os EUA lançaram-se ilegítima e selvaticamente sobre o Iraque, que não tinha nada que ver com a al-Qaeda.
A al-Qaeda foi (foi mesmo? Assumamos que sim) autora do 11 de Março. A Espanha sai do Iraque, que não tem nada que ver com a al-Qaeda.
A al-Qaeda fez o 11 de Março porque a Espanha está no Iraque.
Gostava que me esclarecessem de uma vez por todas: tem o Iraque ou não que ver com a al-Qaeda e o terrorismo internacional?
Já agora, segue também um artiguito.
Terça-feira, Março 16, 2004
Asi sí
Eis um óptimo artigo: é ponderado e promete uma boa reacção da oposição de direita espanhola ao estado em que ficou o país depois do último fim-de-semana. Esperemos que ao governo de esquerda corresponda uma posição tão lúcida (sem abdicar do seu programa) quanto esta.
La hostia
Um correspondente indirecto na Catalunha fez-me chegar o seguinte texto que parece correr por Espanha. Vendo-o tal como o comprei. Sem saber de que jornal saíu nem quem o escreveu. Parece-me resultado de boataria descontrolada. Deve ser (imagino) boataria com origem na esquerda (vamos lá com calma, não estou a dizer que só a esquerda lança boatos, mas simplesmente que o teor me parece ter origem aí). E parece-me contraditório com a outra tese da esquerda segundo a qual o governo não quis revelar que o atentado fosse da al-Qaeda. Porque aquilo que é descrito no texto se justificaria melhor com a hipótese de atentado da al-Qaeda. Mas justamente por me parecer um disparate, vale enquanto documento da impreparação da opinião pública espanhola (europeia) para lidar com um evento como o 11/3. Quando um atentado deixa as cabeças predispostas a acreditar nestas coisas estamos muito mal:
Ayer (sábado) a las 00:00 de la noche el gobierno popular se
encontraba reunido y para redactar dos comunicados que debia firmar el
Rey. En esos comunicados se convocaba el estado de excepcion y se
retrasaba el proceso electoral. Habia un plan A, que pretendia
retrasar las elecciones hasta otono, y un plan B que pretendia
retrasarlas hasta dentro de dos meses. El informador, que se
encontraba en la Junta electoral central, vivió de cerca todo el
proceso: la presentacion de los comunicados a la junta electoral
central, segundo paso en este preocupante intento del gobierno tras la
presentacion de las denuncias a la JEC contra todo partido de la
opciscion y diversos medios de comunciación y la admision de estas por
parte de la JEC.
Posteriormente el ministro Acebes se desplazaba junto a otros miembros
del gobierno al palacio de la Zarzuela para intentar conseguir la
firma del rey, requisito imprescindible para convocar este estado de
excepcion. Dede Zarzuela se negaba esa firma, por considerarlo, segun
afirman fuentes anonimas de la casa real a nuestro informador, "un
golpe de estado de facto". El tono de las notas era, segun el
informador, alarmante, y en el se mencionaba la creacion de una
situacion nacional que incluia presencia no solo policial sino militar
en las calles.
La denegacion de la firma por parte de la casa real, asi como las
reiteradas negativas desde policia nacional para disolver con los
antidisturbios las concentraciones pacificas por todo el pais,
hicieron desistir de su intento al gobierno, que anunciaba a la JEC la
anulacion de ese proceso hacia las 2.15 de la manana, aludiendo ademas
de estos motivos, alarmantes nuevas noticias.
A lo largo del dia de hoy (domingo), hemos podido confirmar esta
noticia mediante diversas fuentes autorizadas, que además nos hablaban
de una reunion celebrada en Madrid entre diversos responsables de
servicios informativos de distintos medios en los que, dentro de una
gran polemica, se decidia no divulgar esta información en diarios,
televisiones y radios al menos hasta una proxima reunión en la tarde
de manana lunes, una vez terminado el proceso electoral.
Looking for a flat to let in the Sunni Triangle
Lentamente, normaliza-se a vida no Iraque e a população local considera que a intervenção americana teve um efeito essencialmente positivo na sua vida e no seu país. Como por acaso, abre-se uma nova frente: desta vez é no sítio certo, entre a verdadeira resistência iraquiana, isto é junto da opinião pública e dos eleitores ocidentais. Tanta bomba perdida no Iraque... Um verdadeiro erro de cálculo. Era aqui que tudo deveria ter começado: os primeiros resultados foram espectaculares.
Só sei é que, se calhar, um dia destes vai ser melhor viver em Bagdad do que em Madrid ou Paris.
Segunda-feira, Março 15, 2004
Último despacho de Madrid
Terminadas as eleições espanholas, o correspondente d'O Comprometido Espectador em Madrid para a cobertura do evento termina funções. A sua actividade foi muito apreciada, por mim e vários leitores que manifestaram idêntica opinião. Nos últimos dias o José Luís Lencastre reduziu a sua actividade, certamente sob o impacto de tantos eventos surpreendentes e chocantes. Mas foi um relator atento e divertido (enquanto o ambiente dava para diversões) do ambiente da campanha eleitoral espanhola. O blog continua aberto para o que ele quiser escrever.
Entretanto, manda-me o seu último relatório, colocando sobre a mesa a questão (que não deve ser excluída) de uma joint-venture ETA-fundamentalismo islâmico:
O PP perdeu as eleições por sua culpa. A inépcia total do ministro do Interior para lidar com os meios de comunicação social, e a frouxa campanha de Mariano Rajoy conduziram a este resultado.
Prevejo um futuro sombrio para a economia, e a prova disso é que a Bolsa já baixou 3 pontos, hoje,2ª feira de manhã.
Mas deixo essa análise para outros, e prefiro abordar um tema, que até há data, ainda não vi comentado: as ligações terroristas da ETA
Jon Juaristi, basco de nascimento, pertencente a uma família nacionalista, participante da luta anti-franquista e actual director do Instituto Cervantes publicou, ontem, no jornal ABC, um artigo com o seguinte titulo: ETA y Alá. O artigo não está on line, mas em síntese diz o seguinte:
Nos anos 60 a ETA foi abertamente pró-Israel, principalmente para justificar a formação do seu respectivo estado. A ETA, reconstruída nos anos 70, pelo contrário, aproximou –se das organizações palestinianas, da FLN da Argélia e até de Cuba, de acordo com a sua nova identidade marxista-leninista. Com a queda do muro de Berlim, começaram a perder apoios nessa área, e aproximaram-se às organizações terroristas islâmicas, aproximação que continua a existir na actualidade.
Daí que não será excessivo concluir que o atentado em Madrid possa ter sido feito em conjunto.
Para terminar, não quero deixar de agradecer ao Luciano a oportunidade que me deu para expor, sem entraves de espécie alguma, o meu ponto de vista no seu blog.
O 11 de Junho
Numa perspectiva mais nacional, também A Kathleen Gomes é um Boi comenta as tragédias associadas a dias 11.
Tic tac
Os resultados das eleições espanholas são trágicos. Não são trágicos pela reorientação à esquerda. Era o que faltava ouvir pessoas como o Daniel (instalado num movimento que colecciona partidos de génese anti-democrática – repare-se que falo de génese: até admito que hoje em dia sejam genuínos democratas) vir fazer lectures sobre aceitação de resultados eleitorais. Ainda militava o Daniel num partido estalinista e já eu defendia este sistemazinho que é capaz de lhe dar tantas alegrias. Calminha e respeitinho seriam coisas que lhe ficariam bem. Não é, portanto, a viragem à esquerda que é trágica: isso é assim mesmo, é a vida democrática. O que é trágico são as circunstâncias em que a mudança ocorre. Eu não me lembro de nenhuma eleição tão directamente influenciada por um atentado terrorista da gravidade deste. Até ao atentado a discussão em Espanha era sobre se o PP teria maioria absoluta ou não. Tudo mudou com as bombas.
Já aqui escrevi que a Europa poderá ser a grande cartada da al-Qaeda. Se os atentados de Espanha foram da al-Qaeda, a Espanha deu o pior sinal como resposta. Deu o sinal que eu receio o resto da Europa continue a dar. Cabe perguntar: que outras eleições europeias serão agora influenciadas por atentados do mesmo tipo? E a verdade é que, um dia depois das eleições, se multiplicam os que dão exactamente esse significado político aos seus resultados. A começar por Zapatero, cuja primeira primeiríssima promessa de governação, menos de 24 horas depois de se saber os resultados, é retirar as tropas espanholas do Iraque (é verdade que a promessa é antiga, mas porquê ser tão pressuroso a reiterá-la?). Se excluirmos a hipótese da mera coincidência, que outra resta? Continuando pelo Dr. Francisco Louça que afirma que este é o primeiro governo dos “quatro das Lajes” a “ser varrido”. Não foi um governo espanhol, com um determinado curriculum interno (e externo também) que foi afastado do poder. Foi um dos quatro “das Lajes” que “foi varrido”. Ora, a única coisa que une os quatro “das Lajes” é o apoio à guerra do Iraque. Não é preciso ser-se um génio político para se entender o sinal. E continua a mesma atitude pelo Barnabé, que reproduz e amplifica a reacção do Dr. Louçã.
Entretanto, vamos ter calma. O poder ensina muita coisa. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, ensina humildade. Pode ser que o PSOE no governo comece a entender o que está em causa. Pode ser… E é como diz o Pedro Oliveira, citando Lincoln, amanhã as coisas mudam. O problema dessa frase, Pedro, é que ela é circular e tu nunca sabes exactamente qual é o “tempo” em que “todas” as pessoas são enganadas. Será que foi agora? Já tiveste momentos mais felizes: usar essa frase, que descreve um sistema que acomoda vitórias que nos agradam e que nos desagradam, para manifestar alegria por uma vitória que nos agradou parece-me uma manifestação de incompreensão daquilo que a frase efectivamente significa.
Entretanto, para manter a cabeça limpa aconselho a leitura do Bruno, dos meus companheiros de feijoada “Fascista é a tua Mãe” (que são este, este e mais este ) dos Blasfémias e do Superflumina.
Domingo, Março 14, 2004
Who’re you gonna call?
Continuando a falar na presunção de que os atentados de Madrid possam ter sido da autoria da al-Qaeda, os mesmos motivos que levam qualquer criatura razoável a descrer da capacidade da Europa para reagir a uma onda de eventos semelhantes no continente levam a alimentar alguma esperança. Pode parecer um paradoxo mas não é. Porque a mesma estupidez e cobardia intelectual que nos dizem que não temos inimigos, que ninguém nos odeia só por sermos livres, que conduzem à reacção segundo a qual acontecimentos como este “são também causados por nós próprios”, que “temos de debater” mesmo se vítimas de ataques conduzidos por alguém que (através desses mesmos ataques) não demonstra a menor vontade de “debater”, que temos de “negociar” com quem mata e destrói prédios e comboios simplesmente por sermos quem somos e como somos; essa mesma estupidez e cobardia intelectual pode rapidamente transformar-se numa imploração à única entidade política capaz de enfrentar ameaças do mesmo género (i.e., os EUA) para que nos ajude. Podemos rapidamente passar do imbecilismo acusatório de hoje para outro imbecilismo acusatório que talvez nos salve. Isso pode acontecer no dia em que estivermos bem ajoelhados, com o rabiosque virado para Meca e a boca para Washington. Assumiremos então a pose da varina: mão na anca e voz estridente berrando “então e os amigos?”, “então não somos todos parceiros ocidentais?”, “é assim que nos defendem, é?”
Porque só os EUA têm os meios de nos ajudar: armas, diplomacia e serviços de informações. Nós não temos armas. E não tendo armas não temos diplomacia eficaz: a ideia mais abstrusa que por aí existe é a de que pode existir diplomacia sem suporte militar. E como não temos inimigos, não temos serviços de informações.
Alguém imagina que a chamada guerra ao terror seja conduzida pelos EUA unicamente através das armas? As armas são um elemento de uma multiplicidade de outras acções. E as armas funcionam como ilustração do que pode suceder a quem não se sinta convencido apenas com ameaças verbais ou outras: o sr. Khadaffi já percebeu, o sr. Assad parece dar sinais de que começa a perceber, os “mullahs” do Irão também.
O terror na Europa será a grande cartada da al-Qaeda. Eis aqui o elo mais fraco do Ocidente. Um continente próspero, livre e democrático que o é porque foi protegido pelos bárbaros americanos durante 50 anos. Mas que deixará de ser isso tudo quando os mesmos bárbaros deixarem de o proteger. Um continente próspero, livre e democrático mas afundado na mais profunda vergonha de si próprio, sempre pronto a atribuir-se a si mesmo a culpa do que lhe acontece. Se a cartada da al-Qaeda for bem sucedida será a própria Europa a pedir para deixar de ser protegida pelos EUA. Mas é como digo: pode ser ao contrário. Assim queira Deus, Nosso Senhor, queira Alá, e todos os deuses das mitologias escandinavas.
Sábado, Março 13, 2004
12/3: novas da frente
Escreve-nos de novo o Tiago Gandra, relatando o ambiente vivido nas manifestações de ontem em Madrid:
Madrid, 12-M: Encontro com seis manifestantes madileños num café perto da Plaza
Colon, ponto de encontro de mais de 2 milhoes de almas enregeladas pela chuva.
À mesa circulam teorias da conspiraçao sobre a autoria dos atentados e sobre a
ocultaçao de informaçao por parte do executivo de Aznar, proclamada também
pelos líderes do PSOE e da Izquierda Unida. Estudantes de medicina trocam
pormenores clínicos sinistros directamente vindos do seviço de urgências do
hospital La Paz, onde foram atendidas algumas dezenas de vítimas dos atentados.
Depois da concentraçao na Plaza Colon, começa a marcha lenta em direcçao à
estaçao da Atocha. Primeira parte do percurso em silencio pesado, ensaiam-se
algumas piadas deslocadas, sem grande efeito. À medida que a multidao avança, o
silencio dá lugar à crispaçao e ouvem-se as primeiras palavras de ordem. "En
ese tren íbamos todos", "No estamos todos, faltan doscientos". Entre outras
menos retóricas, "Hijos de puta", "Asesinos".
Plaza Cibeles, a meio do percurso. A multidao tem mais dificuldade em caminhar
em qualquer direcçao que seja. Um idoso em cadeira de rodas insiste com
familiares, debaixo da chuva intensa, que esta manifestaçao é para levar até ao
fim. Outra luta de geraçoes torna-se mais evidente entre o que gritam os novos
e os velhos. Os primeiros mais empenhados em fazer desta uma manifestaçao anti-
PP - "Esto es lo que pasa/Por tener un gobierno facha".
Horas depois a multidao empapada pela chuva incessante avista-se finalmente o
ground zero, estaçao da Atocha. O trágico torna-se mais presente e o silêncio
também, enquano a multidao coloca cartazes escritos à mao e inúmeras velas que
cobrem de cera o pavimento.
00:30 na Puerta del Sol, uma aglomerado espontâneo de dezenas de pessoas
rodeiam um homem que à luz da vela lê em ordem alfabética os nomes dos mortos.
Ao todo chama por 198 nomes, todos ausentes.
Rubrica "I Can't Walk, My Trousers Are 'Round My Feet"
O Comprometido Espectador inaugura hoje uma nova rubrica, a que ficará associado o prémio "A New Belt to Hold Your Trousers" E já temos o primeiro candidato. Os melhores excertos:
Os autores materiais e morais do 11 de Setembro e do 11 de Março comportaram-se como auto excluídos da comunidade moral humana. Nesse caso, tratar deles é fazer prevalecer os valores da comunidade moral humana e colocá-los na impossibilidade de prolongar o seu ritual de horror, sem lhes fazer o favor de os reduzir, pela pura violência e força arbitrária, a condição inumana que possa servir de bandeira ao seu martírio simbólico. Donde resulta que a melhor reacção ao horror destes massacres é extirpar de raiz as alegadas razões desse martírio.
Nesse sentido, é necessário envolver quem está vivo, esteja em Madrid, Nova Iorque, Lisboa, Gaza ou Bagdade, num esforço colectivo que vá ao fundo da questão. Esse empreendimento global corresponde ao tratar dos vivos exigido pela actual globalização do terrorismo e suas putativas justificações. A sua realização põe desde logo a questão de saber como enfrentar a acesa divisão que se encerra nos conflitos do Iraque e da Palestina.
De facto, a inclusão da invasão do Iraque na resposta ao 11 de Setembro é uma das mais funestas ideias do século no contexto do combate ao terrorismo.
O mundo está hoje menos seguro do que estava dois anos atrás. Inúmeras autoridades dos mais variados países, com especial relevo para os próprios Estados Unidos e Grã-Bretanha, vêm demonstrando que a ameaça terrorista à escala global não é vencível por meios essencialmente militares. Pelo contrário, o recurso maciço a intervenções militares pode mobilizar reacções terroristas a uma escala dificilmente controlável.
É o que está sucedendo em resposta à invasão do Iraque. É preciso repor a legalidade internacional sob a égide das Nações Unidas acabando com uma ocupação colonial reminescente daquilo que por essas partes do mundo as grandes potências fizeram no século XIX. Enquanto esse caminho não estiver consolidado a Al-Qaeda terá sempre motivações para espalhar a morte e o horror por todo o Ocidente.
E não é apenas no Iraque que se joga a possibilidade de romper o ciclo do terror e do contra-terror. Para esse efeito é imprescindível um acordo duradouro que ponha fim ao conflito Israelo-Palestiano.
Está aí a chave da paz autêntica entre todo o mundo islâmico e o chamado Ocidente. A convicção geral que dá força popular à Al-Qaeda é que os Estados Unidos apoiam quase incondicionalmente Israel, enquanto que a União Europeia pouco faz para alterar esse enviesamento. É fácil de ver que os fundamentalismos, tipo Al-Qaeda, são grandes beneficiários do comportamento dos Estados Unidos e seus aliados nessa zona do globo. Tratar dos vivos é acima de tudo corrigir com firmeza, ainda que gradualmente, esse comportamento.
[...]
Na actual conjuntura, Portugal é um dos países mais visados. Porque levianamente destacou forças para ocupar simbolicamente o Iraque e porque oferece ao terror organizado um alvo tão apetitoso como o próximo Euro 2004.
É preciso convocar desde já em benefício da segurança do Euro 2004 a reforçadíssima cooperação antiterrorista dos diversos países da União Europeia. E porque a caridade bem entendida terá de começar pela nossa própria casa, cabe tirar razão urgentemente às importantes falhas de segurança que vêm sendo denunciadas por várias entidades nacionais.
Sexta-feira, Março 12, 2004
Our turn?
Vamos então supor que a autoria dos atentados de Madrid é da al-Qaeda. Isso poderá significar que chegou a vez da Europa. Que este pode ser o primeiro de muitos episódios idênticos no “continente civilizado”. Já se ouviu por aí a muita gente dizer que é preciso “compreender” e “dialogar” para melhor eliminar o terrorismo.
Muitas vezes, os que lidam com problemas políticos são classificados de acordo com duas categorias: os “realistas” e os “idealistas”, estes normalmente mais dispostos a aproximações do tipo “compreensivo”. Na Europa dá-se o caso curioso de, em matéria de ameaças internacionais, ambos coincidirem. Pela razão simples de os europeus só terem à sua disposição uma forma realista de lidar com elas: dialogando. Onde estão os exércitos europeus capazes de punir Estados que alberguem terroristas? Onde estão os exércitos europeus capazes de desfazer duas bases do terrorismo internacional e, ao mesmo tempo, protegerem militarmente a construção do primeiro regime árabe decente no Médio Oriente – sem dúvida a melhor vacina contra o patrocínio do terrorismo fundamentalista? Onde estão? Não estão. Resultado: só se pode dialogar e negociar. Ora, qualquer negociação pressupõe trocas, concessões. O que é que nós europeus temos para conceder ou trocar? O que é que a al-Qaeda pede? É muito simples: a al-Qaeda não pede nada, o que quer dizer que pede tudo. Dito de outro modo: a al-Qaeda pede o Ocidente numa bandeja de prata. E é apenas isso que nós, europeus, temos para negociar e conceder: um bocado de Ocidente. Vamos a isso! Vai ser bonito de ver. E aqui entre nós que ninguém nos ouve: em certos casos e coisas não se perdia rigorosamente nada.
Da frente
Segue mensagem do José Luís Lencastre. Não é nenhum report. É um desabafo. O homem está lá na frente. Acho que merece o espaço:
Começa a circular a ideia de que o atentado terrorista de ontem foi perpetrado pela al–Qaeda, porque a ETA avisa e mais não-sei-quê... É preciso dizer, claramente e sem ambiguidades, que terrorismo é terrorismo, venha de onde vier. E que com terroristas não há diálogo possível, ao contrário de que nos querem fazer crer idiotas úteis, tipo Carod – Rovira ou Francisco Louçã.
É também sintomático que vários jornais e televisões, nomeadamente a BBC, não chamem à ETA um grupo terrorista, mas sim um grupo separatista basco.
Aos terroristas há que os perseguir, prender e julgar com a dureza máxima que a lei permitir.
Os partidos políticos suspenderam a campanha eleitoral, e hoje haverá manifestações em todo o país, convocadas pelo governo, com o seguinte título “Con las víctimas, con la constitución, para la derrota del terrorismo”
A de Madrid começa às 19h, na Plaza Cólon, e eu vou estar presente.
Quinta-feira, Março 11, 2004
Give me your tired, your poor...
Mais testemunhos portugueses do three-eleven:
Quem nos fala agora é o Tiago Gandra:
Sem querer fazer concorrência ao excelente trabalho do corresponsal oficial do
espectador, ponho ao dispor o meu relato destas últimas horas:
Estudante de erasmus em Madrid e a viver na calle Atocha, a uns 500 metros da
estaçao do mesmo nome, acordei às 08:30 com uma chamada de telemóvel. Com as
múltiplas sirenes das ambulâncias como fundo conforto a um amigo de Sevilla,
legitimamente preocupado uma vez que aquela estaçao faz parte do meu percurso
quase diario. A primeira de uma série de chamadas a oscilar entre a
preocupaçao, o pânico e a raiva (esta mais evidente entre os madrileños que
entre a comunidade erasmus, por supuesto).
À medida que o roda o contador das vítimas (neste momento 173 mortos e mais de
600 feridos), momentos de hipocrisia pouco elegante como a do Sr.Ibarretxe a
mandar "un abrazo de corazón de todos todos los vascos a las victimas del
atentado" (ou algo parecido) elevam o nojo a um nível maior.
Entretanto mudança de cenário para a cafetaria da faculdade de medicina, onde
os estudantes deambulam ente a consternaçao e a pura indiferença (que às vezes
me lembra o dia 11 de setembro de 2001, onde no meu café do costume se olhava
laconicamente para os noticiarios enquanto se jogava matrecos). Sítio ideal
para coleccionar depoimentos intrigantes como o do Miguel, que afirmando-
se "anarquista liberal de izquierda" (!) me garante "esos hijos de puta (ETA)
son todos unos fachos" (!!), o que fundamenta alegando nas escolas de Euskadi
os bascos pequeninos aprendem que o povo basco tem o sangue Rh-(!!!).
Com mais ou menos simpatia pelo Sr.Zapatero ou pelo Sr.Carod-Rovira (que
continua convencido que se o deixassem negociar em paz com os srs.etarras nunca
mais aconteciam coisas destas ), todos tencionam juntar-se à manifestaçao de
repulsa pelos atentados. A ver se entao é mais evidente o sentido de activismo
e cidadania que me parece invejável na sociedade espanhola. Contra o terror e
sem tréguas.
Notícias da frente
O director-subdirector-redactor-repórter-copydesk-estafeta e porteiro desta publicação está com muito pouco tempo, mas, fazendo jus à dimensão ibérica da dita, não gostaria de deixar de saudar a mais recente acção da "resistência" (atenção às aspas) basca com dois relatos embedded de Madrid (um é do já nosso conhecido correspondente). Apenas uma nota pessoal: conheço bem a Estação de Atocha, um espectacular exemplar da arquitectura do ferro, do outro lado do Paseo de Prado (salvo erro) em relação à Calle Atocha (onde outrora existia um local "de tapas" orgulhosamente chamado "Casa Luciano"). Trata-se do centro centríssimo de Madrid. Imagino o pavor.
Do Ricardo Sousa:
Chamo-me Ricardo Sousa e trabalho em Madrid, costumo ler o teu blog
(desculpa-me se te trato por tu mas aqui em Espanha é assim mesmo e além
disso somos mais ou menos da mesma idade). Sei que tens um corresponsal
mas, para o caso de ele näo te ter podido pôr a par do que se passa,
digo-te que aqui estamos todos em choque com a violência do que sucedeu.
Neste momento o Ministério do Interior fala em 62 mortos, mas väo ser
mais com certeza. As reacçöes dos políticos säo as do costume, com as
campanhas eleitorais suspendidas, para näo dizer terminadas. Mas näo
posso deixar de salientar Carod-Rovira que pede que "quem tenha
capacidade de decidir" dialogue com a ETA como forma de acabar com "esta
barbárie". Haverá um limite para para o cinismo?
Do José Luís (que pede que o seu texto seja lido como uma ironia):
A las 7:45 de la mañana se produjeron tres explosiones en la estación de Atocha, destrozando un tren de cercanías. Al mismo tiempo, en la estación de Santa Eugenia se producían otras dos explosiones. Por último, otro artefacto explotó afectando a la estación de El Pozo del Tío Raimundo. De momento hay 15 víctimas, aunque algunas fuentes dicen que esta cifra se puede disparar hasta los 50 muertos.
Foi com esta notícia que me deparei, hoje de manhã, quando cheguei ao trabalho e acedi à internet. E pensei para comigo: Os terroristas da ETA, os tais que estão a beneficiar o PP, como repetidamente tem alertado o PSOE, finalmente conseguiram levar a cabo uma acção, depois de tantas tentativas frustradas. Queres ver que agora é que o PP ganha mesmo as eleições? E que o PSOE, e com razão, vai contestar o resultado?
Depois, apercebi-me que um dos atentados tinha sido relativamente próximos do meu local de trabalho.(o bairro de Salamanca, está próximo da estação de Atocha) e não me contive: “Hijos de puta de ETA”
Chegaram mais colegas, tendo alguns deles passado pela estação de Atocha e cercanias, e descreveram-me a situação. È o caos total em Madrid!
Acho que vou pedir um subsídio de risco, joder hombre!
Quarta-feira, Março 10, 2004
José Luís de Madrid? Claro que sí!
Mais novas transfronteiriças, do nosso correspondente na capital do império espanhol:
A campanha eleitoral não tem tido novidades de relevo. Sucedem-se os comícios, os tempos de antena, etc. Enfim, o costume. Eu sei que a campanha eleitoral faz parte da liturgia da democracia, e que os projectos apresentados diferem bastante. O PP defende um projecto de centro-direita liberal, com provas dadas, e o PSOE .....não sei o que defende. Sorry.
Se não for Aznar a aquecer um pouco a campanha eleitoral, morre-se de tédio. Outro dia, num comício, disse, “levo oito anos e meio como presidente do governo, e conheci quatro dirigentes e meio do PSOE. De todos eles, este de agora é o mais insolvente de todos, sem dúvida nenhuma.”
Ou, como de uma vez em que lhe perguntaram por Zapatero. “Por aí anda”, foi a resposta displicente de Aznar.
Ainda sobre o Aznar, dia 8 deste mês deu uma entrevista ao “Le Monde”, que vale a pena ler, por referir, entre outros assuntos mais específicos de Espanha, as dificuldades que atravessam as relações na UE, e que pode ser lida aqui.
Ou então o Carod-Rovira (o tal que negociou com a ETA a paz na Catalunha), que se ofereceu como Ministro do Interior (cá o nome ainda é este), caso ganhe o PSOE, só para negociar com a ETA! Depois demitia-se. Garanto que isto é autêntico, basta consultar on-line qualquer jornal espanhol.
As sondagens desta semana, e são as ultimas que podem ser divulgadas, dão um avanço do PSOE, e a perda da maioria absoluta do PP. Mas sondagens são sondagens, e valem o que valem. Parece que aqui os erros de previsão, por vezes, têm sido estrondosos.
Man U, here's to you
Que tal a criação do Dia Internacional da Menina, em homenagem a 11 meninas que queimaram vivos dentro de um relvado 11 homenzarrões feios?
Terça-feira, Março 09, 2004
A "pena de morte"
Diz-se aqui que Arafat "decidiu" (servem as aspas para citar) restaurar a "pena de morte" (bem... aqui já não servem para citar: toda a gente sabe que há certas "coisas" que "não existem") na AP. Eu aprecio especialmente o "decidiu", conceito profundamente democrático, pelo menos à luz do fuhrerprinzip, em que a vontade do povo é suposta transubstanciar-se (tal qual como a hóstia sagrada) no corpo do fuhrer. E também gostava de saber de que forma a "justiça" será aplicada pelos "tribunais" locais.
Juro ter ouvido a muita gente dizer que "a fronteira que separa a civilização da barbárie é a da pena de morte". Talvez seja verdade no caso da pena de morte. Mas tudo é diferente quando se trata da "pena de morte". Aquilo não é bem pena, nem morte. Não é pena porque não se sabe o que castiga e não é morte porque quem a aplica acredita que há vida extraterrena. Eis aqui uma boa explicação para muito do que se passa por ali: afinal os "terroristas" palestinianos não usam plástico, mas sim "plástico", e não usam bombas, mas "bombas".
Afiança-nos ainda a mesma fonte que Arafat não terá também apreciado certas críticas que lhe foram dirigidas por um dos chefes policiais. Resultado: "decidiu" retirar-lhe o direito ao uso do carro. É capaz de ter havido aqui alguma precipitação: as críticas se calhar não eram bem críticas, mas antes "críticas". Ou talvez estivéssemos só a falar de um "carro"... Adiante.
Independentemente de outras considerações, tudo isto me parece uma forma admirável de resolver problemas. Na realidade, aquilo que é um problema pode facilmente ser convertido num "problema" e desaparece. Vistas bem as coisas, no fundo talvez seja essa a técnica ideal. Com jeitinho e muita "bomba", Israel poderá passar do estatuto de problema ao de "problema": basta que deixe de ser Israel e passe a ser "Israel" e tudo se resolverá a contento.
Segunda-feira, Março 08, 2004
Tenho um míssil balístico apontado contra mim
É por demais conhecido que a presidência Bush é um coito de conspiradores. Mas o mundo pode ainda não ter visto tudo. Eis aqui mais algumas informações obtidas em primeira mão por este vosso criado:
Sabia que George W. Bush baixou os impostos para que as companhias petrolíferas e as grandes empresas pudessem oprimir os iraquianos?
Ou que George W. Bush falsificou as eleições de 2000 para que Ann Coulter e a "Christian Coalition" pudessem matar os muçulmanos?
Ou ainda que George W. Bush mandou prender Michael Jackson para que os judeus, as empresas petrolíferas e Rush Limbaugh pudessem conquistar a França?
Ou mesmo que George W. Bush permitiu que o 11 de Setembro acontecesse para que os judeus, as grandes empresas, as companhias de petróleo, os Republicanos, Rush Limbaugh, Ann Coulter, os homens brancos, a "Christian Coalition" e os portadores de armas pudessem assassinar as mulheres?
Ou então que George W. Bush ainda não capturou Osama bin Laden para que os judeus, os homens brancos e os portadores de armas pudessem oprimir os beneficiários do "welfare"?
Tudo isto eu soube graças a um amigo dedicado, que me enviou o endereço deste site, onde podes encontrar estas e outras conspirações (incluindo a tua própria).
Domingo, Março 07, 2004
Toxicodependentes Anónimos
Um mês sem ler o Expresso, uma semana sem ler o Público (and counting...)
Banana Split again
Eu sei que o homem não é propriamente um génio, mas...
(para quem não saiba, John Kerry é senador pelo Massachusetts):
"The candidates [to the Democratic primaries] are an interesting group, with diverse opinions - for tax cuts and against them, for NAFTA and against NAFTA, for the Patriot Act and against the Patriot Act... And that's just one senator from Massachusetts"
George W. Bush, 23/2
Sexta-feira, Março 05, 2004
Comic strip
Descreve-nos, hoje, o André Belo uma utopia. Um pouco incompleta: faltou-lhe acrescentar que, àquele saudável quotidiano, Gainsbourg (por vezes com a ajuda do arfar de Jane, por vezes com o de B.B) somou a melhor música pop francesa do século XX e da melhor música pop de sempre. Do final dos anos 50 a meados dos anos 70 brotaram daquela cabecinha algumas das mais fantásticas ideias musicais que a nossa terrinha alguma vez conheceu. Daí para a frente, talvez por causa da propulsão a álcool com que a utopia era alimentada, sobreveio um período menos inspirado. Mas o mundo já tinha visto nascer (sem pretensões a exaustão, é o que me vem assim à memória): "Le poinçonneur des Lilas", "Chez les Yé-yé", "Bloody Jack", "Docteur Jekyll et Monsieur Hyde", "New York, USA", "La Décadanse" e tantas outras, a que apenas juntaria o meu personal best: "Bonnie and Clyde", "69, Année Érotique", "Comic Strip"e "Je T'aime, Moi non plus".
Outro dia fui ao cinema ver uma coisita um bocadito para o lamentável chamada 21 Gramas, de um rapaz mexicano a quem deram a tradicional oportunidade de Hollywood. As duas únicas coisas dignas de menção no dito são as namoradas de Sean "look how good an actor I am, so much so that I even won the Oscar" Penn: Naomi Watts e (imagine-se) Charlotte Gainsbourg. Quase me vieram as lágrimas aos olhos. A moça é engraçadinha, embora não seja grande actriz. Mas é uma criação de Gainsbourg: só pode merecer a minha reverência.
Quinta-feira, Março 04, 2004
Alta literatura
Ui J, que elegância... Mas convém reconhecer que pelo menos numa coisa continuas a ter razão: não te consegues mesmo calar.
O silêncio é de ouro
Ora, se não é o meu amigo J... Estás bom, pá? Acho que não te importas que te trate assim, já que foi com a mesma familiariedade que me trataste há algum tempo, sem me conheceres de lado nenhum. Se bem me lembro, pá, foi a propósito de uma conversa sobre Israel em que, já na altura, revelaste duas coisas que (há que ser justo) pareces ter em abundância: ignorância e má-educação. Agora, lembraste-te de me chamar salazarista. Dizes que não conseguiste ficar calado com qualquer coisa que leste por aqui. Hmmm... parece-me que estamos a chegar ao teu problema principal: não consegues ficar calado.
Alka-Seltzer e Orlando Figes
Oh meu querido amigo Daniel... Então ficaste agoniado com as minhas comparações? Apenas um conselho desinteressado: primeiro toma um alka-seltzer, depois, em vez de escreveres tantos posts, senta-te a ler um ou dois bons livros de história do século XX. Vais ver que te passa logo a agonia.
Quarta-feira, Março 03, 2004
A conversa agora é outra
Os atentados de ontem no Iraque são dramáticos. Mas, para quem não tenha reparado, o seu significado tem vindo a mudar. Antes, os atentados aparentavam ser obra da “resistência” (entre aspas – é cá uma mania minha e do Alberto) à “ocupação” (ooopps…) americana. Agora são dirigidos ao maior grupo étnico-religioso do país. Só não vê quem não quer: no Iraque as coisas essenciais para o funcionamento da economia e da sociedade vão correndo bem (com inevitáveis dificuldades). Para além disso, prepara-se a transição de poderes, com a assinatura até de uma constituição interina. O “terrorismo de atrição” (os pequenos atentados, todos os dias, contra soldados americanos) está a desaparecer, para dar lugar a acções maiores e mais espectaculares, contra iraquianos. Tudo isto é sinal de uma coisa: a guerra acabou mesmo. Agora estamos já no pós-guerra e na reconstrução. Mas não vale a pena achar que vai ser fácil. Para o provar, aí estão os atentados de ontem. A que há que acrescentar o pessoal que, cá nas nossas terrinhas (de John Kerry para baixo), há-de continuar os seus simpáticos esforços para dificultar o que já era difícil. Direi mesmo, agora é que entrámos na parte mais difícil: a construção de um regime político decente e consensual.
O ovo da serpente
Entretanto, assisti ontem pela televisão a um evento lamentável. Um determinado deputado nacional (do agrupamento político que aglomera vários partidos comunistas, trotsquistas, maoístas, pró-albaneses, etc., etc.) apareceu a brandir um artigo de Paulo Portas de 1982, em que ele defendia a despenalização do aborto. Eu quero lá saber de Paulo Portas: é um mau ministro de um governo péssimo (se me estás a ler, sorry Paulo Pinto Mascarenhas). Agora, um trotsquista qualquer (como se alguém pudesse ser membro de um partido “goebbelsiano” ou “himleriano” e, ao mesmo tempo, ser considerado respeitável), que faz parte de um partido que faz parte de um amontoado de partidos anti-democráticos (alguém julga que lá porque Trotsky foi morto por Estaline seria diferente dele; enquanto viveu não só não foi diferente como foi até muito pior – faltou-lhe foi a oportunidade para chegar onde o outro chegou), trazer aquele papelucho escrito há vinte anos como se fosse de algum interesse para o que quer que seja. Aquilo a que assistimos foi algo do mais sinistro que me foi dado observar em política ultimamente: o desprezo absolutamente gélido pelo adversário, por certas convenções que mantêm os sistemas democráticos, o abandono de um mínimo de cortesia que também é crucial para que nos entendamos por muito que os nossos pontos de vista divirjam. Tudo isso destruído na satisfação rasteira de um exercício da mais baixa política. Que o dito trotsquista o faça nem sequer me surpreende muito, agora que ninguém ache a coisa repugnante é que já me preocupa mais.
Hããã?
Eis John Kerry a 22 de Janeiro de 1991, em carta dirigida a Wallace Carter, de uma organização chamada Newton Center:
"Thank you for contacting me to express your opposition to the early use of military force by the US against Iraq. I share your concerns. On January 11, I voted in favour of a resolution that would have insisted that economic sanctions be given more time to work and against a resolution giving the president the immediate authority to go to war."
Eis John Kerry a 31 de Janeiro de 1991, em carta dirigida a Wallace Carter, de uma organização chamada Newton Center:
"Thank you very much for contacting me to express your support for the actions of President Bush in response to the Iraqi invasion of Kuwait. From the outset of the invasion, I have strongly and unequivocally supported President Bush's response to the crisis and the policy goals he has established with our military deployment in the Persian Gulf."
Já sabíamos que Kerry era um banana. Agora ficámos a saber que é um Banana Split.
Terça-feira, Março 02, 2004
Outra vez o Mel
David Frum, merecedor da nossa eterna estima pela criação do conceito de "Eixo do Mal", discute hoje profundamente, com leitores da National Review, a questão d'A Paixão de Cristo e do anti-semitismo. A conversa terá sido desencadeada por uma crónica de 29/2. As reacções e a crónica estão aqui. É tudo um pouco longo, mas quem se quiser ilustrar um bocadinho não dará o tempo por perdido.
Colores primários
Mais um despacho de Madriz, do correspondente José Luís Lencastre:
Segundo uma sondagem publicada pelo jornal ABC, este Domingo, o PP está a beira de uma nova maioria absoluta.
A sondagem, realizada entre os dias 10 e 25 de Fevereiro, dá aos populares uma margem entre 174 e 177 deputados, o que dá uma percentagem de 42,2 %. Com este resultado o PP estaria com menos 6 a 8 deputados dos 183 alcançados por Aznar em 2000 (44,5%). De qualquer modo, mesmo não conseguindo a maioria absoluta (176 deputados), podem sempre governar com a “Coalición Canaria”, como de resto o fizeram no 1º governo de Aznar. E por referir Aznar, não é por acaso que, tanto a revista Time, como o jornal Times, nos últimos dias, lhe façam os maiores elogios, pela forma como ele, e o seu governo, conseguiram tornar Espanha numa das histórias de êxito da Europa
O grupo terrorista ETA tentou executar um novo atentado, o que, a ter acontecido, seria o maior de sempre. 500 quilos de explosivos causariam danos num raio de 1500 metros. Mais uma vez os terroristas da ETA contrataram amadores para executar o atentado. Recorde-se que na véspera do Natal de 2003, também foram capturados 2 membros da ETA, em part-time, (um era desenhador, o outro professor). Isto revela a debilidade a que chegou o referido grupo, muito devido à firmeza deste governo. E é claro que assim nenhum governo está na disposição de negociar o que quer que seja. O senhor Carod Rovira (ERC) é que deve estar satisfeito. De facto, conseguiu negociar a paz na Catalunha, só na Catalunha.
Mas, mesmo que o futuro governo do PP decida negociar mais autonomia com bascos, catalãos e tutti quanti, não me parece que seja benéfico para as ditas autonomias, senão vejamos:
O catedrático Mikel Buesa apresentou um estudo titulado “ Economía de la secesión. El proyecto nacionalista y el País Vasco”. É um estudo que descreve as repercussões negativas no País Basco no caso de os seus governantes virarem as costas ao resto de Espanha, e no qual participaram 16 professores de 4 universidades. (Complutense, Cantabria, Valencia e Rey Juan Carlos.)
As principais conclusões a que chega o referido estudo são as seguintes:
PIB – Pode reduzir-se até uns 20% menos, devido aos custos que traria o estabelecimento de fronteiras, tanto para separar de Espanha, como do resto da Europa.
Emprego .- O desaparecimento de mais de 178.000 postos de trabalho, o que pode levar a taxa de desemprego para cima dos 29%
Empresas – 55% das empresas consideram prejudicial o plano Ibarretxe. 25% estuda a hipótese de abandonar o País Basco.
Pensões de reforma – O deficit seria multiplicado por 13 no ano de 2010. O sistema de pensões, no País Basco, não é sustentável sem a solidariedade do resto de Espanha.
Moeda – A independência obrigaria o governo basco a abandonar o euro e a criar uma nova moeda. Os custos anuais, por operar com uma nova moeda, seriam equivalentes a 1% do PIB.
Comércio - O comércio do País Basco com o resto de Espanha é 16 vezes mais que com os restantes países do mundo, de modo que dificilmente poderão prescindir deles.
Creio que este estudo, idóneo e independente, mostra bem o muito que por aí anda de ambição do poder, misturado com demagogia e utopias serôdias.
Ora aqui está uma boa ideia:
I'm not saying every benefit recipient is a terrorist welfare queen. I am saying that the best bet at saving the next generation of Susan Moores is if the US declares European welfare systems a national security threat.
O resto está aqui.
Segunda-feira, Março 01, 2004
A sopa do Mel
A Paixão de Cristo não passará nas salas de cinema francesas (v. aqui). É o chamado savoir faire francês, já anteriormente revelado no caso dos (como eles dizem) “sinais religiosos ostensivos”.
Não vi o filme (nem sei se vou ver: Mel Gibson não é certamente a minha chávena de chá). Também não sou suficientemente versado nos Testamentos para emitir mais do que umas trivialidades dispensáveis. Simpatizo com Israel, por razões que nada têm que ver com a religião. A histórica perseguição de judeus em países cristãos merece-me o maior contristamento (embora a perseguição de cristãos noutras circunstâncias históricas e geográficas também mo mereça). Não sei se o filme realmente apresenta a versão mais anti-judaica na responsabilidade da condenação à morte de Jesus. Mas, face ao pouco que historicamente com rigor se sabe, há responsabilidade de judeus (o que não é o mesmo que Os Judeus – afinal o próprio Cristo era judeu) no evento. Eis uma evidência que não requer qualquer posição de princípio. Se o filme adoptar este olhar sobre o assunto, em que se denunciam pessoas e não grupos, a histeria em seu redor parece-me injustificada.
De resto, sempre me pareceria injustificada. Afinal, estamos a falar de uma produção de Hollywood, a maior fábrica de desrespeito pela verdade histórica que existe à face da terra. Digo isto sem crítica: um filme não é uma obra histórica, que tenha de seguir preceitos científicos. Mas já vi muito disparate (e muito disparate ideologicamente muito perigoso) em muito filme de Hollywood.
Digo o seguinte invocando os meus pergaminhos de apoiante israelita e agnóstico observador das manifestações religiosas: o vitimismo pavloviano de muitos judeus também farta. Tal como noutros casos de vitimismo, tanto chamar de atenção para a desgraça própria banaliza-a. Tanto chamar de atenção para a desgraça própria pode até alienar os melhores amigos. Por favor, chorem menos e pensem nisto.
Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004
O capuchinho e a loba má
Uma das heroínas do “novo” feminismo, Naomi Wolf, escreveu recentemente um artigo onde acusava um antigo professor seu, o famoso crítico literário Harold Bloom, de assédio sexual. Tudo se terá passado nos anos 80. Wolf era então uma jovem estudante universitária, Bloom uma celebridade internacional. O dito assédio terá constado de uma mão de Bloom na coxa de Wolf. Desconheço se esta última peça anatómica é realmente irresistível ou não, uma vez que só vi fotografias de Wolf do pescoço para cima. Mas admitindo que era irresistível, cumpre notar que o episódio teve lugar a sós, à noite, em casa de Wolf, depois de esta ter convidado Bloom a entrar. Exactamente o que é que cada um pretendia quando entrou naquela casa? Não sei muito bem. Que sinais deu Wolf a Bloom ao longo do episódio, e vice-versa? Também ignoro. Imaginemos que Bloom se convence ao fim de algum tempo de que aquilo era “mesmo o que parecia”. Lá lança a patucha. Francamente, não me parece boa ideia, dado o estatuto institucional de cada um. Mas, quiçá, dali não poderia nascer mais uma clássica história de amor entre professor e aluna.
Seja como for, o que importa é o que passou a seguir. Será que Wolf repeliu a mãozorra de Bloom? Se sim, o que fez ele? Retirou-a e pediu desculpa? Teve o episódio consequências directas para a carreira estudantil de Wolf? Ela diz que sim. Que desde esse dia entrou numa espiral descendente na qual ainda vive. Note-se que desde esse dia, Wolf teve uma excelente carreira académica, uma excelente carreira de articulista, uma excelente carreira de autora de livros, um casamento feliz (na confissão da própria), dois filhos e uma bela conta bancária. Será certamente um novo conceito de “espiral descendente”. Daqui resulta uma ideia triste: como este “novo” feminismo, que parecia liberto da velha conversa “vitimista” do feminismo de antanho, volta a colocar tudo no ponto de partida. Ou talvez mais atrás: antes do ponto de partida. A mão na coxa destruiu a estrutura mental da senhora? A isto não se chama vitimização. Chama-se histeria.
Ler também este artigo de uma senhora um pouco mais calma.
Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004
Ainda a Espanha: glamour
A 1 de Fevereiro de 1908 D. Carlos Fernando Luís Maria Victor Manuel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão de Bragança Sabóia Bourbon Saxe Coburgo Gotha, 32º rei de Portugal, 18º rei dos Algarves de aquém e de além-mar em África, senhor da Guiné, da conquista e da navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia e grã-cruz das Ordens Militares, caiu assassinado em pleno Terreiro do Paço. E assim acabava a monarquia em Portugal. É verdade que ainda houve mais um rei, D. Manuel II (o sobrevivo – ainda que ferido – do atentado de 1908), mas apenas por dois anos e em regime de morte ambulante.
Perante isto, esqueçam as conversas sobre a superioridade espanhola. A nossa monarquia ao menos acabou em grande estilo, com balas e sangue. A de Espanha vai acabar às mãos de uma antiga apresentadora de telejornais. Daqui não se espere glamour. É que o sexo (não sei se repararam) já não tem glamour. Aquilo que vamos ter, na morte da monarquia, será apenas o relato burocrático e multitudinário (nalgum tablóide) da animação da(s) alcova(s) reais.
A península das oportunidades
Estou com o nosso primeiro-ministro: "a Espanha não deve ser vista como uma ameaça, mas como uma oportunidade". E para prová-lo, cá está o nosso correspondente no coração da península, com mais uns faits-divers no aquecimento para as eleições. É belo ver a Espanha una a desagregar-se ao sabor das alianças necessárias para manter o poder central:
Certamente os leitores deste blog, que leram o meu anterior post, em que no final dizia que o PSOE iria afirmar que há um pacto entre a ETA e o PP, devem ter pensado que estava a exagerar, ou que era excessivamente faccioso. A realidade quase sempre ultrapassa a ficção, e então a realidade política ultrapassa tudo e todos. Deixo, por isso dois pequenos apontamentos:
- O socialista José Blanco (braço direito de Zapatero nesta campanha eleitoral) entrevistado na televisão, a propósito de uma queixa que irá apresentar contra a TVE, por suposta manipulação de informação desta, aproveitou o tempo de antena que lhe foi dado para insultar Mariano Rajoy, o que vindo de quem vem é normal, acusando ainda o candidato popular de que “hay ayudado a ETA a entrar en campaña para ganar un puñado de votos”
- O presidente da Junta da Extremadura , Rodríguez Ibarra, destacado elemento do PSOE, declarou que Pasqual Maragall deveria retirar do seu governo todos os elementos do ERC, e não só o seu líder Carod-Rovira. No entanto, 2 dias depois, em entrevista à televisão, apoia incondicionalmente Zapatero, dizendo que fez muito bem em não impor a sua autoridade na Catalunha, o que acabaria com o pacto PSC-ERC. Mas isto é o menos, disciplina partidária oblige. O que não quero deixar de partilhar convosco é este raciocínio brilhante, que mais adiante expôs: o comunicado da ETA (transcrevo)“ha logrado que recupere el habla (refere-se a Mariano Rajoy), después de de 16 dias, y eso es porque electoralmente le interessa el assunto ETA”. Pelo que conclui: “ si a Rajoy le beneficia el asunto de ETA, todo aquel que vote a Rajoy está beneficiando a ETA”. Comentários para quê?
Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004
Óleo e comida
A cada dia que passa parece confirmar-se: existia até ao repugnante blitzkrieg aliado no Iraque um belo esquema de enriquecimento de um grupito avulso de criaturas, sob os auspícios das angelicais Nações Unidas. Esse esquema recebeu o nome de “Oil-for-Food Programme” e destinava-se, em teoria, a evitar as piores situações de escassez no tempo das sanções. Ao que parece, destinou-se, na prática, a criá-las e agravá-las, enriquecendo ainda mais o homem do buraco de ratazana e alguns amigos. Não bastava a burocracia humanitária paga aos milhões. Não bastavam as reuniões, comissões e assembleias que nada decidem. Não bastavam aqueles soldados com uns capacetes apatuscados que vão para os mais diversos sítios em “missões de paz” para assistir a massacres ou fugir quando as coisas pioram, parece que afinal a ONU também patrocina a criatividade. Nomeadamente, a criatividade na contabilidade. Compreende-se. É por uma boa causa: a contabilidade é uma coisa tão chata que convém torná-la criativa. Mesmo que mais uns milhões fiquem sem comida ou um tirano não saiba já muito bem o eu fazer com ela. Detalhes? Aqui.
Na Europa, o Carnaval é quando um homem quiser
Parece que a União Europeia ajuda a causa do povo da Palestina. Sim, com dinheiro, e não apenas apoio moral. O dinheiro é entregue directamente à Autoridade Palestiniana. Dados os ínfimos níveis de corrupção desta e a geral boa-fé do líder dos 50 massacrados em Jeningrado, adensa-se a ideia de que muita da rapaziada do plástico ande a beneficiar do metal. Não faz mal, é Carnaval, e tudo isto é banal. São apenas bombas que cheiram mal. E, no fundo, Carnaval é quando um homem quiser. O dinheiro veio do meu (literalmente meu) bolso? Umas largas centenas de israelitas morreram no último ano graças (também) à minha contribuição para o orçamento comunitário? Resta-me agradecer ao Senhor Solana e Cia. o privilégio. Quais guerra no Iraque quais quê!!! Isto sim é contribuir para o progresso no Médio Oriente.
Esta e outras histórias graças aos blogs europeus e ao excelente Denis Boyles.
Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004
Joder, esto si es un corresponsal!
Vivem-se na (por enquanto) Espanha una eventos momentosos.
Demonstrando o acerto da contratação de Rossé Luís Liencastre para correspondente do Espectador em Madrid, eis mais um relato seu dos eventos do dia, merecedor de leitura atenta:
Os jornais de hoje (ABC, El Mundo e El Pais) apresentavam todos na 1ª página a notícia do pacto que ETA fez com Carod-Rovira , líder do partido Esquerra Republicana de Cataluña (ERC), no sentido de não cometerem atentados na Catalunha, e que foi ontem divulgado pela ETA, através da televisão pública do País Vasco.
Tudo começou quando o diário ABC, em 26 de Janeiro, informou, em exclusivo, sobre as negociações entre Carod-Rovira e a ETA. O próprio apressou-se a confirmar tal reunião, mas invocou que a mesma se destinou para pedir a paz em Espanha, e não só na Catalunha. Em contrapartida o lider de ERC fez uma declaração a favor do “direito do povo vasco à autodeterminação”.
A divulgação deste pacto pela ETA, neste momento, veio causar graves problemas ao PSOE; não nos esqueçamos que o Partido Socialista da Cataluña (PSC) está no governo graças ao acordo que tem com ERC.
Pasqual Maragall, líder do PSC, deu 24 horas à ERC para resolver este assunto, que seguramente passará com a saída de Carod-Rovira do governo. Mas quanto à coligação, tudo se mantém, por supuesto, hombre!
Rodriguez Zapatero lider do PSOE, depois de se pronunciar contra o acordo, acusou o PP de tentar utilizar eleitoralmente o comunicado da ETA.. Isto porque o presidente do Governo, Aznar, recordou que o pacto anti terrorista que subscreveram PP e PSOE em 2000 não se compadece com o acordo existente na Catalunha entre o PSC e a ERC
Bom, a procissão ainda vai no adro, e muito ainda está para acontecer, por isso não me admiraria nada que, no final, mais uma vez, se venha a verificar a teoria da cabala, da conspiração e não sei mas quê e o PSOE venha dizer que o que realmente se está a passar, e a prejudicar o normal funcionamento das instituições democráticas etc., etc (a música é a mesma em toda parte) , é um acordo secreto que existe entre a ETA e o PP!
Cá estamos para ver.
Não repararam na novela?
Ambos dissertam sobre o mesmo tema. Ambos usam a mesma metáfora. Um, diz-nos que “o país quer circo e hoje dois espectáculos estão garantidos: o da política com Santana Lopes e o do futebol com o Euro. […] Muito circo, pouco pão”. O outro, “não consigo fugir à moral desta história de circo onde falta o pão”. Um defende a candidatura de Cavaco no Diário da Manhã da Esquerda Nacional, o outro é da Esquerda Nacional e escreve no Boletim de Candidatura de Cavaco à Presidência. Será possível interpretar estas coincidências? Eu, muito francamente, não sei o que dizer.
Chacrinha continua animando a dança
Parece que se demitiram três assessores de Gilberto Gil. Devem ter sido o percussionista, o teclista e o baixista.
Helena Roseta, a videastia e o deslumbramento dos lugares
Eduardo fala-nos hoje da Casa dos Dias da Água, um “lugar” que é um “deslumbramento”, e onde terá participado num colóquio sobre “a obra e o processo de criação”. Reuniram-se pessoas de vários tipos, “poetas, críticos, psicanalistas, psiquiatras, gente de teatro, fotógrafos, videastas”. Vide-quê? Ouve-se, legitimamente, perguntar. Étimos é coisa mais para a Charlotte, mas se bem identifico a origem da palavra, parece-me que a “videastia” se deverá contar entre as piores perversões sexuais. Adiante, cada um sabe o que fazer com os seus vídeos. Mas parece que algo ameaça a continuidade destas actividades na dita casa, o que leva Eduardo a perguntar-se se não será “possível fazer alguma coisa por um lugar tão deslumbrantemente assim?”
Talvez. E há bons exemplos disso mesmo. Repare-se noutro “lugar tão deslumbrantemente assim”, o Partido Socialista. Já sabemos, a coisa vai mal. Vai daí, um conjunto de militantes ou próximos decide juntar-se num “Clube” a que deram o nome de “Cidadania e Liberdade”. É bonito, o nome. E acresce ter motivos nobres, nomeadamente, o de combater o “afunilamento da vida partidária”. E quem pretende perseguir tão digno objectivo? As seguintes pessoas: Helena Roseta, Ana Benavente, Manuel Alegre, Alberto Martins, João Cravinho, Vera Jardim, Medeiros Ferreira, Jorge Lacão e Jorge Strecht. Eu tenho a certeza que isto não corresponde ao “afunilamento da vida partidária”, pela razão simples de que Manuel Alegre, Vera Jardim ou Jorge Lacão são eles próprios o “funil” de que falam, daqueles de latão com mossas e tudo. E doutra coisa tenho a certeza: são eles os protagonistas mais justos para que o PS continue a ser um lugar “tão deslumbrantemente assim”.
Quarta-feira, Fevereiro 18, 2004
Felizmente pouco intermitente
Entretanto, esqueci-me de dar os parabéns ao Miguel pelo primeiro aniversário do (felizmente pouco) Intermitente. A seguir àqueles três gajos, o Miguel era o gajo que eu primeiro espreitava nas minhas primeiras visitas blogosféricas. Era sempre reconfortante ter a jornada pontuada por pensamentos do dia tirados da obra do one and only, lord, master and commander of us all, His Highness Friederich A. von Hayek.
Rumsfeldiana
Eis, via Jay Nordlinger, mais uma das muitas contribuições de Donald Rumsfeld para a clarividência do debate político:
Just when I think I like Donald Rumsfeld a little too much — that I've gone a little bit overboard — something occurs that makes me think, "No, actually — I may have undervalued him."
One of the beautiful things about him is that he refers to the West Bank and the Gaza Strip as "the so-called occupied territories." (For all I know, he uses "Judea" and "Samaria" when doors are closed!) But I'm thinking now about something else. At the recent conference in Munich, Rumsfeld was asked why the United States doesn't make a fuss about Israeli nuclear weapons. We're supposed to be against nukes, right? Why don't we go after Israel?
Replied the secretary of defense: "You know the answer by yourself, and the whole world knows the answer. Israel is a small country with a small population. It is a democracy, but exists among neighbors who want to see her in the sea. Israel has made it clear that she does not want to be in the sea, and as a result, over several decades, has organized in such a manner as not to be thrown into the sea."
Savor it now, ladies and gents, for we will probably never — ever — see the likes of this fellow, in an office this key, again.
Dispatch from Madrid
Inicia hoje a sua colaboração, tão ansiosamente esperada, o nosso correspondente em Madrid José Luís Lencastre. O José Luís (Rossé Luíss, em espanhol) faz uma pequena nota com toque humorístico, que nos devolve ao ambiente de pré-campanha no país vizinho:
O bom do Zapatero quer tanto ter um debate televisivo com o Mariano Rajoy que se propôs, através do coordenador da sua campanha (José Blanco), dar a uma ONG 50% do orçamento da sua campanha eleitoral. O orçamento da campanha é de 10,5 milhões euros, pelo que o donativo seria de 5,25 milhões de euros. O engraçado da questão é que veio logo um colaborador do dito senhor Blanco dizer que não era bem assim, porque havia gastos que não se podiam cortar, e mais isto e mais aquilo, e então ficava o dito donativo em 1,95 milhões de euros. Além disto ser tudo propaganda eleitoral para deitar poeira para os olhos de alguns eleitores, é para mim óbvio que ao Mariano Rajoy não lhe interessa nada um debate televisivo com o Zapatero. Este não tem nada a perder, e todos sabemos que os debates em tempo de eleições são uma algaraviada em que o que interessa é esmagar o adversário a qualquer custo. E depois vem a questão da fotogenia em TV (desde o célebre debate Nixon vs Kennedy que os directores de campanha sabem o que é isso) e aí o Zapatero (o bambi, como lhe chamam os comentadores do ABC) teria alguma vantagem sobre o Mariano Rajoy.
Mas a pré campanha do PSOE também começou com flamejante logotipo, ao estilo das campanhas dos EUA, ZP (Zapatero Presidente), que se prestou ao maior dos gozos pelos comentadores do ABC. Desde logo Zapatero perde até uma série de outras hipóteses para o significado da letra p, algumas delas bem forte. E o vice primeiro ministro, Rodrigo Rato, no Domingo, na reunião de apresentação das listas do PP, referiu-se sempre ao Zapatero por ZP.
A long, long time ago
Há muito, muito tempo (um ano?) encontrei-me como o meu amigo Miguel Maduro no restaurante do local onde ambos à época trabalhávamos. Diz-me o Miguel: “já viste esta coisa dos blogs?” Ao que lhe respondi que “sim, já tinha visto”, e que achava graça “àqueles três gajos” (percebam o carácter coloquial do vocabulário, é conversa de hora de almoço). “Não conheço nenhum dos gajos”, disse eu, “mas acho piada às coisas que um deles escreve n’O Independente”. “Eu conheço um dos gajos”, disse o Miguel. “Um tipo muito esperto”, concluiu. E perguntou a seguir: “não queres abrir um blog?” A minha resposta foi: “Assim de repente, não sei, nunca me passou pela cabeça”. E o Miguel: “Vamos a isso. Tu deves ser bom para aquilo, com a tua arrogância intelectual”. “Arrogância intelectual??!!”, “Eu??!!”. Enfim, não se pode considerar um grande elogio, mas se era bom para blogs, tudo bem, era bom para blogs.
Os meses passaram, não abríamos o blog e eu cada vez mais viciado na leitura “daqueles três gajos” e mais algumas coisas que gravitavam pela blogosfera. Comecei eu a ter vontade de o abrir. Só que ao Miguel, entretanto, correu-lhe bem a vida (não vos digo qual foi o último carro que o vi a conduzir) e deixou de ter disponibilidade (e mesmo possibilidade) de fazer uma coisa semelhante. Entretanto, sigo on-line o fim “daqueles três gajos”. E falo com o Miguel. “Olha”, diz-me ele, “se queres saber mais fala com o gajo que eu conheço. Tens aqui o telefone”. Falei com o gajo e (para além de outras coisas que não divulgo) ele encorajou-me a abrir um blog. Coisa que fiz. Entrei para este mundo sem conhecer ninguém, excepto o tal gajo e um célebre itálico do Blog de Esquerda. Durante muito tempo senti-me completamente sozinho neste meio, apesar das recepções simpáticas que outras pessoas logo na fase inicial me foram fazendo, em particular os irmãos Noronha. Mas, se queria um ombro blogosférico, era para o tal gajo que me virava. E assim foi durante meses. Entretanto, muitas coisas mudaram. Na minha vida, em especial. O tal gajo não sabe, mas ele foi um dos meus padrinhos blogosféricos, não só por me ter aconselhado a abrir o blog, mas também por ser aquele amigo que te leva a um bar esquisito pela primeira vez e tu ficas à espera que te diga os segredos da casa. Entretanto, autonomizei-me do padrinho. Mas não esqueço esses momentos iniciais desta minha carreira. É por isso que me entristece a partida do Pedro Lomba do meio para o qual entrei, em boa parte, por sua causa. Um abraço e vamo-nos vendo por aí.
Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004
The first cut is the deepest
Eis aqui uma bela história, com várias coisas a ensinar:
1) O número diário médio de visitas ao meu blog é idêntico (ligeiramente superior, vá lá) ao de um blog de adolescente americano. Considerando que ainda não abandonei completamente aquele ciclo da vida, sinto-me recompensado;
2) Como a blogosfera pode vir a salvar a juventude (tomem-me como exemplo!), especialmente dos disparates aprendidos da boca de muitos professores de liceu. O problema é quando alguns desses professores de liceu (os que ainda são e os que deveriam continuar a sê-lo) abrem os seus blogs...
Quinta-feira, Fevereiro 12, 2004
O Portal Místico
Entretanto, enquanto as energias cómicas (ou será cósmicas?) se concentram no desenterramento das pérfidas armas de destruição de Babilónis, o evanescente Principal do Quadrante 9, as Forças do Bem planeiam uma expedição à Interzona Olissipo, para nela instalarem o celeste Portal Místico (consultar aqui o Boletim local). Sob as indicações transtemporais de Meishu-Sama (isto é, o Senhor da Luz), o etéreo Portal (ou Paraíso Messiânico) constituirá o imprescindível escoro da disseminação da Mensagem do Johrei. O Amatsu-Norito será difundido publicamente e, graças ao poder vibratório dos seus fonemas, destruirá todos os Pontos Móveis e Bases Translógicas do maléfico Déspota Intergaláctico. Os habitantes da Interzona passarão então a dominar os princípios da técnica johrei na sua integralidade. Basta apontar a palma da mão para outro habitante do cosmos e dela jorrará imediatamente uma corrente de energia com capacidades terapêuticas (voltar a consultar aqui o mencionado Boletim). Para facilitar a aterragem da Estação espacial BE-NUTS-000-000 na Interzona está já a ser construído um túnel numa das suas colinas, promovido pelo Regente Supremo local. Abra-se o Portal Místico! Entremos no Cosmos da Realidade Paralela!
Money for nothing
Enquanto o corrupto Sharon é investigado pelas "democráticas" instituições do corrupto Estado de Israel, a Sra. Arafat tem que ser investigada por tribunais franceses: contas na Suiça, estranhas transferências e fundos de proveniência ignota (vem no Público, não tem link). É de notar que a senhora é esposa de um indivíduo que foi recentemente listado pela Fortune como constando entre as 100 maiores fortunas pessoais do mundo. Como ele passa a maior parte do seu tempo a tremelicar lá na Mukata e tem poucas oportunidades para usar o capital, não custa muito adivinhar para onde é que ele se dirige... Percebem agora a escassez de plástico nos mercados mundiais?
Loura Burra
Parece que se foi de vez o amigo de Hillary Clinton (ooohhh...) e vamos mesmo ter que ficar com o amigo de Jane Fonda.
Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004
By the rivers of Babylon
Ninguém me perguntou nada, mas na eventualidade disso acontecer, eslareço desde já: não me incomoda absolutamente nada o facto de até agora não terem sido encontrados "stockpiles" ("stocks", "pilhas": esta qualificação é importante), chamem-lhe o que quiserem, de armas de destruição maciça no Iraque. Não foi essa a justificação que dei para apoiar a guerra. Quem assentou o seu apoio nesta razão tem realmente esclarecimentos a fazer.
Estava para não me pronunciar sobre este assunto, irrelevante para mim depois de já ter escrito vai para quase oito meses a minha primeira opinião sobre ele. Está aqui a dita opinião, façam o favor de ler. É o quarto de uma série de cinco posts dedicados a discutir um artigo então escrito por José Pacheco Pereira, e também já tive oportunidade de há dois meses atrás, numa discussão semelhante, remeter para lá. Apenas regresso ao tema porque me confrontei com a paciência infinita do Miguel Noronha e do maradona em voltarem a explicar as coisas direitinhas. Era só para subscrever.
Quanto às acusações de desonestidade intelectual que agora é moda lançar sobre o parceiro do lado a respeito deste assunto, seria bom guardá-las na sacola. A mim não são certamente dirigidas. Mas quem sabe se não poderão ser dirigidas a alguns daqueles que as proferem? Para citar o premonitório ex-Presidente Soares: pela boca morre o peixe.
Terça-feira, Fevereiro 10, 2004
Um poster
Ricardo, a decisão é excelente. Mas fiquei preocupado com alguns elementos do resto da encomenda.
Barbra Streisand, sim: quem não recorda com saudade monumentos corny como A Star is Born ou Yentl... E acresce que a senhora foi contra a guerra do Iraque e adora Paul Krugman, Bill Clinton e Howard “Yeeeeaaaarrggghhh” Dean. Casa tudo bem. Já fui acusado algures por aí de fazer parte de uma “certa direita estética”. Independentemente do que isso signifique exactamente (ilustrem-me, por favor), temos aqui um inequívoco caso de uma “certa esquerda estética”: Barbra “Funny Girl” Streisand, Paul “Bush lied” Krugman, Bill “blow job” Clinton e Howard “we’ll win in New Hampshire” Dean compõem um notável ramalhete de foleirice. É o trash no seu estado mais puro. Vale a pena contemplar e rir.
Já Norah Jones, não: é um mero pop-jazz delicodoce, a resvalar muito para o new age. Cantiguitas engraçaditas, muito suavezitas, muito para casalinhos agarradinhos e outras coisitas… Claro, a moça é muito girinha. Mas para isso, caro Ricardo, um poster bastava.
Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004
Credibilidade
Vai ganhando corpo entre os mais sólidos comentaristas a ideia de que a credibilidade dos EUA sofreu um rude golpe com o episódio da mentira sobre as ADM iraquianas. É o que diz, por exemplo, o preclaro Miguel Sousa Tavares (escourado no clarividente Zbigniew Brzezinki, a quem na escola chamavam o “Zezinski"). Para Miguel, Rumsfeld não passa de um “paranóico” (nem era preciso dizer, Miguel, a gente já tinha visto na cara dele) e a administração americana está dominada por um grupo de “gurus da extrema-direita”.
Eu, no essencial, concordo com isto. Até porque eles continuam a mentir-nos, desta feita sobre o seu próprio arsenal de ADM, que talvez fosse melhor renomear para AMDF. Ora o que são as AMDF? Pois as AMDF são a mais destrutiva das mais recentes armas desenvolvidas pelo complexo militar-industrial americano e significam, muito simplesmente, A Mama De Fora. As armas do tipo AMDF (A Mama De Fora) pretendem ter um efeito preventivo e, essencialmente, de ameaça. Suponhamos que Bashir Assad sugere o desenvolvimento de um programa nuclear. Bush responde-lhe com determinação e clareza: se a Síria tentar desenvolver tal programa, os EUA lançarão nas televisões do mundo Christina Aguilera com AMDF. O Sudão instala uma fábrica de armas químicas? Os EUA respondem com Susan Sarandon com AMDF. Chirac ameaça vetar uma resolução na ONU? A resposta é Christina Ricci com AMDF. É por coisas como estas que se vê o abismo tecnológico que separa os EUA do resto do mundo. Nós, por exemplo, também temos o nosso programinha militar de armas de destruição em massa, mas a única coisa que até agora conseguimos desenvolver foi as UDLR, i.e., Último Disco de Luís Represas. Senhor Ministro da Defesa, você também é da "extrema-direita". Tem que se esforçar mais no financiamento do ministério. Assim não vamos lá...
AA (não, não é o que pensam...)
Afinal há por aí um homónimo meu e do André Belo, chamado (precisamente) Luciano Belo... Sorry, chamado André Amaral, que antes de mim já tinha opinado muito sensatamente sobre Espanha no seu blog, em termos semelhantes ao que usei aqui ontem. Ide ver.
Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004
O cheiro deles
Deve ser mesmo isso ("The Smell of Our Own"), Alberto. O disco de que disponho é uma coisa pirateada de um amigo, que fez o favor de pôr uma fotocópia surrada da capa, da qual a única coisa que consigo perceber é o nome dos rapazes (sem ofensa). A coisa é tão difusa que durante muito tempo nem sequer percebi a magnífica "moldura humana" (que talvez ficasse melhor nas traseiras) que ornamenta o objecto.
É uma questão de Mérrito
Quando me ocorrem (e às vezes ocorrem) instintos VPVianos sobre a blogosfera: "são todos uns anormais, eu é que sou bom, a blogosfera é uma trampa, é só criaturas insignificantes, invejosas, pequeninas, ninguém diz nada de jeito, ninguém percebeu nada e ninguém sabe pensar", rapidamente sucede qualquer coisa para me reconciliar com ela. É o que se passa com o culto demonstrado já por mais do que uma ocasião por este senhor, este , estes e mais este (que me apercebesse) a Stephen Merrit e, mais em especial, à sua encarnação enquanto Magnetic Fields. Onde, fora da blogosfera, seria eu capaz de me reunir no meu escritório com mais quatro almas a quem foi revelada a verdade?
A propósito, algum deles ouviu uma espécie de discípulos do homem chamados The Hidden Cameras (cujo disco é Music is my Boyfriend)?
Amor à camisola
É recorrente nas jeremiadas contemporâneas a ideia de que o que hoje em dia falta é “amor à camisola”. “No meu tempo”, diz-se, “trabalhávamos por amor à camisola”. “O Benfica dos grandes dias”, dizem certas pessoas, “era o que era porque o Eusébio, o Coluna e o Zé Augusto tinham amor à camisola”. Um fulano acordar cedo para ir trabalhar não custava, porque “havia muito amor à camisola”.
Desconheço a vossa opinião sobre isto, mas eu tenho uma certa tendência a simpatizar com a ideia, nomeadamente perante acontecimentos que se sucedem com uma frequência assustadora dia a dia. José Mourinho, por exemplo, demonstrou no sábado passado uma notável falta de amor à camisola, ao rasgar furiosamente a camisola de Rui Jorge. Não… é por estas e por outras que isto está onde está. E os exemplos não se ficam pelo nosso país. No último domingo Justin Timberlake demonstrou uma grande falta de amor à camisola de Janet Jackson, rasgando-a num determinado local. É porque isto, no fundo, sem amor à camisola, anda “tudo à mama, meu amigo”.
Muito francamente, meus caros, há coisas prioritárias no diagnóstico dos males do mundo: Bush e Blair mentiram e Saddam Hussein era um querubim alado? O que é que isso interessa quando se vê por aí tanta falta de amor à camisola?
Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004
Correspondente em Madrid
Segue aqui um comentário de um leitor, que interessa a quem tem acompanhado o que se passa na política espanhola. O que por Espanha se vê é o desconchavo absurdo do PSOE, incapaz de oferecer uma agenda política alternativa a um partido conservador que (usando as mais repelentes medidas neoliberais) tem mantido a economia espanhola a crescer quando toda a Europa está em recessão e, sobretudo, conseguiu baixar o desemprego dos valores terceiro-mundistas que existiam no tempo do PSOE (à volta de 20%) para os valores semi-terceiro-mundistas da Europa de hoje (à volta dos 10%). Claro que o PP de Aznar tem tido uma governação reformista (nem sequer muito ousada) que não se envergonha da matriz liberal que representa. Eis aqui uma lição para o nosso timorato governo, que confunde reforma liberal da economia com a obsessão pelo deficit. Reformar economias estatizadas e sociedades subsidiadas custa alguns dissabores no curto prazo, mas traz grandes coisas no médio e longo prazo. É ver o caso da Espanha e, sobretudo, da Irlanda. A Irlanda era há quinze-vinte anos atrás um país tão rico quanto Portugal. Hoje é o mais rico da UE (se excluirmos o Luxemburgo, que não é sequer bem um país, mas é assim mais uma espécie de entroncamento).
A esquerda cá (do eixo PS-BE) também é um desastre, mas o nosso governo parece não saber capitalizar isso.
O leitor que me manda a sua mensagem é José Luís Lencastre e vive em Madrid. O José Luís ofereceu-se para ir comentando para o Espectador as eleições (e o caminho até lá) espanholas de Março. Eu aceitei. Trata-se da primeira expansão desta pequena empresa, que passa agora a ter um correspondente internacional.
Eis a mensagem:
Estou a viver em Madrid, há cerca de um ano, e é através dos blogs que vou acompanhando o que se passa na nossa terra. O seu é um dos que leio diariamente.
Hoje, quando li o que escreveu sobre as cabalas que a esquerda sempre atribui à direita, quando as coisas lhe correm mal, claro, não posso deixar de concordar e reforçar o que diz com o que se está a passar aqui em Espanha.
Em Maio do ano passado foram as eleições para a Comunidade de Madrid, e a unidade da esquerda (PSOE e IU) para ocuparem a dita Comunidade foi desfeita pela fuga de 2 trânsfugas do PS. Foi cabala da direita (PP) , dos construtores civis, eu sei lá. Houve um inquérito que demorou o verão todo, não se provou nada (claro!) e em Outubro o PP ganhou por maioria absoluta.
Agora é o caso do Carod-Rovilla, que teve um encontro com membros da ETA. E de quem é a culpa novamente? É do PP que usou o serviço de informação do Estado para divulgar a notícia, e assim tirar proveito para as próximas eleições gerais em Março.
Que fazer com estas esquerdas?
Que reste-t-il de nos amours?
A propósito do post imediatamente abaixo, acerca do caso dos pagamentos de Saddam a políticos franceses, recebi (via email) reparos de dois distintos bloggers, o André Belo e o Rui Oliveira, dizendo-me que era falsa a minha afirmação segundo a qual a imprensa francesa não se tinha pronunciado sobre o caso. Prometi-lhes que fazia aqui uma correcção e cá está ela: afinal o Proche-Orient Info fez uma notícia e o Le Monde também. Para além disso, o Le Monde transcreve umas declarações de Charles Pasqua, o principal visado, o qual desmentiu que fosse beneficiário de quaisquer pagamentos iraquianos.
Está feita a nota. Seja como for, a docilidade da imprensa francesa (e o silêncio que se lhe seguiu) perante o caso continua surpreender-me: as declarações de Pasqua são ao estilo entrevista de desagravo ou de encomenda. E depois disso nada de significativo (ou mesmo nada) tem aparecido. Isto perante uma história cuja aparente (por enquanto apenas aparente) gravidade é enorme: nem uma investigação, nem um editorial, nem um pouco de reflexão sobre o assunto. Porquê?
Sexta-feira, Janeiro 30, 2004
Douce France une autre fois
Depois das grandes esperanças que depositavam no juiz Hutton, os nossos amiguinhos do costume tratam agora de nos explicar que o homem não passa de um serventuário do poder. Claro que se os resultados do inquérito fossem ao contrário, logo nos viriam dizer da isenção do senhor, de mais um notável exemplo de democracia vindo da mais velha democracia em funcionamento. Como não foi isso que aconteceu, já reverteram para aquilo que é a grande contribuição teórica da esquerda para a ciência política: a cabala, a conspiração, a tramóia, o conluio, a urdidura (remember?). É um tipo de teorização com pergaminhos na esquerda: afinal Marx não era muito diferente – segundo ele o sistema político liberal não era senão uma grande falácia, por baixo do qual reinava a sinistra e sanguinária burguesia. Para passar para tempos mais actuais, Chomsky continua a engrossar as fileiras do género: para ele, a América não é senão uma grande tramóia. And so on…
Mas eu ontem falei aqui de uma notícia que, essa sim, parece mostrar a existência de uma urdidura real e ninguém se manifesta. Não percebo o vosso desinteresse pela coisa. Recordo que a documentação onde a acusação se funda é a mesma que levou à demissão de George Galloway, o deputado trabalhista inglês contra a guerra. Curioso também é notar como nenhum jornal francês menciona a história. A este respeito, só tenho a aconselhar a leitura de um artigo saído na Prospect de Janeiro, chamado "French Favours", onde se mostra o entendimento entre jornalistas e políticos que sistematicamente bloqueia a publicação de informação delicada para estes últimos (convém não esquecer que a França é o país onde todos os jornalistas souberam durante 20 anos que Miterrand tinha uma filha ilegítima e não disseram nada).
Basic economics
Numa atitude de rara coragem e desassombro, o famoso encenador português Jorge de Silva Melo recusou o Prémio Almada para teatro do Instituto das Artes, um organismo oficial, no valor de 25 mil euro (vem no Público, não consigo fazer link directo). Vale a pena ouvir as justificações do encenador: “não gosto de prémios de Estado porque acredito – fui educado assim – que o artista é por natureza um traidor ao poder instituído”.
Isto da boca de quem, ao longo da sua inteira vida (pelo menos nos últimos 30 anos), tem vivido com o estipêndio do poder instituído. No fundo, a coisa é explicável pela economia (da mais básica mesmo): o valor actual líquido daquilo que JSM foi recebendo ao longo de 30 anos sob a forma de subsídios, empréstimos ou doações é muito maior do que qualquer soma one-off (ainda por cima eram só uns míseros 5.000 contos) que agora lhe caísse nas mãos. E o que é mais: parecemos tão rebeldes, tão radicais com atitudes como esta, e isso não só garante umas notícias de jornal como cai sempre bem junto da clientela
Centenário
De Eduardo de Freitas, conhecido sociólogo português e autor de obras que acompanharam os primórdios da minha carreira académica, recebo a seguinte mensagem:
Em vôo rasante pela blogosfera, dei-me conta do seu Comprometido Espectador.
E lembrei-me que em 2005 passam 100 anos sobre o nascimento do Aron e 60 sobre o fim da 2ª guerra.
Ora havendo tanta gente 'distraída', o mais certo é que sobretudo no que se refere ao autor indicado, a evocação fique por pouco mais do que nada.
Eu acho que era altura para se pensar em iniciativas que levassem ao acordar de cabeças para a contemporaneidade da obra de um dos autores mais atentos e lúcidos do século de todas as crispações ideológicas.
E eu também acho a mesma coisa.
Quinta-feira, Janeiro 29, 2004
Douce France
"Saddam Bribed Chirac": e se for verdade? Onde estarão os iluminados teóricos de cabalas e conspirações?
More Merde in France? See Merde in France, Super Flumina e Valete Fratres.
Sing another song
Muito bem, Daniel, excelente post: a entrevista do VPV é, efectivamente, uma coisa um pouco cabisbaixa. Já agora, explico de onde venho para dizer isto. Durante algum tempo, ao longo do meu período mais intenso de crescimento intelectual (que ainda não acabou, mas prossegue mais lentamente), o VPV foi para mim um ídolo. Primeiro, um ídolo historiográfico, graças ao livro O Poder e o Povo. O Poder e o Povo é um livro cheio de incorrecções, incompleto, apressado, onde o rigor é muitas vezes sacrificado à forma (coisa com o qual só tem a ganhar, de resto). Muito melhor, em termos de pensamento e compreensão do período da I República, é o livro do Rui Ramos, A Segunda Fundação. Seja como for, O Poder e o Povo é um dos grandes livros de história (e de ficção também, se calhar) portuguesa do século XX. O VPV foi, depois, um ídolo jornalístico, especialmente no período de ouro d’O Independente.
A sua última encarnação no DN já não me entusiasmava muito, mas o VPV mesmo em baixo de forma vale quase todos os outros colunistas portugueses juntos – o que não diz bem dele, mas simplesmente mal do jornalismo português. Esperemos para ver o que aí vem. Mas a entrevista ao DN é um mau sinal. A mim pareceu-me a rotina estafada de um artista de circo a quem já estão a cair as lantejoulas do fato. A mesma pose, as mesmas piadas, as mesmas ideias ruçadas, que foram engraçadas no Portugal subdesenvolvido dos anos 70 e 80, mas agora parecem elas próprias parte do mesmo subdesenvolvimento. A ver vamos. Custa-me sempre romper com heróis antigos. Mas a entrada não foi muito boa.
Termino só com uma coisa sobre ti, meu caríssimo amigo: dizes tu que gostavas de ouvi-lo dizer qualquer coisa que não esperasses ouvir dele. Também eu. Mas (e digo isto, ao contrário do que possas pensar - juro, juro, juro –, sem a menor malícia ou ironia) gostava um dia também de te ouvir a ti dizer coisas que não esperasse ouvir. És inteligente e tens jeito para alinhar palavras. Podias esforçar-te mais. E termino repetindo o meu pledge: isto não é ironia ou malícia.
Quarta-feira, Janeiro 28, 2004
Feira da ladra
A ONG (sigla que os brasileiros pronunciam “ongui”) americana Human Rights Watch considerou que a acção militar americana no Iraque não poderia ser justificada enquanto intervenção humanitária, nomeadamente por (e cito a mencionada ongui) “falhar cinco dos seis testes que definem uma intervenção humanitária”. O único teste que pode, “eventualmente” (palavras da ongui), ter sido cumprido é o de “o povo do Iraque ter ficado melhor” em consequência da dita acção militar. Cabe sempre perguntar se não valeria a pena pôr um sétimo critério do tipo: custo humanitário de não fazer nada perante um regime homicida como aquele.
Mas prescindindo agora de outros considerandos de ordem estatística (como, por exemplo, que ponderação atribuir à variável “volume de indivíduos fuzilados”, ou à variável “volume de indivíduos presos”, e de que maneira essa ponderação pode afectar o resultado dos testes, ou que ponderação pode ser dada à variável “povo ficou melhor” para se chegar à conclusão final), é interessante esta tendência actual de reduzir a arte da política (e da guerra também, que como se sabe é a continuação da política por outros meios) a uma espécie de tribunal científico, o qual depois se usa para extrair as mais extraordinárias consequências políticas. Por exemplo, toda a gente quer a prova provadinha de que o Iraque estava a abarrotar de armas químicas. Não se conseguiu provar até agora que estava. Daqui (que é uma conclusão de tipo técnico-jurídico do domínio da prova) faz-se o salto lógico seguinte: Blair? Bush? São uns mentirosos, enganaram deliberadamente o pobre povo do mundo. Que as armas possam ter sido enterradas, passadas para o outro lado da fronteira, destruídas um mês antes da guerra, que Blair ou Bush se tenha enganado e não mentido, nenhuma destas e outras hipóteses perpassam na cabeça do pessoal. E nem sequer se dispõem a discutir seriamente a verdadeira questão política relacionada com essas armas químicas (para além de todas as outras questões políticas que se recusam a discutir): existissem elas ou não agora por lá, a verdade é que não vão voltar a existir.
O mesmo se passa com a intervenção humanitária. Imagino a rapaziada da ongui lá em Nova Iorque a preencher formulários com cruzinhas: Sudão: “Ora, 100.000 mortos… ora, a dúzia do morto hoje está a … Eh pá, a quanto é que está o morto hoje?” Irão: (na alínea lapidação, excisão vaginal, castigos corporais sobre mulheres) “Passas-me aí o manual com o valor da excisão? Vá, rápido, rápido, que eu tenho que entregar esta xaropada ao Kofi logo às sete…”
Enfim, são estes e outros que enchem a boca com o humanitarismo, mas depois praticam a mais baixa ciência, o mais baixo direito, a mais corriqueira tecnocracia, a política mais baixota. Alguém leva aquilo a sério? “Ouve, um gaseado no Congo não vale um fuzilado na China… Eh pá, não me lixes, mete aí mais uns presos políticos, para ver se passa no teste, pá”.
Sexta-feira, Janeiro 23, 2004
É repugnante, sim senhor!
Do meu colega NG recebo esta pequena pérola que nos mostra a direita na mais repugnante das suas facetas:
Já tinha ouvido mas não queria acreditar. Esperei para ler hoje e ter a certeza. Disserta o nosso amigo Miguel Sousa Tavares sobre política de imigração. A sua crítica fundamental e fundamentada que aliás serve de letras gordas ao artigo é que, e cito o Diário Económico, "o PP é descarada e vergonhosamente contra a imigração clandestina." Pensava eu que com a excepção das máfias todos nós éramos descarada e vergonhosamente contra a imigração clandestina e a favor da imigração legal e legalizada. Pelos vistos, o nosso articulista, profundo estudioso destas matérias, tem uma outra visão do problema, e é descarada e desavergonhadamente a favor da imigração clandestina. É assim quando se faz conversa de café na televisão e nos jornais... Ou quando não se faz o trabalho de casa...
Twin Peaks-upon-Tagus
É constante nos filmes de David Lynch a obsessão pela anormalidade que se esconde dentro da normalidade, ou então pela anormalidade que convive desprezada ao lado da normalidade. Se exceptuarmos Dune, todos os filmes de Lynch (de Eraserhead e The Elephant Man até Lost Highway ou Mulholland Drive, passando por Blue Velvet e Wild at heart) giram em torno deste tema. Mesmo The Straight Story, na sua aparente normalidade, não é senão uma inversão perversa da perversidade tradicional de Lynch: nada no mundo pode ser tão normal, tão “straight” como Lynch o faz nesse filme. Um dos mais famosos momentos na carreira de Lynch foi a série de televisão Twin Peaks, onde, no cenário bucólico do estado de Washington, entre uma pequena comunidade rural, ocorriam as mais perversas relações humanas: quintessential David Lynch.
Enfim… O verdadeiro intelectual é o intelectual que se esforça. E vem este arrazoado pedante a propósito de uma actividade a que me dediquei ontem pela primeira vez: ver o Telejornal da TVI. Depois de uma, duas, três horas (quanto tempo exactamente demora aquilo?) em frente ao televisor comecei a dizer para mim mesmo: eu vivo em Twin Peaks e não me tinha apercebido. Afinal, eu levanto-me cedo, vou pôr a criança mais velha à escola, dou umas aulas, escrevo uns artigos (científicos e jornalísticos), blogo, almoço com amigos, volto para casa, às vezes saio para jantar ou ir ao cinema. Mas à minha volta sucedem-se eventos extraordinários. Uma amostra casual do Telejornal de ontem:
- Em Loures um homem foi parcialmente devorado pelo seu cão;
- Em vários pontos do país, indivíduos dados como mortos são levados para a morgue, acordando in extremis entre cadáveres dentro de um frigorífico;
- Foi desmontada em Esposende (repito: em Esposende) uma rede de tráfico de ecstasy;
- O Presidente Sampaio constipou-se em Vagos.
E poderia continuar ad infinitum: o freak show da TVI não tem fim.
E no final dele comecei mesmo a inquietar-me: se isto é todos os dias assim, alguma coisa está mal. Ou são os traficantes de ecstasy de Vila Nova da Barquinha que são os Homens-elefante desta história e de quem eu me rio, ou sou eu que sou o homem elefante, metido numa jaula de normalidade absolutamente risível para quem acabou de ver a sua perna comida por um cão.
Terça-feira, Janeiro 20, 2004
Ah ganda Zé!
Pois é JCD, se as obras do túnel do marquês pararem dá mesmo jeito. Mas o Zé, tázaver?, é advogado, e um gajo quando é advogado tem que fazer pela vidinha. E portanto um bocadinho de publicidade é coisa que não pode fazer mal lá ao escritório. Táza perceber a perspectiva do Zé: “eh pá, a malta não gosta do túnel, não é?, vai daí, pertantos, faz-se uma coisa contra o túnel – aquilo há-de ter ilegalidades, afinal todas as obras têm, não é? -, a malta acha que eu sou um gajo que me vou a eles, pá, que não tenho medo de ninguém, pá (quantos são? quantos são?), apareço na televisão e nos jornais, fico com uma ganda imagem, e é só clientela a pingar”. E realmente, se isto funciona com o Garcia Pereira (embora o Garcia Pereira faça a coisa subsidiada pelo Estado, na altura das campanhas eleitorais), porque não com o Zé?
Segunda-feira, Janeiro 19, 2004
Zeropa
Meu caro Bruno, não vou voltar a elogiá-lo em abstracto, porque já sabe como é, aqui na blogosfera há logo uns vigilantes que nos explicam que somos uns masturbatórios horríveis, e ficam logo abespinhados com esse género de actividade. Não sei porque assim é, mas devem ser pessoas que não acreditam na existência de elogios sinceros.
Seja como for, é mesmo como você diz. A Teresa d’Suza há já muito tempo que se instalou com a sua “valise de carton” num ponto qualquer do eixo Paris-Bruxelas. Como você nota muito bem, esta ideia de que há uma Europa unida e que andam aí uns mauzões americanos ou americanóides a querer dividi-la, é uma retinta asneira. A essência da Europa (feliz ou infelizmente) é mesmo estar dividida, coisa que eu tentei dizer num artigo que escrevi há uns tempos para O Independente (não está on-line). A essência da Europa está nas posições muitas vezes não coincidentes (noutras sim) sobre diversos assuntos, nomeadamente em matéria de política externa, onde justamente é mais difícil substituir as várias políticas externas por uma só. A Europa faz-se através da afirmação do interesse nacional dos vários países e não através de um projecto abstracto de superação desse interesse nacional, uma espécie de entidade nascida do nada que se afirmasse no mundo. De resto, quando um país aparece a falar em nome d’A Europa (como o Sr. Raffarin no artigo do Público no outro dia) é melhor começar a descascar a coisa, para ver qual é o interesse que está por trás. Ora o interesse nacional francês toda a gente sabe qual é: dominar a Europa, afirmar-se, ao mesmo tempo que mantém a Alemanha debaixo da asa e a Grã-Bretanha à distância – os outros países não interessam muito, embora entrem na equação de uma maneira ou outra. Tal como você muito bem diz também, a Europa dividiu-se espontaneamente sobre o Iraque, sendo que nesse episódio, porém, a França e a Alemanha mostraram a mais triste das arrogâncias. Quando os EUA mostraram determinação em fazer a guerra, a França e a Alemanha trataram logo de dizer, sem consultar ninguém, que a “posição d’A Europa” era contra. Mas qual Europa? Alguém lhes passou procuração para falarem por todos nós? Este magnífico episódio acabou inclusivamente com o Sr. Chirac a ralhar aos países com vontade de aderir que estavam a favor da guerra, dizendo-lhes que tinham “uma boa oportunidade para ficar calados”.
Quando escrevi o tal artigo houve alguns amigos que me perguntaram se eu era anti-europeísta. Eu respondi que muito pelo contrário. Mas, ao invés do que eles pensam, a Europa não é esta Coisa que os seus auto-proclamados defensores dizem que é. Todos os europeístas têm que perceber uma coisa muito simples: se há algo que mais contribui para a não-construção da Europa é a percepção de que ela existe para além da afirmação da vontade expressa ao nível do continente pelos diversos estados. A Europa só pode ser feita dessa maneira e pelo caminho há-de sempre haver motivos para uma certa refrega.
Sexta-feira, Janeiro 16, 2004
Chamem os homens de branco!
Agarrem-no à cama, prendam-lhe os braços com ligadura, dêem-lhe aquele sedativo para casos agudos e depois aguentem um bocado: a ambulância está quase a chegar.
Quarta-feira, Janeiro 14, 2004
De pé, oh vítimas do consumo
Leio no Público e interesso-me: o PCP tem uma loja virtual. Acho, sem mais, uma boa ideia: afinal, para um partido virtual o mais adequado é mesmo uma loja virtual. Percorro os items expostos e parecem-me todos muitos interessantes. Há talvez um certo excesso de gadgets derivados do painel mural colectivo existente na sede do partido ali à Rua Soeiro Pereira Gomes, talvez demasiados vídeos e livros dedicados ao 25 de Abril de 1974. Mas já a presença, entre as obras expostas, do Livro do XI Congresso do PCP ou do Programa/Estatutos do PCP me parecem extraordinários achados de marketing. Sem querer meter a foice em seara alheia (não sei se perceberam a alusão…), talvez fizesse mais algumas sugestões de objectos a disponibilizar pela loja. Apenas alguns exemplos:
- Sapatos de Krutchev: tratar-se-ia de réplicas do famoso sapato com o qual o antigo secretário-geral do PCUS martelou as bancadas da ONU;
- Para nos mantermos na mesma época, réplicas do relatório do mesmo Krutchev ao XX Congresso do PCUS, no qual ele conta aquela famosa anedota segundo a qual 10 milhões de pessoas teriam sido mortas pelo regime entre os anos 30 e 50;
- Réplicas do famosos tanques das séries T, BT e IS que reclamaram para a liberdade a Hungria e a Checoslováquia em 1955 e 1968.
- Kit eleições soviéticas: tratar-se-ia de um boletim de voto com os vários candidatos e uma caneta de tinta invisível, deixando o sentido do nosso voto ser livremente (daí a liberdade…) interpretado pelos escrutinadores do acto eleitoral;
- Pack Vida Soviética: colecções inteiras da famosa publicação onde pontificavam operários, camponeses, soldados e reformados em pose sorridente;
- Machado Trotsky: seria um objecto um pouco ao estilo do canivete suíço e constituiria no fundo uma réplica do machado com que Trotsky foi acidentalmente atingido (cuidado Prof. Freitas) no México em 1936;
- Action Leaders: bonecos ao estilo action man, com Lenine, Estaline, Fidel, Ho Chi Mihn, etc.. Cada boneco teria as suas armas especiais e roupas adequadas às mais diversas circunstâncias – reunião do presidium, visita ao gulag, verficação de fuzilamento, etc.;
- Balsas: (para uso das crianças nas férias do Verão) réplicas em tamanho real dos pequenos barquitos usados pelo feliz povo cubano para fazer as suas férias no Mar das Caraíbas;
- Kit Internet cubana: vender-se-ia em packs tipo Sapo (com banda larga e tudo), dando acesso à especialmente vasta rede de Internet cubana;
- Korean Nukes: tratar-se-ia de uma banda de jovens comunistas de múltiplas nacionalidades interpretando versões techno e house de êxitos como Avante Camarada, A Internacional, o hino da URSS, ou então peças instrumentais com samples de José Carlos Ary dos Santos a dizer poesia.
Enfim, há tanta coisa, caros camaradas… Pick and choose. E se quiseram uma consultoriazinha de marketing, sempre ás ordens.
Segunda-feira, Janeiro 12, 2004
Grandes cromos
Na SIC Notícias de domingo vejo uma reportagem sobre um dos mais recentes divertimentos infantis na Cisjordânia: uma colecção de cromos com bombistas-suicidas e eventos terroristas. A iniciativa não é privada, mas da própria Autoridade Palestiniana. Trata-se de criar modelos para comportamento futuro das crianças palestinianas. É sempre bom apontar às novas gerações exemplos de vidas bem sucedidas e, sobretudo, completas.
Imagino as criancitas a correrem à tabacaria mais próxima para comprarem nova caderneta e a trocarem cromos repetidos com os amigos. Penso até que há aqui espaço para uma significativa expansão do negócio. Eu lembro-me, quando pequenito, de esperar ansioso a semanada para comprar cromos que imortalizavam os remates explosivos de Eusébio (em fim de carreira, é certo), o drible incendiário de Jordão, os inflamatórios golos de Yazalde, as defesas fogosas de Damas, os voos fulminantes de Conhé ou as cabeçadas ardentes de Hilário. Também no Médio Oriente se poderia expandir a actividade, partindo dos cromos para um campeonato desportivo. Teríamos, por exemplo, um campeonato regional de ataques a objectivos israelitas, ocidentais ou iraquianos em que existiriam equipas como os “Baghdad explosives”, os “Ramallah Chemicals”, os “Fallujah Blow-uppers”, os “Beirut Blow-jobbers” ou os “Ryad Dynamites”, as quais disputariam o concurso dos fantásticos Ali “the Scud”, Anwar “Grenade” Husseini, “Missile” Ahmed ou “Mustard Gas” Ibrahim. Tudo rematado com um programa de comentário ao domingo, chamado “Domingo Explosivo”, com apresentação de Cecília Carmo Armadilhado. Hã, não digam que isto não é contribuir para o advancement da causa palestiniana…
Quinta-feira, Janeiro 08, 2004
Os Paulos Coelhos dos ricos
Celso, não quero entrar em mais uma daquelas polémicas intermináveis em que vocês aí na vossa tasca têm a mania de me meter (se não fossem meus amigos não vos dedicava nem metade da atenção que dedico – não é por mais nada, mas é que o meu tempo é escasso e precioso), mas digo mais qualquer coisinha sobre este assunto.
O Luiz Pacheco não tem grandes livros? Eu acho que tem. São, como ele bem diz na entrevista, sobretudo “colecções de artigalhada”, mas coisas como os Textos Malditos ou os Textos de Circunstância ou O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor ou Comunidade, são grandes coisas na literatura portuguesa. Também o Jorge Luís Borges, um dos maiores escritores de sempre da humanidade, nunca escreveu mais do que contos e poemas.
Já o José Saramago ou o António Lobo Antunes, eu gostava de conhecer um grande livro deles (para além dos livros grandes que cada um tem). Tu achas francamente que qualquer deles é um grande escritor?
A oposição deles ao Pacheco era obviamente um pouco retórica, mas queria dizer qualquer coisa. Podia, se viesse a jeito, opô-los ao Carlos de Oliveira ou ao Vitorino Nemésio, autores que tanta gente não leu, ao mesmo tempo que devora cada coisa nova (?) com que os outros dois nos brindam todos os anos. O efeito deles na presunção de cultura dos portugueses é algo que mereceria mais atenção. Sem estar a exagerar muito, eles são uma espécie de Paulo Coelho ou Margarida Rebelo Pinto das Classes A e B (coisa que o Público também é para os jornais, por exemplo). Assim como a rapaziada menos culta do subúrbio se convence de que lê literatura com Paulo Coelho ou Margarida, também a rapaziada mais letrada lê os nossos José e António e considera cumprida a sua obrigação cultural. Isto fá-la, para além disso, pensar-se habilitada a dizer que é culta e a não ler praticamente mais nada.
Não tenho nada contra isto, cada um lê o que quer. Para mim pessoalmente, a meia dúzia de livros de cada um que li (por mero escrúpulo de opinião) foram experiências penosas que não aconselho a ninguém. É como digo: cada um lê o que quer. Mas não me obriguem é a achar aquilo grande literatura.
Quarta-feira, Janeiro 07, 2004
Entrevistas de Circunstância
O Pedro(AS) já mencionou, mas eu cauciono. Como o Pedro(Oliveira) diz que eu digo, façam um favor a vocês mesmos e leiam a entrevista de Sua Excelência Libertina Luiz Pacheco ao DN de hoje. Há quem nunca tenha lido um texto desta criatura abjecta mas gaste o seu precioso tempo com as sucessivas parvoíces de Saramago ou Lobo Antunes. Isto é como tudo: também há quem tenha ouvido e tenha gostado do último disco de Luís Represas. Uns breves excertos da entrevista, apenas para melhorar o aspecto do blog:
“Ao pé de Agustina, falar de Saramago é como falar do cão…”
“P: As suas histórias com adolescentes, hoje, fariam condená-lo por pedofilia.
R: Ah, pois! Ia preso. Mas a miúdas eram mais adultas do que eu, não havia pedofilia nenhuma.”
“No caso em que fui condenado por estupro, eu tinha 17 anos e a rapariga 14, sexualmente feita: era a estopa ao pé do lume. Ardia.”
“P: Foi pai de quantos filhos?
R: Sete e meio: um não sei se é meu.”
“P: Quando tinha afinidades intelectuais não tinha atracção erótica?
R: Nas raparigas eu gostava era do natural, primitivo.
P: Do PCP ainda gosta?
R: Já não tenho idade para isso. Foi uma ilusão de época.”
Segunda-feira, Janeiro 05, 2004
Justiça de bancada
2004 começou bem: o Sporting deu uma justíssima abada ao Benfica e recomeça o Carnaval Casa Pia (yessss!!!). Neste último caso as razões para nos regalarmos são inúmeras. Todo o mundo fez a sua operação de mudança de sexo. Jornalistas que se comportam como políticos, políticos que se comportam como jornalistas, políticos que se comportam (está bem, não é novidade…) como anormais, jornalistas que se comportam (idem) como anormais, advogados que se comportam como jornalistas, advogados que se comportam como políticos, jornalistas que se comportam como advogados, amigos de advogados que se comportam como psiquiatras, arguidos que se comportam como santinhos, e toda a gente a comportar-se como taxista, sentindo-se no direito de mandar o seu belo e autorizado bitaite sobre cartas anónimas, nomeações de juízes e prazos de prisão preventiva. É um novo e grave choque sobre a sociedade portuguesa, que ainda mal tinha recuperado do lançamento do último disco de Luís Represas.
Resolução de novo ano
A vida está difícil para todos, e para mim também. A sociedade, a humanidade, o SIS, o processo Casa Pia reclamam a minha participação. Não posso recusar. São ponderosos valores que se alevantam. Sou conduzido a fazer uma resolução de novo ano:
Tenho de deixar de alimentar o blog numa base essencialmente quotidiana. Vou passar a fazê-lo três a duas vezes por semana. Isto se exceptuarmos eventos momentosos que sejam dignos de comentário mais urgente: mudança de suporte das mensagens de Osama (da K7 para o CD ou o DVD multirregiões), eleição de Miguel Portas para o Parlamento Europeu ou lançamento de um novo disco de Luís Represas.
Terça-feira, Dezembro 30, 2003
Comida para o pensamento
E pronto, mais um que passou… Vem aí o próximo. E tentando alimentar o vosso pensamento deixo-vos aqui dois excelentes artigos dos meus dois colunistas favoritos, Paulo Almeida Sande e Fernando Rosas. Não, agora a sério: Mark Steyn e Victor Davis Hanson. Até para o ano.
Acontece aos piores
(Daniel, desculpa o título. Era só para fazer uma piada. Tu não és dos piores.)
O texto que citas do teu amigo Miguel Portas é uma peça de opinião horripilante. Por várias razões:
1) Justifica o injustificável. Justifica o uso do véu como suposto sinal de resistência aos EUA. O problema do véu é que ele é um sinal de discriminação sexual. Mesmo uma mulher que o use voluntariamente fá-lo porque na origem há uma regra emanada da legislação islâmica que a obriga a tal. Onde está o teu amigo Miguel Portas que defende os direitos das mulheres? Ou será que tudo se justifica perante o horror americano? Se é esse o caminho que querem seguir, já vi coisas parecidas no passado. Não acabaram bem.
2) Insinua, sem ser explícito, que há uma relação entre o poder económico da comunidade judaica de Antuérpia e o racismo anti-islâmico na cidade. É melhor nem sequer dizer mais nada sobre isto.
Eu sou contra esta lei francesa relativa aos sinais de religiosidade na escola laica. Mas seria a favor de uma lei que impedisse as meninas de fé islâmica de usarem o véu na escola. Não se pediria que elas nunca o usassem. Pedir-se-ia que no espaço laico da escola elas deixassem de o usar. Seria uma maneira de dar um sinal de que num determinado espaço que é público a discriminação sexual pressuposta pelo véu seria condenada (e reprimida mesmo). O uso do véu é sempre uma violência sobre as meninas e as mulheres islâmicas. Vai contra as crenças islâmicas as meninas tirarem o véu? Pois vai contra as minhas que o usem. Seria pedir muito às famílias islâmicas que num determinado espaço e num determinado período do dia respeitassem os valores da sociedade em que vivem?
A generalização da lei a outros sinais de religiosidade é um completo disparate. Não há qualquer comparação, no domínio da discriminação sexual (que é o que está aqui em causa), entre o véu e o crucifixo ou até o kippah, que não implicam qualquer menorização de um sexo face ao outro.
Obrigada, obrigada, obrigada... (relembrando a Sôdôna Amália)
Olá queridos amigos. Missed me? Imagino...
Saio da toca (agora reparo que tenho que ir fazer esta barba...) apenas brevemente para uns agradecimentos e umas notas para ajudar a entrar no ano.
Os agradecimentos vão para o Contra a Corrente e o Barnabé, que distinguiram aqui o rapaz com uns prémios de final de ano. Houve muitos blogs a dar prémios, mas a mim só me calharam estes dois. Não faz mal, são duas das melhores coisinhas que por aí correm na blogosfera.
Um sincero obrigada, obrigada, obrigada...
Não termino a mensagem, porém, sem responder ao Daniel, que acusa a direita de estar de férias enquanto eles trabalham. São generalizações típicas da esquerda. No vosso blog colectivo (outro típico tique de esquerda, o blog tinha que ser colectivo) só 40% (tu e o Celso) têm estado ao serviço. Os outros 60% têm estado caladinhos e 70% deles estão de papo para o ar a gozar os inestimáveis prazeres do Novo Mundo (América do Sul e do Norte). A direita de férias e a esquerda a trabalhar? Por favor, Daniel... Toda a gente sabe onde vive e por onde se passeia o votante médio do "Bloco"...
Terça-feira, Dezembro 23, 2003
Season's Greetings
A loja encerra agora por uns dias, para férias. Desejo um Feliz Natal a todos e (provavelmente – pode ser que ainda dê uma palavrinha antes) um óptimo Ano Novo.
Are you the walrus?
O Morsa reagiu às minhas vagas notas sobre discos deste ano, classificando-me numa série de actividades (blogger, colunista de jornal, professor catedrático, músico e melómano). Meu caro Morsa, está quase tudo errado. A única dessas coisas que posso reivindicar com toda a convicção é a de blogger. Quanto a ser colunista n’O Independente, é verdade que tenho escrito para lá umas coisas, mas apenas desde o mês passado. Não se admire se chegar um dia em que por lá descubram a minha enorme falta de talento para aquilo. Também não sou professor catedrático, sou professor auxiliar. Pode parecer uma trivialidade, mas não é. Ser catedrático na academia é chegar ao fim da carreira. Ser auxiliar é estar quase no início. Também não sou bem músico. Digamos que toco umas coisas. Para ser músico teria que ser mais sistemático nessa actividade. O mesmo acontecendo com a melomania. Preferia que dissesse que sou um tipo que ouve uns discos. Mas também aqui não sou suficientemente sistemático para receber o epíteto que me apôs. Seja como for, muito obrigado pelas suas simpáticas palavras.
Só mais uma coisa: a célebre percentagem dos 95%. Eu disse que Let It Be Naked era melhor que 95% do que por aí se faz hoje. O Morsa acha isto exagerado. O Let It Be, para ele, é do domínio das obras-primas, e não têm ocorrido muitas ultimamente. Let It Be seria, portanto, incomparável com o que se vai fazendo nos dias que correm. Eu acho que ele tem razão, se falarmos do Let It Be versão original, não Naked. Mas eu estava a falar desta. Nesta versão, para mim, o disco deixa de ser uma obra-prima, para passar a ter apenas pequenas obras-primas lá dentro ("Across the Universe", "Let It Be", "Don’t Let Down"). Mas o disco está demasiado mutilado relativamente ao original (como já disse, faltam "Maggie Mae" e "Dig It", e depois há aquela versão assustadora de "The Long and Winding Road" – que nunca sairia se John Lennon fosse vivo e que na versão original eu colocaria junto das outras três pequenas obras-primas). Let It Be Naked não é uma obra-prima, mas (mantenho) continua a parecer-me melhor do que 95% do que para aí se faz hoje.
Bom Natal e um abraço ao Manuel.
PS – Uma curiosidade: a Morsa do nome do blog é o Walrus de "I am the Walrus" (muito provavelmente a minha canção favorita dos Beatles)?
Dallas e recebê-las
Peço desculpa pelo atraso em reagir aos comentários que o André Belo fez a meu respeito na 6ª feira passada. Vou ser breve: não sei se ele (lá por Dallas, Texas) anda a ler a blogosfera portuguesa. Espero bem que não. Espero bem que se esteja a dedicar a coisas mais interessantes. Agradeço os elogios, mas eles são completamente imerecidos. Não o digo por falsa modéstia, mas por ser rigorosamente verdade num caso concreto: a secção literatura anglo-saxónica mais recente é muito melhor dominada pela minha esposa do que por mim (eu é mais clássicos).
Mas houve qualquer coisa no post do André que me intrigou e que ele vai ter que esclarecer, nem que seja com um GI a apontar-lhe uma lanterna para o fundo da garganta: por que motivos “inconfessáveis” (palavras do próprio) serei eu o seu ódio de estimação?
Boas férias, moços!
Sexta-feira, Dezembro 19, 2003
E agora dou-vos música
O Morsa também já reparou: saiu algures entre Novembro e Dezembro aquele que será provavelmente o melhor álbum pop do ano: Love is Hell, de Ryan Adams. Concordo com muitos dos discos que ele põe na sua lista de preferências, mas não com outros. O ano, diga-se, não foi famoso. Depositei grande fé nele, desde que (cedo no calendário anual) soube que Rufus Wainwright, The Strokes e Ryan Adams (precisamente) iam lançar os seus discos. Afinal, a coisa não correu bem. Wainwright, depois do fanstástco Poses, fez uma coisita frouxa, cheia de pretensões. Ouve-se, sem muito mais do que isso. Os Strokes não cumpriram a promessa velvetiana do primeiro disco. Em vez disso ligaram a máquina das salsichas e desataram a fazer um pop/rockn’roll eficiente, engraçadito, mas que é um mau sucessor de Is This It?. Depois, Ryan Adams. Fez dois discos, um razoável, outro óptimo. O razoável é Rockn’roll. Não se disse muito bem do disco, mas a mim não me pareceu tão mau assim: é uma homenagem descomplexada e desabrida ao rockn’roll dos anos 70 e 80, sem pretensões a mais. Eu diverti-me a ouvir o disco, embora seja talvez o pior de todos os que fez. Já Love is Hell é outra fruta. Por um lado, é um certo regresso ao estilo que mais gosto nele, o de Heartbreaker (o primeiro disco), por outro é uma mistura disso (onde sobressaem as componentes Dylan e Neil Young) com britpop, de que resulta uma mistela com graça. Prova disso é a melhor faixa do disco, uma versão dylanesca de Wonderwall, o célebre hit daquela que será provavelmente uma das piores bandas de britpop de sempre, os Oasis. Surpresa para mim foi o disco de uma banda que desconhecia inteiramente: The Hidden Cameras, com Music is My Boyfriend. Vai na tradição de Stephen Merrit e dos Magnetic Fields (inclusive num certo exibicionismo gay, um bocadinho irritante, aliás). Mas é pop da melhor. Finalmente, o Morsa também fala doutro disco do ano, curiosamente um disco com 30 anos: Let it Be, dos Beatles (agora em versão Naked). Ainda um dia me hei-de pôr aqui a falar sobre os Beatles. Mas não hoje. Let it Be é (na minha modesta opinião) o pior dos melhores discos dos Beatles. A minha ordem de preferência seria: White Album, Revolver, Rubber Soul, Abbey Road, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Let it Be (e o resto por aí abaixo). Mesmo assim quem dera a muitas bandas fazer o seu melhor disco a nível idêntico. Let it Be Naked é pior do que o original. Por um lado, não constam nele duas das mais divertidas canções do original: Dig it e Maggie Mae – os disparates Lennonianos da praxe, que McCartney fez o favor de tirar agora. Por outro, a versão alternativa de Across the Universe (sem as parafernálias de Phil Spector) é muitíssimo boa mas é idêntica em valor à original. Finalmente, a versão de The Long and Winding Road sem as orquestras de Phil Spector é um absoluto desastre. A grandiloquência da versão original perde-se e fica apenas o pior McCartney: o das melodias delicodoces, a resvalar perigosamente para o estilo Elton John. Seja como for, mesmo trinta anos depois, uma coisa de fazer inveja a 95% do que por aí se faz hoje em dia.
É tudo, e bom fim-de-semana.
Outra vez o ambientalista céptico
Depois de ter feito ontem aqui um post sobre a decisão do Ministério da Ciência dinamarquês em retirar as acusações de "desonestidade científica" que o Comité Dinamarquês para a Desonestidade Científica tinha lançado sobre Bjorn Lomborg, vários blogs se pronunciaram sobre o assunto. Eu não tenho nada de especial a acrescentar, restando-me reproduzir aqui uma mensagem (v. mais abaixo) que me foi enviada e linkar para esses mesmos blogs. Que me apercebesse, do lado pró-Lomborg tivemos o A Causa foi Modificada, o Super Flumina, o Contra a Corrente, o Valete Fratres! e O Intermitente. Do lado contra-Lomborg, o Blogo Social Português e o Cruzes Canhoto.
A mensagem do leitor Rui Miranda é esta:
Relativamente ao livro de Bjørn Lomborg, tive oportunidade de o ler nas férias de verão passadas e é, de facto, muito bom, apesar de altamente maçudo (foi imprescindível ler em doses curtas e espaçadas…).
É especialmente interessante verificar quais deveriam ser as prioridades ambientais actuais (água potável, esgotos, saúde pública, etc.), em vez daquelas às quais é dado o enfoque primordial.
No que diz respeito a polémicas, faça uma busca na Net e veja a quantidade de ataques a que Lomborg foi sujeito (com muito poucos defensores – o mais famoso destes últimos é Patrick Moore, com site em www.greenspirit.com, antigo dirigente do Greenpeace). É impressionante que um livro tão bem fundamentado possa ser tão vilipendiado por opiniões vagas e sem substrato. Fico feliz pela notícia que dá no seu blog relativamente ao desfecho do processo que lhe tinha sido movido na Dinamarca relativamente à sua suposta desonestidade científica.
Uma última questão: existe uma tradução em português, no Brasil, lançada em 2002, pela Editora Campus.
Quinta-feira, Dezembro 18, 2003
O ambientalista céptico
Em Janeiro deste ano (2003) o Comité Dinamarquês para a Desonestidade Científica, um órgão oficial, tinha classificado como (precisamente) “cientificamente desonesto” o trabalho de Bjorn Lomborg, The Skeptical Environmentalist (engano-me, ou neste país de alta cultura ainda não se fez uma tradução desta obra crucial?), um especialista dinamarquês em estatística. Eu li o livro. É uma chatice: um livro muito sério, que não passa de uma entediante colecção de dados e testes estatísticos. Como qualquer livro científico deve ser, de resto. Mas tem uma mensagem essencial: existem problemas ambientais, sem dúvida, mas também existem muitos falsos problemas ambientais, criados na cabeça e na propaganda dos movimentos ambientalistas, os quais não só criam esses falsos problemas como também exageram outros, ou então fazem previsões que (com base em dados reais) não podem ser cientificamente fundadas. Bjorn Lomborg foi vítima de uma extraordinária campanha de desinformação por parte de ambientalistas e cientistas pouco escrupulosos. A Scientific American (uma revista de divulgação, sem qualquer valor de investigação original) publicou artigo atrás de artigo diminuindo Lomborg, a New Scientist (igualmente de divulgação) não ficou atrás. Não sou biólogo, nem químico, nem nada com autoridade directa em assuntos relevantes para o tema. Sou apenas um historiador económico que, por via da parte económica da profissão, teve que aprender métodos estatísticos. O que me impressionou na leitura do livro foi, por um lado, o facto de ele conhecer a mais actualizada literatura em matéria de história económica para dados sobre população, clima, densidade florestal, etc. etc., literatura da qual muito historiador económico do nosso país pura e simplesmente ignora a existência; e impressionou-me também a seriedade com que os testes estatísticos eram conduzidos e a forma cautelosa como as conclusões desses testes eram extraídas (como sempre deve acontecer com qualquer cientista sério). O dito Comité para a Desonestidade Científica declarou Lomborg desonesto exclusivamente na base dos artigos da Scientific American e da New Scientist, sem ter feito qualquer refereeing próprio. Ontem, o Ministério da Ciência veio dizer que, afinal, Lomborg não podia ser classificado como desonesto a partir dos dados que foram usados pelo comité. Eis uma lição de desonestidade científica. Mas volta a chamar a atenção para um livro que toda a gente devia ler para limpar a cabecinha sobre ambientalismo. Feito (ao contrário do que muitas vezes se quer fazer crer) por um convicto ambientalista. Cuja grande vantagem consiste em não alinhar no alarmismo idiota e perigoso do ambientalismo oficial.
Arte bunga
Fala-se muito em música pimba, mas esquece-se muitas vezes de mencionar a arte bunga. Eis, porém, que um dos mais importantes prémios nacionais para jovens artistas a decide agraciar. Este ano o seu vencedor é um artista portuense de nome Bunga. Pois Bunga venceu, de acordo com o Público porque apresentou “os resíduos de uma arquitectura feita em cartão”. Segundo o mesmo periódico, “esta espécie de ruína resulta de uma destruição realizada antes da inauguração da mostra dos nove artistas que se apresentaram a concurso”. Quando incitado a justificar a sua pérola escultórica, Bunga (o artista) terá dito: “Interessa-me revelar o acelerar da degradação das coisas”. E ao tentar realçar o “lado simbólico da habitação” (nas palavras do Público), Bunga terá acrescentado: “Tenho uma relação afectiva com a cidade, por isso interessa-me usar casas, que também associo a uma certa ideia de maternidade”. Haveria aqui muito a dizer sobre o entendimento muito peculiar da relação causa-efeito que Bunga revela. Reparem: “relação afectiva com a cidade” > “casas” > “ideia de maternidade”. A tentação seria pensar do seguinte modo: “Há maternidades. As maternidades são casas. As cidades têm maternidades. As maternidades estão em casas. Ergo, a habitação tem um lado simbólico” (quem sabe se não se insinua aqui também uma leve crítica à legislação sobre o aborto?). Esse raciocínio, porém, conduz-nos a uma simplificação que não faz justiça à obra de Bunga. A ele prefiro o enquadramento que esse mestre último de todos nós, o Engenheiro Eduardo Prado Coelho, oferece para a obra de Pedro Cabrita Reis, o qual tem plena aplicação à de Bunga: “É o próprio Pedro Cabrita Reis quem nos dá o tema inicial: a ausência. Não uma ausência metafísica ou existencial, mas uma espécie de ausência social que deriva da deterioração que sofrem as coisas abandonadas a si mesmas. […] [Mas] o combate que Pedro Cabrita Reis trava com os materiais não é apenas o balanço contemporâneo de tudo aquilo que serve para fazer umas mãos […]. É também uma distribuição equitativa entre o corpo de quem faz e a matéria onde o fazer se exerce numa extensa teoria de agressões, violências, queimaduras, equimoses”. Hmm, hmm. E agora? Vai uma tacinha de branco?
Quarta-feira, Dezembro 17, 2003
Tipping point? (2)
Claro que continuo sem certezas sobre se estamos ou não a viver o tipping point desta guerra (v. posts de ontem). Prosseguem, como seria de esperar, os atentados. Mas também há sinais contrários. Como tentei dizer, uma das características dos tipping points é o facto de antigos inimigos ou neutrais de repente começarem a namorar os futuros vencedores. De onde vêm hoje as boas notícias? Mais uma vez do lado do inefável Eixo das Doninhas. Não é que depois de exibirem a sua grande farronca (misturada com um paleio irrelevante qualquer sobre a soberania dos iraquianos), dizendo que não perdoavam as dívidas ao Iraque, agora afinal estão dispostos a fazê-lo? O Saddam uma ratazana? Peço desculpa, mas o Saddam ao menos ainda andou a lutar durante algum tempo, está preso e pode vir a enfrentar a pena de morte. Mas a estas osgas de arribação o que é que lhes pode acontecer?
Terça-feira, Dezembro 16, 2003
Hi oh Silver!
O cowboy responde:
André, eu não tomo ninguém por parvo, embora alguns argumentos contra a guerra do Iraque façam as pessoas que os produzem parecerem parvas (uma amostra representativa desses argumentos, alguns dos quais até tiverem eco aí no teu blog: Bush=Hitler, a cabala da Halliburton, a cabala do petróleo, a cabala judaica, a cabala neoconservadora, a cabala judaico-neoconservadora, a cabala do defunto Leo Strauss, para só nos ficarmos pelo mais imbecilzito do que se foi dizendo).
Pedes argumentos políticos. Pois bem, estou com pouco tempo para grandes elaborações, mas tenho a vantagem de já ter escrito sobre o assunto algumas vezes. Remeto, por isso, para quatro posts que escrevi vai para meio ano, em resposta a um artigo do José Pacheco Pereira no Público (a que ele nunca respondeu). São sobre as famosas AMDs, mas lá no meio (no quarto post, mais precisamente) alinhavo um conjunto de razões. São este, este, este e mais este.
O contexto em que foram escritos é um bocado específico, mas alguns aspectos essenciais estão lá. Podia acrescentar muitas outras razões. Talvez um dia o faça. Por agora, apenas para satisfazer o teu pedido, apresento estas.
Tipping point?
Em todas as guerras há um momento em que a sua sorte fica decidida, mesmo que o fim dos confrontos seja moroso. Nesses momentos já toda a gente sabe quem vai ganhar a guerra, mesmo aqueles que a vão perder. Estes apenas continuam o esforço na esperança de um milagre ou acontecimento dramático que, in extremis, infirme a vitória anunciada. Os exemplos mais famosos desse género de momento são a entrada dos EUA na I e II Guerras Mundiais em 1917 e 1941, respectivamente. Em inglês chama-se a esse momento o tipping point. A expressão é boa porque remete para um objecto em equilíbrio instável no topo de um suporte com dois declives. Durante a guerra, nalguns momentos o objecto em equilíbrio descai mais para um lado, noutros momentos descai mais para o outro. O tipping point é aquele momento em que, com um piparote, o objecto cai definitivamente para um dos lados.
Eu ainda não tenho a certeza que a captura de Saddam seja esse tipping point em nosso favor, mas há alguns sinais que apontam para aí. Temos o pressuroso pessoal de esquerda que, no meio de uma avalanche alucinada de depoimentos sobre a convenção de Genebra e julgamentos justos, parece reproduzir o comportamento de um insecto a quem lançaram uma nuvem de dum-dum em cima. Este pessoal, depois de andar muito contentinho nos últimos meses a asseverar que estávamos no Vietname outra vez, que isto era a derrota certa, a catástrofe, já não sabe muito bem o que dizer e creio que rapidamente desistirá desta linha de argumentação (a menos que uma verdadeira catástrofe sobrevenha). E depois temos os nossos sempre estimáveis amigos do Eixo das Doninhas. Na sequência de tanta conversa sobre vespeiros e atoleiros, a Al-Jazira Sur Seine (o Le Monde, na famosa expressão do Merde in France) concede que se abriu uma “segunda oportunidade para Bush”, e o PropagandaStaffel (o Libération, ainda segundo o Merde in France) apresenta um editorial do seu histórico fundador Serge July significativamente intitulado “Un tournant dans la guerre”, cheio de conselhos a Chirac para se reaproximar de Bush.
Eu só não acho isto tudo o sinal definitivo do tipping point porque este pessoal faz tantas previsões e engana-se tantas vezes que podem estar tragicamente enganados outra vez.
Conservative and proud of it
Pelo segundo dia consecutivo linko para o Andrew Sullivan e pelo mesmo motivo: mais uma notável colecção de impagáveis declarações de opositores à guerra.
Barnabé goes plural
O Barnabé está a ficar plural. Têem um novo membro, que funciona como um coro grego situado do lado direito. Chama-se Fernando Martins, foi meu colega de universidade e tem o condão de escrever óptimos comentários às patusquices que eles por lá debitam (v., por exemplo, o comentário a este post aqui).
Segunda-feira, Dezembro 15, 2003
Still not over
Dito isto, a guerra não acabou. O famoso cenário de fracasso (quagmire) é possível. Ninguém garante o contrário. Falo assim com tanta mais facilidade quanto já me exprimi em diversas ocasiões (há-de estar por aí nos arquivos e até houve amigos meus da blogosfera que me chamaram maluquinho por isso) contra aqueles que, hoje e já, decretam a quagmire. O meu argumento, antes e agora, sempre foi: decretar o fracasso ou o atoleiro agora releva da precipitação e da incompreensão do que é a heróica “resistência” iraquiana. Quem decreta o vespeiro agora é (sejamos francos) quem quer que ele aconteça. Não existe hoje (sete a oito meses depois de terminada a guerra convencional) qualquer base para ele ser decretado, face ao que por lá acontece. Mas a possibilidade de ele se vir a verificar continua a existir. Como é evidente, a captura de Saddam é um passo importante para que esse fracasso não se verifique. Mais por razões simbólicas do que por razões militares propriamente ditas. It’s still not over…
A festa é nossa, tá bem?
Para alguém que, como eu, desde antes do início desta guerra do Iraque tomou o partido da barbárie americana, não há nada de especial a dizer sobre o que aconteceu: a captura de Saddam Hussein é uma excelente notícia.
Sobre aqueles que neste momento conseguem, pateticamente, continuar a criticar os americanos sobre as mais diversas trivialidades, só tenho duas coisas a dizer. Uma: por favor, enxerguem-se… A outra: estão de ouro hoje, o Jaquinzinhos, o Andrew Sullivan, o Liberdade de Expressão, o João Pereira Coutinho e o Desesperada Esperança (que, como brinde, oferece posts muito bons sobre o fracasso da cimeira europeia; Bruno: quem me dera ter tido, aos 19 ou 20 anos, a cabecinha que você tem; eu precisei de pelo menos mais uma década de vida para organizar as coisas na minha pobre tola – e nem sequer com os mesmo resultados).
Sobre aqueles que, depois de andarem a criticar (pelos mais simples ou retorcidos motivos) esta guerra, agora se regozijam com a captura de Saddam, só tenho uma coisa a dizer também:
Comove-me muito a vossa alegria, mas chega um bocado tarde. Manifestem a vossa incontida alegria como quiserem, mas estas coisas têm uma assinatura e a vossa não está lá. Este momento só acontece porque os americanos fizeram aquilo que vocês não queriam que eles fizessem: foram lá fazer a guerra, quando vocês não queriam; ficaram lá ao fim dos primeiros meses de atentados, quando vocês começaram a dizer para eles se virem embora (e quando as tão incensadas ONGs, juntamente com a não menos incensada ONU, se piraram dali a sete pés). Quem merece rejubilar com este episódio são as seguintes pessoas:
1) Todos os iraquianos que se opuseram ao regime de Saddam; todos os iraquianos que não se opondo resistiram silenciosamente; todos os iraquianos que apoiaram e apoiam a coligação nos seus esforços de reconstrução (seja activamente, seja prosseguindo com o business as usual);
2) Os Estados Unidos da América e a Grã-Bretanha (e demais aliados, entre os quais nós);
3) Eu e todas as pessoas como eu que escrevendo, falando ou simplesmente não indo a manifestações contra a guerra também deram uma pequenina ajuda.
Vocês são uns tipos muito engraçados, mas hoje a festa é nossa, se não se importam.
Sexta-feira, Dezembro 12, 2003
Uma pequena biografia contemporânea: Muita giro!
David Hicks, o famoso “talibã australiano” preso em Guantanamo, recebeu finalmente a visita do seu advogado, o qual começa a preparar a sua estratégia de defesa. Aquilo que se pode dizer de Hicks é que teve uma vida “muita gira”. Aos 14 anos drogava-se e consumia álcool, tendo sido expulso do liceu e acabando aí os seus estudos. Começou então a trabalhar, tendo feito coisas tão giras quanto ser esfolador de cangurus e caçador de tubarões. Mas mais giro mesmo foi quando foi trabalhar para um rancho na Austrália profunda e casou com uma aborígene (que giro…), de quem teve dois filhos. Separou-se da senhora (uma coisa muita gira e típica na cultura aborígene australiana) e foi para o Japão tratar de cavalos. Entretanto, fez uma coisa mesmo mesmo gira, que foi converter-se ao islamismo, tendo ido combater nas fileiras do Exército de Libertação do Kosovo, de onde transitou depois para um grupo islamista paquistanês de Caxemira. Da última vez que falou com o pai ao telefone (a quem ia relatando os seus diversos sucessos) estava no Afeganistão, alistado entre os talibãs (a sério? Que giro!), a caminho de Cabul, “a capital ameaçada pelas bombas dos EUA e pelos soldados da Aliança do Norte”, na heróica expressão do Público.
Quando entrevistado, o pai de David, Terry Hicks, revela-se como sendo da escola do “muita giro”: diz que (prontos) o David é mesmo assim, "tem uma curiosidade aventureira e quer ver o que está do outro lado da montanha”, e que “não, ele não é um sujeito perigoso”, e que, no fundo, não é senão um moço que quer fazer coisas giras, “um rapaz típico, incapaz de assentar”.
Pois é, Terry, parece que agora o David lá teve que assentar. Mas também, com conselhos paternos desses não sei bem de que outra maneira é que ele acabaria.
Correcção
Disse ontem e anteontem aqui que o PS andava a namoriscar o Bloco de Esquerda. Enganei-me: pelos vistos anda é a namoriscar o Bloco de Direita. Parece que um tal Vítor Baptista, deputado do PS por Coimbra (e apresentado pelo Público como “líder do PS/Coimbra”, whatever that means), votaria Bloco de Direita (i.e, Partido da Nova Democracia) se não votasse PS. O homem clama pela existência de (hã, hã, cá está o regresso da urdidura…) uma “intriga”. A mim também me intriga o PS: o líder não se vê e quando se vê parece que saiu de uma sala de chuto; o seu fundador e líder histórico parece andar desde há algum tempo sob o efeito de cogumelos alucinogéneos; e ainda surge assim este pessoal a quem parece que tiraram ontem o colete de forças. Ou talvez não. Se calhar o homem tem razão: qualquer dia, pela quantidade de tolices que ambos dizem, tanto faz votar PS ou ND.
Quinta-feira, Dezembro 11, 2003
Blocos
Pedro, obrigado pelos elogios moderados (eram elogios, não eram? ou era ironia?) quanto à minha obsessão anti-bloquista. De qualquer maneira, eu acho que não sou assim muito obcecado com o Bloco. Eles são é muito patuscos e, por isso, constituem um bom alvo para mandar umas piadas (que é que a gente faz aqui nos blogs, no fundo).
Quanto à respeitabilidade, tanto dos Verdes como do BE, só duas coisitas:
1) Não há dúvidas quanto à evolução pragmática do Verdes. Mas o eleitorado deles era, mutatis mutandis, o mesmo do BE cá. O contexto alemão é que é diferente, nomeadamente por causa da destruição sistemática de todos os movimentos comunistas durante o nazismo e a tutela americana do país até aos anos 50. E eles foram oferecendo à governação do SPD uma cor ideológica mais marcada em muitos domínios.
2) Eu aposto em como não falta muito para vermos o dia em que alguém no PS nos vai apresentar o BE como um parceiro de coligação perfeitamente respeitável, dada a sua “evolução pragmática” para se tornar um “partido de governação”. O namoro está em curso. Só falta ver como é que acaba.
Amiguinhos
Houve um tempo em que agradecia a todos os blogs que mencionavam o Espectador ou o colocavam nos links permanentes. Era o saudoso tempo em que isto era, como lhe chamei em tempos, um blog de culto. Parece que já não é. Muita gente o lê, cita, ou toma como referência para esta e aquela coisa. Quando vejo no Technorati os blogs que citaram o Espectador sou surpreendido com os mais abstrusos blogs. Não tenho mãos para todos os que me citam, por isso vou ter que individualizar alguns de que estou a gostar de ler, mesmo correndo o risco de cometer algumas injustiças. Por enquanto vão apenas alguns. Talvez aumente a lista mais tarde, à medida que for lendo mais dos muitos blogs novos.
Gosto do morrisseyano There is a light that never goes out (a escolher do mesmo pacote, eu escolheria mais um nome como That joke isn't funny anymore, mas também está bem assim);
do cinéfilo (e melómano) Babugem;
do Estrangeirados (ainda por cima com um template muito bonito);
do Classe Média (feito das entranhas dessa tão injustamente odiada classe);
e (já disse, mas repito) sou fanático (só é pena que escrevam tão pouco) do A Kathleen Gomes é um boi (este post sobre o Natal em Portugal está quase ao nível do outro que citei há alguns dias sobre a Revista Xis) - já agora, parece que as raparigas não são de arquitectura do Porto mas de belas-artes (do Porto também, presumo). Por mim, tudo bem, é lá com elas, desde que continuem a fazer o blog.
Duas razões para estar contra o “sim” ao projecto de constituição europeia
Os dois artigos de hoje de um conjunto de personalidades portuguesas e europeias. Não tenho tempo para elaborar porquê agora. Talvez amanhã, talvez no fim-de-semana. Talvez não. Depende.
Ilusões
Sinceros agradecimentos, André, pela tua tentativa para me salvares do meu naufrágio mental. Sei que o fazes com a melhor das intenções. Apenas quatro breves notas:
1) Tenta, da próxima vez, escolher autores que escrevam melhor do que Pierre Bourdieu (já nem sequer peço ideias mais interessantes). O estilo, tanto nos artigos mais “ligeiros” como nos livros, sempre me pareceu um bocado rebarbativo.
2) Não era preciso vir com o Pierre Bourdieu para me colocar face a face com a minha ilusão biográfica. Eu tentei apenas dar umas muito parcas notas sobre um momento de ruptura da minha vida, do qual resultaram consequências futuras. Como também digo por lá a certa altura, eu não segui O Caminho, mas apenas um caminho. O qual, coisa que também faço notar, não teve nada de heróico. Foi antes um processo lento e muito indeciso até hoje. Para além disso, esse caminho não estava pré-definido. Foi algo que fui fazendo com as minhas escolhas contingentes. Outros caminhos teriam sido possíveis.
3) Mas já que estamos no domínio das ilusões, até admito que o Bourdieu (e tu através dele) apanhem bem a minha fraqueza intelectual e biográfica. Mas, e tu, André, de que ilusões é que te alimentas? Que instrumentos utilizas para te colocares num determinado ponto do espaço e do tempo? Ou será que, assim como eu sucumbi à ideia da totalidade de uma vida individual, tu já fragmentaste a tua em múltiplas direcções do espaço sideral?
4) Enganas-te sobre o facto de eu ter construído uma clara identidade pessoal. Fi-lo apenas num pequeno domínio: o da política. Quanto ao resto reina grande confusão. E eu já tentei dizer a mesma coisa noutra altura neste blog: a política é mesmo uma parte pequena da minha vida. Como diria o meu maitre à penser Raymond, “talvez os intelectuais se desinteressem da política no dia em que descobrirem como ela é um instrumento limitado”.
Quarta-feira, Dezembro 10, 2003
USA Day II: Back in the USSR
Howard Dean, o homem que acredita que a União Soviética ainda existe e acha que Bush sabia do 11 de Setembro, viu a sua candidatura nas primárias do Partido Democrata ser apoiada por Al Gore, o inventor da internet (sorry, Pacheco Pereira…), aquele que nos vai salvar do aquecimento global com um toque do dedo mindinho na via láctea, o homem que devia ser o actual presidente dos EUA. Se estes cromos ganham, deixo de ter sítio para emigrar, meu Deus!!
Ambos representam o drama da “esquerda moderada” actual, que tem vários avatares do outro lado do Atlântico (nem todos nominalmente de esquerda, de resto). Na época do inequívoco triunfo do capitalismo sobre as várias ilusões alternativas que se foram propondo, essa esquerda teve que oferecer qualquer coisa que desse a entender que estava metida no comboio: chamou-se Terceira Via. Mas nunca acreditou nisso. E esteve sempre à espera de uma oportunidade para oferecer uma “alternativa”. Pois parece que está a chegar o momento e todos os dias aparecem dos mais insuspeitos sítios descontroladas diatribes contra o capitalismo selvagem e barbáries quejandas. Estes moderados agora roçam os Blocos de Esquerda dos vários países: por cá, o PS e o BE; na Catalunha o PSOE local (chama-se PSC) e a Esquerda Republicana da Catalunha; na Alemanha, Schroeder e os Verdes (o BE do sítio); em França, muito provavelmente nas próximas eleições, o PS e a coligação trotskista; nos EUA, Dean e Gore. Enquanto é na Europa, é mau, mas é como o outro. Agora, ver os EUA cair nas mãos destes maluquinhos é que era de um homem dar um tiro na cabeça.
USA Day I: Recrutamento para o tablóide do Pedro
Pedro Oliveira, meu grande amigo: tenho uma óptima sugestão para o teu já célebre tablóide de esquerda. Quando a coisa for para a frente, por favor rouba o cartoonista desse outro tablóide semanal que se chama Expresso (o formato broadsheet é só para enganar). Chama-se António, o homem. Viste o último cartoon, no sábado passado? Bush, de gravata stars and stripes, fuma uma nota de 100 dólares, da qual sai fumo com a forma de cogumelo atómico. Bolas, Pedro, se aquilo não é um génio… De cogumelo atómico, pá! Não sei se percebeste a insinuação… Mas aquele gajo, pá… É de um gajo, pá... Não sei… Um gajo fica sem palavras…
De qualquer modo, eu adivinho para o teu projecto um futuro radioso. Em matéria de textos, acho que não terias problemas. Pessoal com talento para escrever num tablóide de esquerda não falta (até aí na vossa baiuca estão bem fornidos). Onde eu vejo mais problemas é na oferta de page-three girls. Sabes como é: a mulher de esquerda é uma mulher mais recatada, que não aprecia a exibição do corpo. Exige ser reconhecida por outras qualidades, mais do domínio do intelecto. Mas há uma hipótese de fuga. Crias uma page three maso-fetichista. Mulheres completamente vestidas (de preferência com camisas de fazenda – em homenagem ao líder do homónimo líder do Bloco) castigam-se, fustigam a mente, com obras de Chomsky, Boaventura ou a tese de doutoramento de Francisco Louçã. O que achas? Tem pernas para andar (já que não as mostra).
Terça-feira, Dezembro 09, 2003
Conversos
Releio o último post e apercebo-me de que o que digo no ponto 6 pode ser interpretado como o uso de um argumento que detesto: o argumento muitas vezes apresentado de que os conversos a uma causa, ideia ou conjunto de ideias são piores do que os que sempre acreditaram nelas. Nunca diria uma coisa semelhante. O que quis dizer é que o conhecimento que as pessoas mencionadas possam ter (e não faço ideia se Helena Matos o tem) do funcionamento de organizações esquerdistas as possa ter feito crer que o Daniel caberia numa categoria em que não cabe.
Aproveito este potencial equívoco para umas breves notas de autobiografia política. O “argumento do converso” já me foi lançado a mim por membros do Barnabé. Significativamente, foi-o por aqueles membros do blog que pior me conhecem: o próprio Daniel e o Celso. Significativamente também, aqueles que me conhecem verdadeiramente bem, o Rui, o Pedro e o André, nunca o fizeram. E nunca o fizeram porque sabem que eu não sou converso recente de nada. Andamos há, pelo menos 10 anos (creio eu), às turras políticas.
As notas autobiográficas que a seguir vou alinhavar não são o relato de uma corajosa gesta política ou qualquer coisa de semelhante. Pelo contrário. Eu sou uma pessoa muitas vezes lenta a tirar as devidas consequências políticas de certas escolhas ou situações. E o que vou dizer são uns pequeníssimos mas sinceros apontamentos sobre alguns aspectos da minha evolução política.
Eu também venho da extrema-esquerda. Não por escolha, mas por inerência, digamos assim. Nasci numa família de intelectuais de esquerda lisboetas. Entre os meus 8 e 10 anos vivi o 25 de Abril e o PREC num vórtice de loucura militante, entre manifestações e ocupações. Passei o verão de 1975 numa herdade ocupada no Ribatejo, entre trabalhos do campo e correrias montado em Unimogs e Berliets da Polícia Militar (os representantes do MFA na ocupação). Ao contrário de muitos que terão sido formados politicamente pelas leituras de Marx, Engels, Lenine, Bakhunine, Rosa Luxemburgo e demais heróis da praxe, eu fui deformado na minha adolescência pelas mesmas leituras. Quando cheguei à universidade há 20 anos atrás vinha todo preparadinho para usar a luta de classes, os modos de produção e a teoria da mais-valia a tudo o que me aparecesse à frente. Para minha grande desilusão à época e alegria futura percebi que havia maneiras mais complexas de olhar a realidade. Ao mesmo tempo, os desastres sociais, económicos e políticos dos países socialistas tornavam-se por essa época cada vez mais conhecimento comum. Depois destes vários choques, passei por um natural período de desalento. Dessa viagem interior resultou uma posição negativa sobre o meu património intelectual trasmitido via familiar e um absoluto vazio alternativo. Até que um dia, não me recordo já por que portas travessas, me vieram parar à mão três livros de Raymond Aron: Dix-Hit Leçons sur la Société Industrielle, Démocratie et Totalitarisme e, sobretudo, O Espectador Comprometido (numa horripilante tradução portuguesa que guardo com o maior carinho). Estávamos algures entre 1987 e 1988 (tinha eu muito pouco mais do que 20 aninhos) e data daí a minha conversão. Conversão, à época, simplesmente aos valores da democracia ocidental (e acessoriamente, da social-democracia, coisa que depois abandonei). No essencial não mudei desde aí. Faltavam-me muitas leituras e conhecimentos, e tinha medo de romper comigo mesmo, com o que antes tinha sido. Não segui, nessa altura, Aron até ao fim. Mas, afinal, a minha formação estava apenas a começar. A qual foi feita adquirindo o património do liberalismo clássico (ou, melhor, da sua revisitação no século XX). Li, mais ou menos por esta ordem, Popper, Hayek, Berlin, Nozick e Rawls, e através deles fui levado à fonte original: David Hume, John Locke, Adam Smith, Edmund Burke e Tocqueville. Lento como sou, continuei sem tirar as devidas consequências de tudo isto e pus-me a estudar economia. Deste estudo, para além de autores como Milton Friedman, Robert Lucas ou Ronald Coase (e outros menos significativos como Robert Solow ou Paul Romer), ficou-me aquela que me parece ser a mensagem principal da economia que foi vingando no mundo académico desde o final dos anos 70 e princípio dos anos 80: a de que há uma ordem espontânea (mais ou menos anárquica) na forma como o nosso mundo se organiza, ordem essa que não requer a sistemática intervenção do Estado, apenas algumas fundações legais essenciais. Acho esta uma mensagem muito importante. Mas o liberalismo que perfilho vai para além disto. Mas para falar sobre isso ficaríamos aqui muito mais tempo.
É verdade que hoje não defendo coisas que defendia há 20 anos atrás. Será também verdade que sou hoje uma pessoa diferente do que então fui. Mas neste período não houve conversão a nada. Limitei-me a seguir um caminho (outros, diferentes do meu, seriam sem dúvida possíveis) dentro do mesmo trilho. Há momentos, leituras ou episódios que nos fazem ter um click que muda algumas das coisas nas quais acreditávamos e, só então percebemos, não fazem parte do tal trilho em que seguimos o nosso caminho. Mas fora essas mudanças (algumas delas até muito bruscas) sou, na minha essência política, a mesma pessoa de há 17-18 anos atrás: incapaz de crer no marxismo que me foi transmitido pelo biberão e crente de que há algumas verdades essenciais (não todas as verdades) na interpretação do mundo que o liberalismo oferece e nas recomendações para a acção que daí decorrem.
Oooops... lá foi outra missa...
Segunda-feira, Dezembro 08, 2003
Odetes da casa
Ao que parece, anda para aí uma polémica sobre a publicação pelo Daniel Oliveira no blog Barnabé de uma fotografia de Odete Santos com uns paramentos teatrais que terá utilizado numa peça de revista. Não percebo a polémica. Quando vi o post em causa nem sequer liguei muito. O Daniel não precisa que eu o defenda, pois tem mais do que idade e capacidade para o fazer sozinho, mas mesmo assim vou ensaiar uma pequena defesa sua neste caso. Sou amigo do Daniel, mas não simpatizo com as suas ideias. Não sou amigo de José Pacheco Pereira nem de Helena Matos, mas simpatizo com a maior parte das suas ideias. Neste caso, porém, tomo o partido do amigo cujas ideias não são as minhas.
1) Odete Santos é uma mulher adulta e é uma figura pública. Enquanto tal sabe o que faz e tem que rodear as suas aparições das cautelas que todas as figuras públicas usam nessas circunstâncias.
2) Entrapar-se com umas vestes clownísticas para participar num teatro de revista é um episódio degradante na vida de qualquer pessoa (também o seria numa peça avulsa do nosso lamentável teatro “independente”, o que não muda nada às circunstâncias), muito mais se isso é visto como uma missão política de rejuvenescimento da imagem de um partido execrável – o que não sei se é o caso, mas até é mesmo capaz de ser.
3) Não sou nem um milionésimo sensível aos problemas do Daniel sobre a herança do PCP (estou-me mesmo nas tintas para essa herança), mas percebo o que ele quer dizer. Goste-se ou não, há um princípio de seriedade e de aparência na política que uma fotografia como aquela (ou a correspondente reportagem televisiva, que eu vi e que foi motivo de comentários descorçoados de pessoas de todos os quadrantes políticos) pode destruir.
4) Odete Santos é livre de fazer o que fez. O Daniel também. Daqui partir para uma diatribe sobre a misoginia do Daniel e a utilização da suposta fealdade do retrato para denunciar o Daniel enquanto estalinista que exige o comportamento dócil das camaradas, parece-me uma coisa francamente descabelada.
5) Descabelada sobretudo porque redunda numa espécie de super-moralismo politicamente correcto. Ele há boas e más imagens (a célebre fotografia de Che Guevara, algumas fotografias antigas de Cunhal, a fotografia de Sabine Hérold nas ruas de Paris, Churchill com o charuto a fazer o V da vitória, etc.) e pronto. A de Odete é má. Porque é clownística, porque é de teatro de revista, porque é um ponto baixo na imagem da pessoa em causa e do partido que representa.
6) Não conheço a biografia política de Helena Matos. Mas a sua reacção parece-me a de alguém que (tal como o José Pacheco Pereira) também andou pela extrema esquerda e sabe como as coisas se passavam nesses partidos em realção ao comportamento exigido às mulheres. Pois eu posso afiançar uma coisa: o Daniel, por muito de esquerda que seja, está tão longe disso como eu.
7) E pronto.
Quinta-feira, Dezembro 04, 2003
A Argentina na outra esquina
Há quem pense que nenhuma das desgraças económicas da Argentina serve de exemplo ou aviso para as economias europeias. Afinal, a Argentina é um país lá do terceiro mundo, endemicamente subdesenvolvido. Talvez muita gente o ignore, mas a Argentina já foi um dos dez países mais ricos do mundo (mais rico do que a maior parte dos mais ricos países europeus), em finais do século XIX e até aos anos 30 do século XX. A partir daí é o declínio, até à catástrofe corrente.
Eis aqui o que se pode ler n'O Intermitente, sobre a consideração lá para os lados da capital do império de se introduzirem controles de capitais e câmbios na UE, a pretexto de um valor insustentavelmente elevado do euro. Isto é do mais degradante terceiro-mundismo económico. O qual, de resto, não faz senão acrescentar-se aos outros sinais já visíveis há mais tempo do mesmo fenómeno: descontrole das finanças públicas nos maiores países, descontrole do desemprego (nalguns países chegando aos 40% entre os jovens), absurda regulação de mercados, um crescimento económico (se excepturamos a Irlanda) a passo de caracol.
Ainda é difícil a argentinização da Europa? Ainda. Mas não é impossível. E sobretudo: já esteve mais longe. Muito mais longe.
Scary stuff
Eis aqui um magnífico link, obtido via Andrew Sullivan. Neste link mostra-se como o director da Biblioteca de Alexandria decidiu pôr uma tradução árabe do Protocolo dos Sábios de Sião na secção de manuscritos da biblioteca, sob pretexto de ser uma das (entre aspas vão as citações) "bases sagradas dos judeus, uma espécie de sua primeira constituição, a sua lei religiosa, o seu modelo de vida". E acrescenta que o Protocolo é "talvez mais importante para os judeus sionistas do mundo do que a Torah". Para quem não saiba, o Protocolo dos Sábios de Sião é um texto anti-semita russo do início do século XX (inspirado num texto equivalente francês de meados do século XIX), feito para dar a ideia de ter sido escrito por judeus em busca da conquista do mundo. Há muito tempo que foi denunciada a falsidade do texto, cujo propósito era o de criar reacção contra a suposta ameaça mundial judaica. O texto, não obstante a sua demonstrada inverdade, foi sempre usado ao longo do século XX por todos os anti-semitas deste mundo para justificarem as mais diversas campanhas anti-judaicas.
Agora é o director da novíssima biblioteca de Alexandria que vem recuperar este horrível espectro do passado. Eu lembro-me quando foi inaugurada a biblioteca de Alexandria. A ONU financiou o projecto, uma fortuna foi gasta no projecto arquitectónico e na aquisição das obras. O Público deu destaque nas 3 páginas de abertura, e até entrevistou o director da biblioteca, classificado (como de costume nestas circunstâncias) como um "respeitado intelectual egípcio". Pois este link dá-nos ainda mais umas primorosas citações do "respeitado intelectual", que não resisto a transcrever aqui: na sua opinião, exposta num qualquer artigo, "Hitler matou apenas um milhão de judeus [porque] não havia cianeto suficiente"; a verdade para ele é que houve "cinquenta milhões de vítimas dos nazis [aparte meu: pelos vistos para estes já havia cianeto], dos quais um milhão de judeus e o resto ciganos, polacos e outras nações". O "respeitado intelectual egípcio" citado pelo Público dá como facto o mais repugnante revisionismo histórico. O mesmo revisionismo histórico que levou o mesmíssimo Público a decidir, de forma expressa em editorial, não voltar a publicar textos de teor idêntico embora muito menos arrojado.
Eu não compro toda a conversa do anti-semitismo actual. Mas que ele anda por aí, anda. E que anda em sítios muito respeitáveis e muito elevados no nosso querido planeta também não podem restar dúvidas.
Quarta-feira, Dezembro 03, 2003
Remate
Sobre o tema dos últimos posts disse que não ia responder ao André e não vou. Volto à questão apenas por dois motivos. Um, é que só tardiamente (hoje à tarde, precisamente) me apercebi de que esteve em curso, paralelamente à minha discussão com o André e o Celso, uma discussão dentro do Mar Salgado ,e do Mar Salgado com o Bloguítica sobre o mesmo exacto assunto. É de elementar justiça pedir desculpa pela desatenção e linkar para lá.
O outro motivo é para publicar uma mensagem que recebi via e-mail de um leitor assíduo, o Nuno Carneiro. Escusei-me a discutir com ele, sob o argumento de estar cansado (de discutir o assunto e tout court), mas prometi-lhe que publicava a sua mensagem (que como verão não me é favorável, ou é-o apenas em parte). Têm que desculpar a ortografia do Nuno porque ele estuda em York, no Pequeno Império do Mal, bárbaro país onde não se usa o mais sofisticado sinal de desenvolvimento civilizacional: os acentos.
Aqui vai:
Discordo de certos aspectos da sua
argumentacao e queria discuti-los aqui:
Pelo que tenho lido no seu blogue, nao e medico. Nem eu. E somos ambos
homens. Logo, em caso algum podemos fazer um aborto. Da forma como a lei
esta, nem sequer podemos aconselhar mulheres (a esposa, amigas,
familiares, etc...) ou amigos medicos, neste assunto. Porque a lei, pura
e simplesmente proibe. Sem mais. Nao ha discussao possivel sobre o
assunto. A lei, como esta, exclui-nos (e todos os homens que nao sao
medicos) da discussao do aborto. E exclui a Igreja tambem (os membros da
Igreja que sao mulheres, nao engravidam ...). A unica coisa que
poderiamos fazer (nos e a Igreja), se a lei nos deixasse, seria
influenciar a sociedade a que pertencemos. Fazer lobby. Voce faria lobby
contra. Outros fariam a favor. Fair enough. Mas nao. Antes que qualquer
um de nos abra a boca, todo o discurso ja e esteril. Porque o Estado ja
proibiu. Confesso que na discussao legal (que foi a referendo, nao a
questao moral) nao compreendo a posicao da Igreja. A Igreja devia apoiar
uma lei que permitisse o aborto. Depois, faria aquilo que diz ser a sua
missao na terra: dirigiria a sociedade nesta questao moral. Diria "Sois
livres de o fazer. Porem, sigam a nossa opiniao: E errado faze-lo". A
lei tal como esta, faz-nos uns impotentes perante o aborto.
Depois ha a difusa linha onde comeca a vida (a linha onde termina, nao
e mais nitida). Concordo que e uma questao fulcral. Nao sei responder.
Mas o local onde voce a poe parece-me exagerado. Um ovulo fecundado nao
e mais que uma celula. Distingue-se do ovulo e do espermatozoide, porque
tem 46 cromossomas e nao 23. Nao quer estabelece a evidencia de vida no
numero de cromossomas, quer? Contem toda a informacao para produzir um
novo ser vivo? Bom todas as outras celulas, a excepcao do espermatozoide
e do ovulo, a contem. Somente nao estao programadas para o fazer. Mas
entendo a sua posicao. Do ponto de vista conservador, parace-me tambem,
ser preferivel considerar uma base bem solida e bem certa, a
indefinicao, ao vazio. Em todo o caso a sua base esta muito recuada.
Segue longa missa
O post que se segue é grande, muito grande. É só para os mais bravos dos corajosos. Quem, legitimamente, não quiser ler, faça o favor de se dirigir ao blog seguinte.
André, obrigado por elevares um bocadinho o nível de uma conversa que já estava a assumir contornos um pouco desagradáveis. De qualquer modo, penso que chegámos áquele momento em muitas discussões em que não se passa de um ping-pong de argumentos repetidos. Dou-te esta resposta e encerro a loja para o tema: tenho uma vida para ganhar e uns seres vivos para alimentar aqui em casa. Dito de outro modo, dou-te a última palavra, se a quiseres usar.
Começo com uma menção histórica: o Presidente dos EUA que antecedeu o actual, Bill Clinton, ficou famoso por várias coisas, entre as quais a maneira como manipulava as palavras para fins de defesa em tribunal. Uma das suas mais famosas manipulações é aquela em que, quando inquirido sobre se teria tido sexo com Monica Lewinsky, respondeu: “it depends on how you define sex”. Menos famosa, mas que prefiro, foi uma outra, que na realidade não sei se é lenda urbana ou mesmo verdade, segundo a qual, no mesmo contexto, terá dito: “it depends on what is is” (“depende do que é é”). Vem isto a propósito da tua invocação do catecismo católico para dizeres que a Igreja não chama “homícidio” ao aborto, apenas dizendo que se encontra “em grave contradição com a lei moral”. Se leres o que lá está, não sei se é preciso ser-se mais explícito. Considera-se que a vida humana deve ser protegida desde a concepção; condena-se o aborto ao mesmo tempo que o infanticídio (os quais se diz estarem “em grave contradição com a lei moral”) e fazem-se várias considerações sobre terminar com vidas inocentes. A Igreja não considera homicído? Só se me disseres que “depende do que é é”. De qualquer modo, isto é a Igreja, não sou eu.
Dizes que não concordas que seja necessário definir um limiar para a vida humana para se ter uma posição sobre o aborto, porque achas que uma “lei sobre o aborto não deve tomar posição sobre a origem da vida humana, devendo antes considerar as questões sociais e relativas à saúde pública”. Como assim? Imaginemos que me sento à porta da rua de minha casa a matar galinhas. Provavelmente serei punido por infringir alguma lei, mas certamente não por galinocídeo. Mas se me puser sentado no mesmo sítio a matar criancinhas vou imediatamente preso com pena máxima. Há uma óbvia diferença qualitativa entre galinhas e crianças que a lei prevê (implicitamente, claro). Uma lei sobre o aborto é, como se torna evidente, também uma lei que define um período durante o qual eu posso eliminar sem consequências uma vida humana e um período a partir do qual enfrento consequências penais. Nem que seja de forma implícita essa lei está a tomar posição sobre a origem da vida humana, pelo menos está a tomar posição sobre a origem da vida humana para fins criminais. Não sou eu que defendo que a lei sobre o aborto deve tomar posição sobre a origem da vida humana. É a lei que, quer queira quer não, a toma para fins jurídicos.
É aqui que entra a outra parte da tua argumentação, que se liga com a fundamentação científica, “para fins metafísicos” (como dizes), da minha posição. Eu não peço uma fundamentação científica consensual sobre o assunto, que certamente não existirá. Eu peço uma fundamentação científica que me satisfaça. E peço que a tal definição implícita da origem da vida humana para fins penais seja o mais próxima possível desta fundamentação. O argumento do continuum da gestação da vida que apresentas levar-nos-ia muito longe, até terminarmos muito provavelmente nos tais carapaus à espanhola e mesmo mais além (aconselho-te, a propósito, a leitura de uma filósofo australiano, Peter Singer, que defende que certos animais têm mais direitos que certas pessoas e certamente mais direitos do que um embrião humano). É por isso que dato a origem da vida humana no momento inicial em que um novo organismo humano começa a sua existência mesmo em forma embrionária. É arbitrário? É sim senhor. Mas a cada dia que a gestação avança esse arbítrio torna-se cada vez menos sustentável. A menos que (e é aqui que entra a tal fundamentação científica) algum dia alguém me mostre por métodos científicos que o embrião a partir de certa altura adquire uma organização celular que o torna qualitativamente humano, coisa que antes desse momento não era. Eu não conheço ninguém que o tenha feito, mas deixei a porta aberta por escrúpulo intelectual, chamemos-lhe assim. Eu não conheço ninguém que o tenha feito, mas não posso excluir que isso aconteça e o argumento seja convincente. Argumentos como o do sistema nervoso central ou o da não-dependência orgânica da mãe não me convencem. Mas reconheço-lhes o mérito de serem um esforço no mesmo sentido.
E chegamos à questão da gravidez indesejada. Se queres que te diga, simpatizo com o sofrimento de muitas mulheres que têm uma gravidez indesejada e tentaria minorar ao máximo esse sofirmento. Mas não simpatizo com o sofrimento de outras mulheres. Esta gravidez pode ser a de uma Tia de Cascais que deu uma facada no casamento e tem (chamemos-lhe assim) o “azar” de ficar grávida. Pode ser a de uma qualquer mulher que foi violada. Pode ser a de uma adolescente a quem numa tarde de Verão aconteceu o que aconteceu. Pode ser a de uma mulher do Bairro da Liberdade que já tem 10 filhos e não quer ter 11. Pode ser a de uma mulher de classe média que não quer ter um filho deficiente. Podem ser mil e uma situações. Com umas há razões para simpatizar e ser sensível, com outras (peço desculpa) mas não há. Mas mesmo com aquelas com que se pode simpatizar cabe ponderar a solução proposta. Se a solução proposta é a eliminação de uma vida, por muito dramática que seja a situação da gravidez indesejada cabe perguntar o que deve a lei proteger: a dita vida ou as possíveis (mas não absolutamente certas) penas associadas a essa gravidez indesejada. Ser uma gravidez desejada ou não releva de escolhas e expectativas subjectivas contra as quais tens que ponderar um valor que penso não ser subjectivo: o valor da vida humana. Se eu tenho um filho bonito (e tu sabes como os meus filhos são bonitos) que, de hoje para amanhã, se queima e fica desfigurado, justifica-se livrar-me dele só porque as minhas expectativas de ter um filho fisicamente impecável se esboroaram de um momento para o outro? Se o meu carro foi assaltado (como já foi por três vezes) justifica-se que eu aprove legislação que elimine todos os assaltantes da face da terra? Nada do que até agora disse, obviamente, aponta para um programa de felicidade humana. Mas a vida não é só felicidade. Falo disto com tanto mais à vontade quanto a minha vida desde os 18 anos (como tu bem sabes, aliás) foi marcada por alguns eventos trágicos que ainda hoje são bem visíveis para quem me conheça pessoalmente. Em suma: a lei não deve ser o veículo para a prossecução de todos os programas de felicidade humana (se houver nem que seja um pequeno grupo de pessoas que só obtêm a sua felicidade através de actos canibais pretendes tu legalizar o canibalismo, por exemplo?). Deve ser um corpo de regras que incorpore ou se fundamente num conjunto de princípios mais ou menos universalmente partilhados por toda a gente. E o valor da protecção da vida humana é certamente dos menos incontroversos. E onde é que chegámos? Ao mesmo sítio do princípio: a partir de que instante deve esta vida ser incondicionalmente protegida, independentemente das consequências que ela possa trazer para a vida de outras pessoas?
Ita missa est.
PS – Pela segunda vez perguntas o que é uma execução capital. Não há tempo nem espaço para tudo, mas ainda respondo a essa: é um homicídio. Não tem outro nome. E é por razões parecidas, mas não iguais, às que apresentei acima que eu, Luciano Amaral, pró-americano convicto, te digo: sou contra pena de morte. Mas mesmo assim há diferenças qualitativas importantes entre a pena de morte e um aborto. A pena de morte é aplicada a alguém que é culpado de alguma coisa (se excluirmos a possibilidade do erro judicial), não a uma vida inocente. Pelo menos nos EUA, onde existe um sistema judicial que (com os defeitos que se quiser) oferece garantias de fair trial. Em Cuba ou na China já não será assim.
Terça-feira, Dezembro 02, 2003
Já te atendo, Monsieur Belô
Quanto a ti, André, meu protozoário, zoavo, iconoclasta, arenque fumado, já te atendo. A resposta para ti tem que ser mais longa, e já já estou sem tempo. Talvez mais logo. Se não, amanhã.
Cachimbo da paz
OK, Celso, aceito o cachimbo da paz que me estendes. Entre pessoas que se conhecem (mais ou menos bem, mais ou menos mal) prefiro que acabe tudo numa nota positiva. Sem querer entrar em muitos detalhes, parece-me apenas que andas (ou tens: afinal és o Barnabé que pior conheço) com um problema com a ironia. Entre várias outras coisas que não vale a pena explorar muito, pela repetição com que o mencionas, parece que te afligiu muito o meu comentário sobre vocês serem casos perdidos. Já que andas tão atento aos arquivos deste blog podes ir lá ver que o comentário era obviamente jocoso e dizia, especificamente, que vocês eram casos perdidos politicamente. A distinção era feita com o Pedro, que, dizia eu a brincar também, era ainda passível de cura, no sentido de deixar de acreditar nalgumas coisas próprias da esquerda. (entretanto reconsiderei a minha posição: vocês continuam a ser casos perdidos politicamente, e o Pedro também) E é tudo. Se levaste isto para o lado do fracasso pessoal, tenho muita pena, mas não é o que quis dizer.
O que me irritou no tom do teu post (e de outros anteriores também, de resto) foi, em primeiro lugar, o recurso à adjecitvação baratucha (a "parvoeira modernaça") sem qualquer discussão do assunto em causa, e foi, em segundo lugar, uma coisa que tens utilizado recorrentemente, que é o da insinuação da espertalhice ("prefiro um olhar beato mas sincero" - itálico meu -, por exemplo) para descrever as minhas posições. Vindo de outra pessoa não me incomodaria. Quem não me conhece pode, de facto, permitir-se a imaginar que eu seja o mais inconcebível pulha. Agora tu, Celso... Caramba, afinal já nos falámos o número de vezes suficiente para que esse género de argumentos não tenha lugar nas discussões entre nós. Eu farto-me de comer pancada dos Barnabés (e dou também). Nunca me chateei com rigorosamente nada do que os outros disseram ("velha direita", "beato de armário", "trauliteiro", "poeira sideral", para só mencionar alguns mimos). Mas já o teu ar de quem me está a topar mais do que os outros. O teu ar de quem insinua que eu sou um mero arrivista vivaço, francamente, já me andava a irritar há algum tempo.
Dito isto, estou pronto para recomeçar o tom da nossa relação pessoal no ponto imediatamente anterior ao do início desta discussão. Um abraço.
Segunda-feira, Dezembro 01, 2003
Vivinhos vivaços
Não escrevi o post anterior, sobre a minha posição pessoal relativamente à questão do aborto, para gerar reacções. Escrevi-o enquanto statement sobre o assunto. Ocorre que vários membros do Barnabé ragiram. Mal, mas reagiram. Com umas graçolas inconsequentes, nalguns momentos raiando o mau gosto. Como não disseram nada de substancial nos posts que escreveram, estava a pensar não dizer mais nada sobre o assunto. Mas, por acaso, eu que não gosto de comentários em blogs e, em geral, não os leio, acabei por ler os que lá no Barnabé foram feitos a propósito da questão. E deparei com dois excelentes comentários, um favorável à minha posição, outro desfavorável. Ambos feitos por pessoas que julgo conhecer (se eles são quem eu julgo que são), o Fernando Martins e o João Miguel Almeida. Estes comentários geraram outros comentários vagamente mais sofisticados de alguns membros do blog. E assim regresso ao tema. Aconselho a quem queira seguir a discussão ir ler os comentários a este e mais este posts.
As gracinhas dos barnabeicos têm todas o objectivo de me devolver a sítios a que não pertenço: à “velha direita” (pelo Daniel) e ao catolicismo (pelo Celso e o André). O propósito é, claro, o de me colocarem num terreno em que não me coloquei mas que eles reconhecem melhor e onde podem atirar as munições piadísticas sem discutir nada. O Fernando e o João Miguel, porém, lidam directamente com o que eu disse.
Tudo espremido, o meu post resume-se na seguinte questão: não é possível ter uma posição sobre o aborto sem definir um limiar para a vida humana (para quem partilhe valores de protecção desta). Eu defino esse limiar no momento da concepção de um novo ser humano. A razão porque digo que estou disposto a mudar a minha posição se me demonstrarem que a vida humana não começa ali é porque não sou versado em genética e pode haver argumentos científicos que me façam ver a coisa de outra maneira. Os piadéticos do Barnabé não discutem o assunto. Mas tanto o Vasco Rato, no artigo d’O Independente, como o João Miguel (ambos com posições favoráveis à legalização do aborto) fazem-no. Para o Vasco esse limiar é definido pelo momento em que o feto desenvolve o sistema nervoso central e passa a ter sensações idênticas às dos seres humanos plenamente desenvolvidos. Não me convence. Para mim a vida humana já começou antes. A sensação não é um critério de definição de vida humana. Para o João Miguel esse limiar acontece quando o feto sobrevive fora do organismo da mãe, graças a máquinas que o consigam manter vivo. Também não me convence. A não-dependência orgânica da mãe também não me parece critério definidor de vida humana. Para além de que, se imaginarmos uma qualquer tecnologia que mantenha o feto vivo desde a primeira hora de existência, a posição do João Miguel passa a coincidir com a minha. Mas quem não for capaz de oferecer um limiar para a vida humana tem que me explicar porque é que o aborto não é aceitável a partir das 14 semanas, das 24, das 30 ou até dos nove meses de vida intrauterina (ou mesmo extrauterina, até ao momento do corte do cordão umbilical). Que diferença qualitativa ocorre em qualquer um desses momentos para a dita criatura merecer a protecção da lei que é oferecida ao resto da espécie? O que é que acontece em qualquer um desses momentos para o feto passar a ser um Homem e deixar de ser outra coisa qualquer pré-humana, proto-humana, pró-humana (escolham o prefixo) que não merece o mesmo grau de protecção que conferimos aos membros da nossa espécie?
O Celso acha isto tudo uma “parvoeira modernaça para fazer currículo”. Não sou teu pai e tu já és crescidinho. Mas se pudesse dava-te um conselho: o de adoptares outro estilo para discutir com pessoas que não são estúpidas (categoria na qual penso incluir-me). Seja como for, a escolha de adjectivos é muito agradável, mas eu tenho o prazer de a devolver com o mesmo carinho com que me foi atirada a mim. Com uma qualificação. As tuas parvoeiras, Celso, também são enormes parvoeiras, diferindo das minhas apenas por uma razão: são pré-modernaças. Em primeiro lugar não vejo que me contradiga ao dizer que posso aceitar um aborto quando a vida da mãe estiver em risco. É vida humana contra vida humana. A escolha é trágica e dolorosa, mas terá que ser feita. Depois há a parvoeira pré-histórica de o espermatozóide ser vida, dado como exemplo da inconsequência da minha posição. Pois, uma mosca também é um ser vivo e eu mato-a alegremente. E uma galinha também, para me alimentar. O ser que resulta da fusão do espermatozóide com o ovócito é que já é o mesmo ser (em forma pouco complexa) que vai resultar num ser humano completo. E finalmente há a parvoeira intemporal dos “carapaus à espanhola”. Exactamente o que dizer de alguém que compara um feto humano com “carapaus à espanhola”? Não sei muito bem, mas talvez “que te façam bom proveito”, juntamente com o resto das parvoeiras que pelos vistos consegues emitir enquanto o diabo esfrega um olho.
Sexta-feira, Novembro 28, 2003
O novo aborto
A chamada “nova direita”, acoitada nas páginas do lamentável Independente, anda a provocar estragos. João Marques de Almeida e Vasco Rato publicaram na semana passada, nas páginas do dito pasquim, dois artigos em que expendem a sua posição pessoal quanto a certos aspectos de costumes. O artigo que mais discussão provocou foi o do Vasco, onde ele defende a descriminalização do aborto. Esta semana, nas páginas do Indy, Vítor Cunha (indirectamente), João Pereira Coutinho, Carlos Blanco de Morais e três ou quatro leitores discutem o assunto. Vale a pena ler.
Sendo eu (ao que consta por aí) também da “nova direita”, lá tenho direito a um espaçozinho no jornal. Não o vou usar para discutir esta questão, e portanto faço-o aqui.
Das posições expressas no jornal aquela de que me encontro mais próximo é da do João Pereira Coutinho. Não exactamente pelas mesmas razões, mas por razões parecidas.
Qual é o problema de o aborto ser acomodado ou não pela lei? É preciso ser cru neste aspecto: o aborto é moralmente intolerável (para qualquer um de nós que tenha a vida humana como um valor insubstituível) se um feto for considerado uma vida humana. Se o feto for considerado uma vida humana, convém dizê-lo de forma inequívoca, o aborto é um homicídio. Não há maneira de sair disto. O aborto só é tolerável, para quem partilha aqueles valores, se o feto não for considerado uma vida humana.
Aviso já, para evitar mal-entendidos, que não sou crente (de qualquer forma do cristianismo ou outra religião). E portanto nem sequer sou sensível, por exemplo, aos argumentos oficiais da Igreja, como os da não interferência humana nos desígnios divinos. Sou, portanto, favorável aos vários métodos contraceptivos (se vos interessa, também não quero transformar o direito à vida num princípio constitucional). Mas a questão do aborto é outra: como disse, depende de o feto ser considerado ou não vida humana. A minha posição de há muito sobre o assunto é contrária à descriminalização ou à legalização do aborto. Essa posição funda-se na ideia de que a fusão do espermatozóide com o ovócito dá origem a uma forma de vida humana. Mas isto é baseado em ciência de pacotilha. Não sou médico, muito menos médico geneticista. Se, portanto, me for demonstrado que estou enganado. Que a vida humana não começa naquele momento, eu estou disposto a mudar a minha posição. Até lá, à cautela, considero que a vida humana existe a partir do momento em que, embora ainda sob forma gestativa, o ser que vai ser um Homem (com maiúscula, para incluir a mulher) plenamente desenvolvido está individualizado (embora ainda dependente do organismo da mãe). Dentro deste princípio, só serei favorável ao aborto (pelo menos favorável a considerar a possibilidade) se a sobrevivência do feto for posta em alternativa à da mãe ou à sua própria sobrevivência num momento ulterior.
Outras posições sobre o aborto podem ser moralmente fundamentadas. Mas nenhuma dispensa um qualquer critério sobre o início da vida humana. Isto é, um critério sobre o momento a partir do qual o ser em causa merece a mesma protecção que todos os outros seres humanos. O resto dos argumentos que em geral se apresentam para defender o direito a abortar, peço desculpa, não têm qualquer valor moral: o facto de ser muito praticado (também os assaltos são e não se legalizam); o facto de a mãe ser pobre (como se os pobres não pudessem ter filhos); o direito da mulher a dispor do seu corpo (tomado à letra, isto significaria a aceitação do aborto até ao momento do corte do cordão umbilical); todos estes são argumentos meramente expeditos. Argumentos que só são válidos se a vida de que se vai dispor não for considerada uma vida humana.
Em geral estou sempre mais próximo de pessoas como o Vasco do que de pessoas como o Carlos Blanco de Morais. Para usar a terminologia em voga, da “nova direita” do que da “velha direita”. Mas esta é a mais difícil das questões para haver posições políticas claras a partir da tradicional bipartição entre duas mundividências opostas.
Aliás, nunca percebi porque é que existe uma divisão esquerda-direita na questão do aborto. Todos somos supostos partilhar os mesmos valores de protecção da vida humana. Não sei em que é que naquilo que acabo de dizer me revelo como sendo de direita, a não ser pela razão de que tradicionalmente a direita não é favorável à legalização do aborto. Mas na essência do problema, onde é que está a esquerda e a direita?
Ele passa os dias à espera deste momento
É evidente que o Andrew Sullivan passa os dias à espera das minhas citações para o seu blog. Pois hoje, magnanimamente, lá faço o favor de linkar para lá: os posts publicados até agora são todos de ouro.
Joy
Para as meninas em busca de fortes sensações sexuais, confirmo aviso que aqui fiz ontem: lá saíu hoje no Público o prefácio aos contos eróticos do Presidente.
Quinta-feira, Novembro 27, 2003
Fascismo e direito administrativo
Do meu colega N. recebo via e-mail mais uma peça inspiradora referente ao valoroso resistente anti-fascista Prof. Freitas do Amaral. A sua aura de herói romântico parece ganhar fama mesmo além fronteiras (atenção às partes em catalão):
O Prof. Freitas do Amaral aproveita a sua sabática para fazer turismo com o snr. Josep-Lluís Carod-Rovira, lider da Esquerda Republicana da Cataluña (ERC), um partido tipo Bloco de Esquerda lá da terra (e neste momento kingmaker na Catalunha), o qual se diz fascinado pelas ideias revolucionárias do grande Freitas e admite
que "el antic candidat conservador a la presidència, Freitas do Amaral, avui en posicions més progressistes" contrárias "a la dreta, governant a la ciutat i al país, mai no ha tingut gaire interès a recordar la història" antifascista (entenda-se). Sabemos também que os portugueses estão com Freitas porque o nosso "govern no defensa prou la sobirania nacional del país davant l'arrogància tradicional d'un Estat veí que, de fet, mai no va pair que Portugal se'n declarés independent i que, en ocasions, certs gestos delaten que la voldria tractar com la divuitena comunitat autònoma." Confirma-se pois que o nosso homem é hoje um revolucionário anti-fascista. E ainda relações internacionais do Bloco de Esquerda (fica-me a dúvida se o Trotsky também iriaa almoçar ao "restaurant, A Travessa, a l'antic convent de les Bernardes" para conspirar contra o perigo das direitas iberistas e castelhanizadas e o seu obscurantismo que pretende limpar a história ... Como se nos últimos 100 anos as teses da federação ibérica não tivessem vindo dos pensadores da esquerda). Uma delícia...
E segue o link com a obra completa.
Jorge e Barbarella
Numa famosa sequência do filme Barbarella de Roger Vadim Jane Fonda entrava numa malévola máquina que a punha a arfar de desejo (nunca na sua vida esteve Jane tão bem). Pois parece que agora, não sei se inspirado neste episódio, um cientista americano desenvolveu uma máquina de orgasmos femininos (vem no Público, na p. 32, não tem link). O feito tem honras de entrevista na New Scientist e pressente-se um lauto financiamento por trás. Se mais faltassem, eis o argumento definitivo que comprova a estupidez dos americanos. Uma dinheirama medonha por uma coisa destas quando nós, com um milionésimo do orçamento, conseguimos resultados bem mais espectaculares (no nosso caso os orgasmos são múltiplos): é já amanhã que sai no Público o prefácio do Presidente Jorge Sampaio ao Vol. VII da sua obra Portugueses. Vá meninas, controlem-se, por favor…
Segunda-feira, Novembro 24, 2003
Jihad
São neste momento incontáveis as fatwas lançadas por imãs em mesquitas de Londres a Jakarta, passando por Paris, Cairo ou Teerão, em favor de uma jihad contra o mundo ocidental. Não podem restar dúvidas de que uma parte do mundo islâmico entrou em guerra civilizacional com o ocidente, coisa que (utilizando uma expressão que tenho visto muito usada ultimamente quando os argumentos escasseiam) só não vê quem não quiser ver. Sabemos que não é a totalidade do mundo islâmico que declarou esta guerra civilizacional, mas uma parte, mais ou menos substancial, mais ou menos ruidosa. O que não percebo é porque é que foi só esta parte. As razões para um levantamento civilizacional do Islão contra o Ocidente e do próprio Ocidente contra si mesmo acumulam-se dia a dia. Dois exemplos avulsos: Tino de Rans vai candidatar-se às próximas eleições legislativas, através da sua organização, o Grupo dos Tinos de Portugal; Pedro Abrunhosa lançou um disco triplo (triplo! Querem maior sinal de decadência civilizacional?). Diz-se que o fundamentalismo islâmico quer fazer o Islão regredir até à Idade Média. Pois Tino e Pedro (que tal mais uma dupla cómica?) querem fazer os seus campos de actividade respectivos (a política e a música) regredir até um estádio anterior à hominização. Há uma jihad contra o Ocidente? Eu já lá estou: Alah Akhbar!
Franllemagne
Franceses e alemães continuam a falar seriamente da possibilidade de uma união franco-alemã. Já aqui gozei um bocadito com a ideia. Mas há coisas mais sérias a dizer sobre o assunto. Há algo essencial que muitas vezes se esquece sobre a União Europeia. A União Europeia tem sido um êxito até agora entre outras coisas pelo seguinte motivo: a generosidade dos países grandes em aceitarem um papel dos países pequenos nos mecanismos de decisão da união desproporcional à sua efectiva importância em termos económicos, demográficos ou geoestratégicos. É verdade que tudo isso foi feito na década de 50, quando os países europeus sem excepção se sentiam enfraquecidos. Mas seja lá porque razão for, é algo basilar à existência da união.
Essa generosidade está a desaparecer. Os países grandes procuram (em nome da eficiência) aumentar o seu poder nos mecanismos de decisão; países como a França e a Alemanha procuram ditar a política externa europeia, à revelia dos restantes ou impondo a sua posição como diktat; agora, a França e a Alemanha, perante as ameaças de vários países de que não vão aceitar o projecto de constituição em discussão, ameaçam ir-se embora e fazer a sua própria união. Este caminho é completamente contrário à tradição da União Europeia (e, anteriormente, da CEE) e, portanto, contrário aos princípios que determinaram o êxito do projecto até agora. Mas é um caminho que certos países estão ansiosos por seguir.
Fala-se de imperialismo americano. Pois, pois. Vontade de imperialismo sinto eu todos os dias na nossa União Europeia e ninguém se queixa.
Um boi
Continuo em registo de baixa intensidade. Volto só para mandar umas bocas (já estava com saudades). E a primeira boca é para assinalar o meu novo blog de culto (descoberto através de outro blog interessante, o Duo Dinâmico). Chama-se A Kathleen Gomes é um Boi, e é aparentemente feito por duas meninas da Faculdade de Arquitectura do Porto. Se acaso lerem O Comprometido Espectador, elas devem-no achar uma das coisas mais imbecis da blogosfera e arredores. Estou-me nas tintas. Já me diverti com elas como há muito não fazia. Assinalo particularmente este post aqui sobre a Revista Xis, aquela que sai aos sábados com o Público. Como eu gostaria de o ter escrito…
PS - Caro Camarada a Dias (para citar o meu íntimo amigo Almocreve das Petas): a ver se este blog não parece um bocadinho um Gost World blogosférico?
